Opinião

Da Investigação à Democracia


Rui Cernadas

Vice-presidente do CD da ARS Norte


Rui Cernadas
Vice-presidente do CD da ARS Norte

O mundo necessita da pesquisa científica como de água, o que, parecendo um exagero intelectual, coloca esta preocupação ao nível de quem procura respostas para a sobrevivência do planeta e da Humanidade.

O homem precisa de respostas e de soluções que, no imediato e a prazo, face ao impacto visível produzido nas condições ambientais e climatéricas, nos ameaça rapidamente.

No plano particular da investigação clínica e da saúde, a última década assistiu a uma enorme evolução, em especial com o surgimento das novas tecnologias de biologia molecular e das nanotecnologias.

Os desenvolvimentos no conhecimento das alterações genéticas trouxeram grandes ensinamentos e abriram novas linhas de pesquisa, ainda que muitas vezes direcionadas a setores muitos particulares. Foi assim que, sucessivamente e em áreas distintas, foram sendo relatadas mutações genéticas para as quais se evidenciaram relações diretas, seja do tipo de precursor bioquímico, seja do tipo de uma certa desestruturação tecidular, por exemplo.

A Indústria Farmacêutica tem necessidade de novas moléculas e princípios ativos, o que não depende apenas dos dólares ou dos euros! Isto é, a investigação custa, como sempre custou, obviamente, muito dinheiro, mas sabe-se que até se atingir um produto que possa vir a ser comercializado se perdem muitos milhares de outros que, igualmente custando muito dinheiro, se sabe dinheiro perdido…

Acresce que, os organismos reguladores são crescentemente mais exigentes, o que representa para as companhias e instituições a obrigatoriedade de apertados estudos clínicos, cada vez mais criteriosos, mais complexos, mais prolongados e mais dispendiosos!

Muitos dos fármacos hoje largamente usados seriam, no presente, objeto de rejeição pela EMA, ou pela FDA!

Há que procurar um equilíbrio entre as contas públicas e a capacidade de nos prepararmos para o futuro, sobretudo quando a sobrevivência da espécie passa, em larga medida, pela promoção da saúde dos seres humanos, num mundo – designado de global – em que tudo, o bom e o mau, chega a todo o lado e bem mais depressa do que se esperaria…

Ou então, como costumo afirmar em muitas ocasiões, que o sofrimento humano seja considerado como um apelo à pesquisa e à investigação!

Basta pensar como se gastam cerca de onze a quinze anos para poder lançar um novo medicamento, ou seja, cerca de um bilião de dólares para o colocar no mercado.

Repare-se no prazo temporal para o lançamento de um medicamento e pensemos, ao mesmo tempo, na vida média de um Governo, entre a corrida eleitoral e o termo do mandato…

Talvez por isso, a Indústria Farmacêutica é a que mais investe na investigação e desenvolvimento, mas não vemos nenhum Governo, nenhum Estado, a assumir, por inteiro ou em maioria, os riscos financeiros nesta área…

É o preço da Democracia?
Ou um custo da Liberdade?
Em Estados ditos Sociais?



Artigo publicado no Jornal Médico de fevereiro 2014

Imprimir