Opinião

Hepatites víricas, de “A” a “E”: o que há de novo?

Rui Tato Marinho

Gastrenterologista e hepatologista. Vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia.

O que há de novo acerca das hepatites víricas em Portugal? A grande revolução foi o aparecimento dos novos medicamentos para a hepatite C, com taxas de erradicação definitiva do vírus em mais de 95%.

A – A hepatite aguda A é, hoje em dia, muito rara, devido à melhoria das condições higienossanitárias do país. No entanto, recomendamos a vacinação pelo menos a todos as que façam viagens a países em vias de desenvolvimento. A vacina é segura e eficaz.

B – A vacinação está incluída no Programa Nacional de Vacinação. Recomendamos a vacinação de todos os que ainda não estejam vacinados. Alguns portadores crónicos do vírus da hepatite B ( VHB), cuja probabilidade de evoluir é mais elevada, têm indicação para terapêutica antivírica com entecavir ou tenofovir. A medicação e muito bem tolerada na dose de um comprimido por dia.
Tem que ser tomada para toda a vida. Os fármacos reduzem o risco de evolução para cirrose e carcinoma hepatocelular. Nalguns casos, verifica-se regressão da cirrose hepática.

C – Os nomes dos fármacos, antivíricos de ação direta, são: sofosbuvir, sofosbuvir/ledipasvir, um conjunto de três (paritaprevir/ombitasvir/dasabuvir), simeprevir e daclatasvir. Dentro em breve, estarão disponíveis mais dois (velpatasvir, grazoprevir/elbasvir). São todos de uso oral, com poucas reações adversas, tomados na maioria em 12-24 semanas. A eficácia ronda os 95%, sendo múltiplos os seus benefícios, incluindo redução no risco de cirrose, carcinoma hepatocelular e morte.

D – Hepatite delta: praticamente inexistente em Portugal. A vacinação da hepatite B evita a infeção pela hepatite delta, dado só ser viável em simbiose com o VHB.

E – Tem sido causa de várias epidemias ao longo dos anos na Ásia e no continente indiano. No entanto, cada vez se descrevem mais casos na Europa, incluindo Portugal. O que é preciso saber? A hepatite E existe em Portugal, há disponíveis testes serológicos (anti-VHE, ARN-VHE), a hepatite E pode evoluir para cirrose nos imunossuprimidos, existe vacina, mas apenas comercializada na China. A hepatite E é uma zoonose transmissível a partir do porco.

A Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia definiu como área prioritária as doenças hepáticas. Das várias iniciativas, salientamos duas infografias, uma sobre hepatite C e outra relacionada com a cirrose hepática e o cancro do fígado em Portugal. Estão disponíveis no nosso site www.spg.pt 

Mensagens-chave – hepatites víricas 2016
1. Os vírus da hepatite B e C são oncogénicos.
2. O número de infetados em Portugal por hepatite C ou B poderá rondar os 100.000.
3. Incluir ALT (TGP) na avaliação de rotina, pedir AgHBs e anti-VHC pelo menos uma vez na vida.
4. Os dados em Portugal indicam que cerca de 50% dos infetados pelo vírus da hepatite C tenham já fibrose avançada/cirrose hepática
5. A eficácia na vida real na erradicação do vírus da hepatite C com os antivíricos de ação direta ronda os 96%.
6. Infografias SPG: http://www.spg.pt/publico/infografias/. 




Artigo publicado na edição de julho do Jornal Médico.

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