“É preciso continuar a divulgar as doenças vasculares, o seu impacto pessoal, social e económico”

José Fernandes e Fernandes, diretor do Serviço de Cirurgia Vascular do Hospital de Santa Maria (HSM), diretor do Instituto Cardiovascular de Lisboa e professor da FMUL, preside a mais uma edição do Lisbon Vascular Forum. Em entrevista ao Jornal Médico, o cirurgião vascular fala, entre outras matérias, do “abismo” que separa a Cirurgia Vascular dos anos 60 da que é praticada atualmente. Apesar dos grandes progressos que se verificaram, defende que é necessário “continuar a divulgar as doenças vasculares, o seu impacto pessoal, social e económico”.


A entrevista pode ser lida na íntegra (em pdf) AQUI.


Jornal Médico (JM) – Ao longo do seu percurso, cruzou-se com algumas das maiores referências da Cirurgia Vascular. Que personalidades foram essas?
José Fernandes e Fernandes (JFF) Talvez por ordem cronológica, a primeira foi o Prof. João Cid dos Santos, cuja influência e prestígio eram enormes entre os alunos. Introdutor da flebografia – método de angiografia para visualizar o sistema venoso – e da endarterectomia, é unanimemente considerado um dos grandes pioneiros da Cirurgia Vascular. O seu nome e a sua contribuição são mencionados em qualquer tratado atual sobre patologia vascular. Num texto escrito e publicado há anos, referi a importância do Prof. Cid dos Santos na minha vida, como interno, no meu exame de saída que ele presidiu, nas palavras de estímulo que então me dirigiu e depois no caminho que me apontou e para o qual a sua contribuição foi decisiva: a minha ida para Londres, para o S. Mary’s Hospital.

Depois, H.H.G. Eastcott (Felix, como era chamado) que me acolheu em Londres e com quem aprendi o ofício de cirurgião vascular. Foi pioneiro da cirurgia da carótida na prevenção do AVC, era uma grande referência mundial e o seu livro Arterial Surgery marcou. Era um excelente cirurgião, para o seu serviço convergia a patologia arterial complexa, eram muito frequentes as roturas de aneurisma da aorta e foi aí que realmente comecei a operar cirurgia arterial.

A educação flebográfica que tinha adquirido em Lisboa com o Prof. António Coito e com o Dr. Salvador Marques facilitaram a minha integração na Vein Clinic que tinha sido estabelecida por John Hobbs, uma personalidade extraordinária com uma das melhores clínicas de varizes de Londres, e Andrew Nicolaides, diretor do Vascular Laboratory e com quem me iniciei na metodologia não-invasiva.

Mais distantes, porque não trabalhei diretamente com eles, Michael DeBakey, que foi de extrema simpatia e que me permitiu passar algum tempo no seu serviço em Houston. A sua contribuição foi decisiva para o desenvolvimento da reconstrução arterial, um gigante, sem dúvida, John Bergan, em Chicago, e Eugene Strandness, em Seattle, um grande cientista, introdutor da tecnologia Ecodoppler e cujo livro Hemodynamics for Surgeons é uma Bíblia.

Gene Strandness foi um amigo cujos conselhos foram muito importantes e que patrocinou, com Felix Eastcott, a minha admissão como membro da Sociedade de Cirurgia Vascular norte-americana.

Estas foram as minhas grandes referências na Cirurgia Vascular. Conheci outros com quem mantenho bons laços de amizade e cooperação, como Ted Dietrich, cirurgião notável e pioneiro da cirurgia endovascular, Frank Veith, cuja influência no mundo vascular é enorme, e Juan Parodi, que revolucionou o tratamento dos aneurismas da aorta.

Em Portugal, tive o privilégio de ter conhecido o Prof. Eduardo Coelho, grande pioneiro da moderna Cardiologia em Portugal, que se interessou pela minha carreira no curso médico, recomendava-me leituras e foi importantíssimo na minha formação. Sugeriu-me a Cirurgia Vascular, quando eu pensava na Cirurgia Torácica, com um argumento muito lúcido: terá mais independência como cirurgião vascular.

Depois, o Prof. Jaime Celestino da Costa, já numa fase mais avançada da minha carreira e cuja influência foi absolutamente decisiva para não ter abandonado a carreira pública. Relembro muito os seus argumentos e não esqueci a sua amizade.

JM – Que diferenças encontra entre a Cirurgia Vascular da altura em que era estudante e a de hoje?
JFF – Um abismo. Os anos 60 foram uma década de afirmação das possibilidades da cirurgia arterial, foram uma revolução.

Com o Prof. Cid dos Santos, como também nas aulas do Prof. Celestino da Costa, falava-se desta patologia arterial, e na patologia venosa a escola portuguesa era marcante. Hoje, há a preocupação de transmitir, de uma forma estruturada e repetida, informação sobre os principais quadros clínicos da patologia vascular e do que podemos fazer para tratar os doentes. Mas precisamos de uma ação continuada: recebemos ainda doentes tardiamente com isquemias graves, operamos demasiadas roturas de aneurisma da aorta em doentes nos quais não havia diagnóstico, o que significa que é preciso continuar a levar a mensagem, a divulgar as doenças vasculares, o seu impacto pessoal e também social e económico.



JM – Quais são as principais inovações dos últimos anos, na área da Cirurgia Vascular?
JFF – A Imagiologia Vascular, com novas tecnologias menos invasivas, como o EcoDoppler, a TC e Angio-TC e a RMN e Angio-RM, que nos permitem conhecer melhor a realidade da doença vascular, ao possibilitar a visualização da parede dos vasos (continente) e o fluxo de sangue (conteúdo) e que representaram um avanço extraordinário em relação à Angiografia que só mostra a circulação, não a parede do vaso.

Depois, a Intervenção Endovascular, que permite, através de uma porta de entrada no sistema arterial, navegar sob controlo radiológico e atuar por via endoluminal à distância, tratando quer as obstruções, quer os aneurismas. Encarada com ceticismo nos anos 70, desenvolveu-se graças ao interesse dos radiologistas e também dos cardiologistas e nos anos 80 foi claramente incorporada na prática clínica em Cirurgia Vascular.

De facto, tive uma enorme sorte: vivi e participei também nestas mudanças extraordinárias, creio que fomos o primeiro grupo vascular a oferecer um programa estruturado de atuação cirúrgica convencional e endovascular e fizemos os primeiros casos, em Portugal, de tratamento de lesões oclusivas ostiais dos troncos supra-aórticos e de aneurismas da aorta abdominal e torácica, bem como a incorporar a tecnologia dos stents nas oclusões arteriais crónicas.

JM – Na sua opinião, quais são os desafios primordiais nesta área?
JFF – Globalmente, creio que há, simultaneamente, um enorme esforço científico para compreender melhor os mecanismos causais do aparecimento das lesões vasculares e da sua progressão, para desenvolver novos fármacos que atuam sobre esses fatores e sobre a trombose intravascular, bem como um desenvolvimento tecnológico notável, que permite uma atuação reparadora da doença vascular, de forma efetiva, duradoura e muito menos invasiva.

Tratar, hoje, um extenso aneurisma toracoabdominal ou uma dissecção da aorta por via endovascular é uma melhoria extraordinária. Simultaneamente, devemos focar a nossa atuação em melhorar a nossa realidade nacional e, para isso, temos desafios que precisamos vencer. Reduzir o excessivo número de amputações major em Portugal, através de uma atuação organizada, sobretudo nos diabéticos, que permitam o diagnóstico precoce, a prevenção das lesões e a atuação de revascularização quando necessária, é prioridade.

O desenvolvimento de atuação multidisciplinar e integrada é fundamental. Depois, temos que promover no país o rastreio da doença aneurismática da aorta. Continuamos a ter demasiadas roturas em doentes nos quais era desconhecida a presença de aneurisma. Eu creio que em Portugal ainda haverá mais aneurismas e só um programa de rastreio estruturado nos centros de saúde incidindo sobre os grupos populacionais em risco poderá reduzir efetivamente a mortalidade desta doença. A Sociedade Portuguesa de Angiologia e Cirurgia Vascular patrocinou o levantamento do problema, a nossa prevalência é semelhante à de outros países europeus e é preciso agora passar à ação.

Depois, creio que é fundamental promover campanhas efetivas de Educação para a Saúde e de Prevenção, nomeadamente contra o tabagismo, o controlo adequado da diabetes e dos outros fatores de risco associados à doença vascular, arterial e venosa. Como considero indispensável a racionalização dos recursos disponíveis, fomentando concentração de competências, de modo a possibilitar a aquisição de experiência relevante e de expertise. Este é um assunto para o qual a intervenção esclarecida dos profissionais pode ser fundamental para fornecer ao decisor político informação rigorosa e científica que possa balizar a decisão política.



JM – Como vê as gerações mais novas de especialistas?
JFF – Com enorme confiança. Os programas de formação em Portugal são bons, os nossos jovens especialistas ficam sempre muito bem classificados quando se submetem ao exame europeu, revelam conhecimento e adquiriram treino.

Para se desenvolverem e acompanharem os melhores entre os seus colegas dos países mais desenvolvidos (é com eles que temos que ter ambição de nos compararmos!), precisam que haja capacidade institucional e isso significa serviços com dimensão, equipamento adequado, capacidade de incorporar o desenvolvimento tecnológico e organização. Este objetivo requer coragem e determinação: há que concentrar esforços, racionalizar a oferta de serviços, decisões nem sempre fáceis e populares.

JM – Portugal tem acompanhado os avanços da Cirurgia Vascular que têm ocorrido no Mundo?
JFF – Creio que sim. Mas precisamos de maior colaboração entre os diferentes serviços, a nossa voz precisa de mais força no contexto internacional e, para isso, precisamos promover estudos cooperativos que mostrem que a realidade nacional é competente, capaz e que integra o pelotão da frente. Há uma necessidade urgente de modernização do equipamento; a Sala Híbrida é o ambiente indispensável à cirurgia arterial moderna e mais complexa e isso requer um esforço de financiamento importante. Para que seja possível e rentável, precisamos de reorganizar a nossa carta hospitalar, temos que evoluir, como os outros países fizeram, como no Reino Unido, na Holanda e na Suécia, organizar e concentrar recursos e não dispersar talentos e… dinheiro.

JM – De que forma perspetiva o futuro da Cirurgia Vascular em Portugal?
JFF – Eu acho que temos o mais importante: recursos humanos competentes, motivados e realmente empenhados. Precisamos de uma ecologia mais favorável e isso passa por tudo o que já lhe disse nesta entrevista e sobre o qual tenho falado e escrito: é preciso ter coragem para reorganizar a oferta, concentrar recursos, racionalizar a modernização do equipamento, reordenar a referenciação e dotar as unidades com os meios indispensáveis a uma atuação moderna e eficaz. E, para este desideratum, chamo a atenção para a necessidade de diálogo informado e rigoroso entre os profissionais e os seus representantes no Colégio da Especialidade e nas sociedades científicas, com quem decide, para que não se perca tempo, se evitem decisões erráticas e pouco rentáveis.

Não há tempo a perder, porque com isso poderemos comprometer o Futuro, a qualidade da nossa prestação clínica, o dever de melhor servir os nossos doentes e a dimensão da nossa participação científica no desenvolvimento da especialidade.

JM – Como e quando surge o Lisbon Vascular Forum?
JFF – O Lisbon Vascular Forum é a nova designação dos Encontros Internacionais de Angiologia e Cirurgia Vascular, ao todo 18 anos de atividade e compromisso com a educação pós-graduada, que tem sido possível concretizar com o apoio da Indústria Farmacêutica e dos Equipamentos Médicos.

Têm dois objetivos fundamentais. O primeiro contribuir para a atualização dos profissionais e facilitar o contacto direto, pessoal com alguns dos protagonistas do desenvolvimento da Cirurgia Vascular, e que foi tão relevante para mim. O segundo discutir a nossa experiência, submetê-la à crítica dos Pares, pois esse é o grande instrumento de progresso e de desenvolvimento.

JM – Quais são os grandes objetivos deste evento?
JFF – Iremos discutir os novos desenvolvimentos no tratamento da isquemia crítica dos membros inferiores, sobretudo o seu impacto na melhoria dos nossos resultados terapêuticos e na doença carotídea. Debater-se-ão alguns desenvolvimentos que podem contribuir para uma maior eficácia na prevenção do AVC.

Vamos dedicar uma sessão importante à doença venosa dos membros inferiores, desde a educação da população à discussão das possibilidades atuais da intervenção terapêutica e da prevenção das suas complicações. É uma doença frequente, tem um impacto socioeconómico relevante e precisamos de uma atuação pautada pelo rigor científico.

Finalmente, discutiremos a patologia da aorta, cuja importância é relevante, e marcaremos uma posição na estruturação dos cuidados cirúrgicos, através de cooperação multidisciplinar que materializa o nosso projeto – que já é uma realidade atuante – de um Centro de Doenças da Aorta, uma convergência multidisciplinar, com o objetivo de melhorar cada vez mais os nossos resultados.

JM –
Em que assentou a escolha dos temas deste 5.º Lisbon Vascular Forum?

JFF – Na procura de esclarecimento de algumas das principais controvérsias atuais.




Entrevista publicada no Jornal do 5th Lisbon International Forum on Vascular Diseases,
distribuído aos participantes no 2º dia do evento, 20 de dezembro.

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