Opinião

Fazer da saúde mental para todos uma realidade

Luís Pisco

Vice-presidente do Conselho Diretivo da ARSLVT

No âmbito do “International Course in Primary Care Mental Health”, organizado pelo Departamento de Saúde Mental da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa, tive o privilégio de na sessão de encerramento do curso ouvir o Prof. Sir David Goldberg abordar o tema “Para um melhor Serviço de Saúde Mental”.

O Prof. David Goldberg é uma lenda viva da Psiquiatria mundial e não é todos os dias que temos a oportunidade de aprender com uma das maiores autoridades e uma das mentes mais brilhantes no campo da saúde mental. É professor emérito do Instituto de Psiquiatria, do Kings College, em Londres, e é conhecido pelo seu interesse na Psiquiatria social, no desenvolvimento de sistemas de classificação para a saúde mental, na melhoria da saúde mental nos cuidados de saúde primários e por gostar de trabalhar com países economicamente mais desfavorecidos.

Criou uma das ferramentas mais usadas, hoje em dia, em saúde pública e provou a efetividade do uso de questionários mais simples para estimar a prevalência de transtornos psiquiátricos em grandes populações.

Referiu numa entrevista que os livros considerados as bíblias da saúde mental pecam por inventar um número muito grande de doenças mentais. Na sua opinião, os psiquiatras devem abandonar o hábito de subdividir transtornos como depressão e ansiedade numa infinidade de subtipos e evitar listar comportamentos normais como sintomas de doenças.

Um dos pontos altos da sua intervenção em Lisboa foi a referência aos cuidados colaborativos em saúde mental como um caminho para a integração de cuidados e para a melhoria da qualidade, corroborando a ideia que outro britânico, Chris Ham, Chief Executive do King´s Fund, tinha deixado recentemente numa conferência em Lisboa de que não é necessária integração de organizações para se ter cuidados colaborativos e integração de cuidados.

Falando de saúde mental, faz todo o sentido fazer uma referência a duas publicações recentes, que são excelentes instrumentos de trabalho ao nosso dispor:
o 1.º relatório do “Estudo Epidemiológico Nacional de Saúde Mental”, da responsabilidade de investigadores do Departamento de Saúde Mental da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa, coordenado pelo Prof. Caldas de Almeida e publicado em 2013, e o relatório “Saúde Mental em Números – 2014”, da responsabilidade do Programa Nacional para a Saúde Mental, coordenado pelo Prof. Álvaro de Carvalho.

Este 1.º relatório do “Estudo Epidemiológico Nacional de Saúde Mental” descreve os antecedentes do estudo, os objetivos e a metodologia utilizadas, apresenta os resultados gerais sobre as taxas de prevalência de perturbações psiquiátricas na população adulta residente em Portugal continental, o grau de incapacidade associada a essas perturbações, a sua história natural, os possíveis fatores associados a esta história e os dados sobre a utilização de serviços de saúde por parte das pessoas que sofrem destas perturbações psiquiátricas.

Este projeto é parte de uma iniciativa internacional, a World Mental Health Survey Initiative ( WMHSI), coordenada pela Universidade de Harvard e pela Organização Mundial de Saúde, que tem vindo a levar a cabo estudos epidemiológicos de morbilidade psiquiátrica em países de todos os continentes, com base numa metodologia comum.

Os dados sobre a prevalência de perturbações psiquiátricas mostram que mais de um quinto das pessoas entrevistadas (22,9 % da amostra) apresenta uma perturbação psiquiátrica nos 12 meses anteriores ao estudo. Isto significa que Portugal tem, em conjunto com a Irlanda do Norte, a mais elevada prevalência de doenças psiquiátricas na Europa, mostrando um padrão muito diferente do encontrado nos outros países do sul da Europa. No entanto, onde Portugal mais se destaca dos outros países europeus é no grupo das perturbações de ansiedade.

A maior utilização de serviços verifica-se, como esperado, nos serviços de Medicina Geral e Familiar, que atenderam 9,8% da população da amostra, enquanto os serviços especializados de saúde mental atenderam 6.6% da amostra. Naturalmente, muitas destas pessoas foram vistas nos dois níveis de serviços. A Medicina Geral e Familiar é, assim, o setor dos serviços de saúde a que mais pessoas com perturbações psiquiátricas têm acesso.

Em relação à apresentação da publicação “Saúde Mental em Números – 2014”, salientaria o alerta feito pelo coordenador nacional, Prof. Álvaro de Carvalho, para o excesso de prescrição e prescrição errada de psicofármacos, considerando que este é um problema preocupante e que precisa de ser analisado, pois, Portugal é o único país em que o consumo de benzodiazepinas continua elevado e a subir.

Portugal é um dos países europeus com maior consumo de ansiolíticos, sedativos e hipnóticos, sendo o alprazolam e o lorazepam as duas substâncias que mais se destacam, dado o maior potencial de induzirem tolerância e dependência. Foi ainda alertado para o facto de pessoas com perturbações do humor consumirem mais ansiolíticos do que antidepressivos”, quando deveria ser ao contrário.

Outra importante chamada de atenção foi para a existência de “crianças e adolescentes medicados com metanfetaminas para supostas hiperatividades”, levantando-se a dúvida sobre se “esta fúria farmacoterapêutica estará isenta de consequências no funcionamento mental futuro de quem é alvo passivo de decisões tão pouco prudentes".

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