A vacina da gripe «é altamente recomendável a uma população vulnerável e com comorbilidades»

Não sendo 100% eficaz, a vacina contra a gripe é a melhor forma de prevenir a doença ou, pelo menos, as suas formas mais graves e outras consequências que a mesma possa originar, sobretudo em grupos de risco. Graça Freitas, subdiretora-geral da Saúde, fala dos grupos mais vulneráveis, dos benefícios da vacinação e sublinha a importância e a necessidade dos profissionais de saúde se vacinarem também.

O inverno é a pior estação em termos de morbilidade e mortalidade. Nesta altura do ano, circulam vírus da gripe, assim como outros vírus respiratórios e, de acordo com Graça Freitas, a vacina é a principal forma de prevenir esta doença ou, pelo menos, as formas mais graves, bem como as suas complicações.


“A vacina contra a gripe não tem 100% de eficácia. Contudo, é a melhor forma de prevenção e é altamente recomendável a uma população vulnerável, já frágil, com muitas comorbilidades”, refere, acrescentando que o médico de família deve ter este aspeto em atenção e explicar às pessoas a grande vantagem de se vacinarem.

Segundo indica, não sendo “uma vacina perfeita”, mesmo que algumas pessoas possam, ainda assim, vir a desenvolver uma gripe, esta será mais ligeira e necessitará de menos cuidados. “Será sempre menos grave e evitam-se complicações maiores, como uma pneumonia bacteriana”, diz.

Grupos de risco

Qualquer pessoa pode e deve vacinar-se contra a gripe. Contudo, existem grupos mais vulneráveis para os quais é de facto muito importante. Graça Freitas explica que esta é, sem dúvida, uma mais-valia para as pessoas com 65 ou mais anos, uma vez que têm já “alguma debilidade fisiológica” ou são, por vezes, indivíduos com doença crónica ou comorbilidades, que fazem vários tipos de medicação.

“Este grupo é propício a desenvolver uma gripe que, nas pessoas mais vulneráveis, pode ser origem de uma pneumonia bacteriana ou de outras consequências, como descompensação de doença crónica”.
Além destas, as normas da DGS recomendam a administração da vacina a todas as pessoas com doença crónica, a partir dos seis meses de idade, e a todas as mulheres em qualquer trimestre da gravidez.

“As grávidas não têm de ter receio. A vacina é inativada, é segura e é muito boa tanto para a mulher como para o filho, que nasce com alguma proteção que a mãe lhe possa transmitir. Só há vantagens”,
menciona Graça Freitas. 



A vacinação dos profissionais de saúde é, também, essencial, uma vez que o seu papel na transmissão do vírus da gripe é muito importante. Contraem a doença através dos seus doentes e, posteriormente, eles próprios acabam por ser transmissores.

“Os profissionais de saúde são muito resistentes a tratar-se e a vacinar-se, embora recomendem a vacina aos utentes. É uma questão ética vacinarem-se para proteger os seus doentes”, sublinha.

Entre os grupos recomendados pela DGS, há alguns mais vulneráveis e para os quais a vacina é gratuita, como os idosos e todas as pessoas que, independentemente da idade, residam em lares de terceira idade, unidades de cuidados continuados e outras instituições coletivas, em que a probabilidade de haver um surto é maior.

A vacina também é gratuita para pessoas com determinadas doenças crónicas, como as que se encontram em situação de transplante de células precursoras hematopoiéticas  e de órgãos sólidos ou que aguardam transplante, doentes hemodialisados e em processo de quimioterapia, pois, encontram-se imunodeprimidas.

As portadoras de trissomia XXI também têm direito à vacina gratuita, tal como as que sofrem de fibrose quística, com défice de alfa-1 antitripsina e, ainda, com doença muscular que não permita uma função respiratória normal.




“Este ano, alargámos a vacinação gratuita a esses grupos especiais em termos da sua condição clínica”, afirma Graça Freitas.

E acrescenta: “Não há, praticamente, contraindicação e ninguém deve ter receio de se vacinar se estiver, por exemplo, numa situação de imunodepressão.  Pelo contrário, esta é uma maneira de prevenir uma forma grave de gripe.”

Os profissionais de saúde também não pagam a sua própria vacina. “O Serviço Nacional de Saúde é a entidade patronal dos médicos, enfermeiros e outros profissionais das instituições públicas e dispensa-lhes a vacina de forma gratuita. Porém, a lei portuguesa diz que qualquer empregador que tenha os seus colaboradores em risco biológico de contrair ou transmitir uma doença tem de os proteger”, frisa a subdiretora-geral da Saúde.

Segundo explica, trata-se de um direito no âmbito da Saúde Ocupacional, ou seja, é o empregador, seja público ou privado, que tem de ficar com esse encargo. “Os hospitais privados têm de comprar as vacinas contra a gripe para dar aos seus colaboradores”, frisa.

A população em geral, onde se incluem as grávidas, deve adquirir a vacinar na farmácia, mediante prescrição médica, e pagar o valor de 3,80 euros.

Médicos devem recomendar e lembrar-se que também devem vacinar-se

Outubro e novembro são os melhores meses para se efetuar a vacinação contra a gripe. No entanto, Graça Freitas menciona que esta administração pode ser feita em qualquer altura do inverno,
até mesmo durante e época gripal, que em Portugal é tardia e ocorre, normalmente, em dezembro e janeiro.

O objetivo é que a população esteja o mais protegida possível e, segundo explica, há um período de cerca de duas a três semanas entre o dia em que a pessoa é vacinada até ficar imunizada.
A vacinação traz, sobretudo, um benefício individual a cada pessoa. Porém, ao fazê-lo, a população pode estar, também, a contribuir para a diminuição da propagação da doença.

“O médico deve recomendar fortemente a vacina que, apesar de ter uma eficácia de 70 ou 80%, dependendo do ano, conforme a concordância com os vírus que circulam, se não evitar a infeção, previne as formas graves, assim como outras complicações, até mesmo a morte, e esses são benefícios que devem ser explicados aos utentes”, salienta Graça Freitas.

E conclui, insistindo: “Quando estiver a recomendar, o médico deve lembrar-se de que também ele deve ser vacinado. É um dever ético.”




Artigo publicado na edição de outubro do Jornal Médico.

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