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Digna Idade - a Autonomia e a Dignidade devem pautar a organização dos cuidados aos idosos


Pedro Melo

Especialista em Enfermagem Comunitária. Professor auxiliar convidado do Instituto de Ciências da Saúde da Universidade Católica Portuguesa.



 No mês de outubro comemora-se o Dia Internacional do Idoso. Proponho olhar para o envelhecimento alicerçado no olhar para as Pessoas Humanas. Kant, na sua visão antropológica da moralidade, enquadra a noção de que a Pessoa Humana se relaciona de forma estrita com os conceitos de Autonomia e de Dignidade. 

Somos tão mais Pessoas quanto mais nos permitem decidir sobre a nossa Vida e ter valor na nossa existência (principalmente o valor que damos a nós mesmos na construção da nossa história). À permissão para decidir sobre a nossa Vida chamamos Autonomia, ao valor da nossa existência podemos chamar Dignidade.

Associando as premissas de Kant com o conceito de “Pessoa” na Ciência de Enfermagem, percebemos que a construção do nosso “Eu” ao longo da Vida acontece numa ponte de cordas, em que uma das cordas em que nos apoiamos é a Autonomia (escolhendo o que queremos aprender, pensar e valorizar) e a outra corda é a Dignidade (quando nos mantemos fieis ao que somos e ao valor que damos a nós mesmos). 

Este é o Sentido da Vida, que se associa ao próprio conceito de Espiritualidade, alicerçado à necessidade de um cuidado intencional que a mantenha firme, no sentido de existência de cada Pessoa.

Somos uma sociedade atenta à importância de melhorar os sistemas de saúde e de segurança social na resposta aos idosos, mas precisamos reorientar o olhar da sociedade para a verdadeira essência de sermos Pessoas Humanas e aí sim encontrar todo o sentido da orientação política para as pessoas idosas. 

Esta atenção começa, desde logo, na importância que se deve dar à Autonomia das pessoas idosas, redefinindo a crença coletiva de que ter maior idade não é necessariamente ter menor capacidade. É entender que o facto de se poder ser mais dependente nalguns autocuidados não significa perder a Autonomia de decidir como e quando os quer fazer na sua vida.


Pedro Melo

É preciso colocar mais lentes de Enfermagem nas políticas sociais e de saúde

O Sentido de Vida pode esgotar-se quando nos procuram substituir por um outro conceito que não o nosso, com expressões como “Agora já não pode como podia antes… Tem que aceitar…”

Devemos contrariar as políticas sociais e de saúde que reforçam as profissões que apenas substituem (sem avaliar a Autonomia) e as infraestruturas que arrumam estes “seres que já não são” em espaços onde podem ser alimentados, higienizados e colocados em situações que muitas vezes esvaziam a Dignidade.

É preciso colocar mais lentes de Enfermagem nas políticas sociais e de saúde. Reforçar que as Pessoas Humanas não deixam de o ser quando envelhecem e que a Autonomia e a Dignidade devem pautar a organização dos cuidados aos idosos.

Desta forma teremos infraestruturas sociais focadas no Sentido de Vida de cada Pessoa Humana, sejam elas de internamento ou de cuidados comunitários. A rutura com a cegueira em relação ao Sentido da Existência proporcionará que os cuidados deixem de ser um muro que impeça cada Pessoa Humana, independentemente da sua idade, de a deixar ser ela própria.  

Isto vai acontecer quando o Sr. João do quarto 4 continuar a ser o João que esteve na Guerra Colonial Portuguesa e que, por isso, guarda alguns resquícios de feridas emocionais, e não é, na verdade, o idoso rabugento que quer manter o retrato da mulher que ama na sua cabeceira, em vez de apenas os copos da medicação.

Ou quando a D. Josefina da Úlcera por Pressão, que está acamada no domicílio, continuar a ser a Josefina que era apaixonada por música clássica e adorava dançar e que, por isso, quer continuar a ouvir a sua música, em vez dos programas de televisão que os cuidadores consideram “do gosto dos mais velhos”.

Ou quando perceberem que a D. Branca que vem para o Centro de Dia não quer jogar dominó, mas sim ficar sozinha nalguns momentos antes do almoço, porque as manhãs sempre lhe fizeram sentido serem momentos de reflexão, mas não a deixam, porque é hora do dominó e faz bem para estimular a mente.

Há a idade. Há a Autonomia. Há o Sentido de Vida. Há a Dignidade. E há a Digna Idade, que são todas se as anteriores também o continuarem a ser.



O artigo pode ser lido na edição de outubro do Jornal Médicos dos cuidados de saúde primários.

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