Opinião

Intervenção psicológica nos doentes cardíacos «com vista a atingir os melhores resultados»


Nélia Rebelo da Silva

Psicóloga clínica, Hospital de Santa Marta (CHULC)


A importância das emoções na saúde física e nos processos de doença está desde há muito demonstrada. A maioria da investigação desenvolvida tem sido focada em estados emocionais negativos (depressão, ansiedade, hostilidade…), enquanto fatores de risco associados ao desenvolvimento de doença cardiovascular e ao agravamento da evolução clínica e do prognóstico.

Contudo, nas últimas décadas, múltiplos estudos têm produzido evidência de que a adaptação aos processos de doença grave e crónica e a explicação da variabilidade nos resultados alcançados em termos de qualidade de vida e de sobrevida estão estreitamente ligados à presença de características positivas, facilitadoras do processo de ajustamento à doença.

É importante salientar que as emoções positivas são distintas das emoções negativas, i.e., não se trata de um contínuo da mesma natureza, onde temos em extremos opostos as emoções positivas e as negativas. Num dado momento, ou até no modo habitual de funcionar de um indivíduo, podem coexistir emoções negativas e positivas.


Nélia Rebelo da Silva

Concretamente, em relação às doenças cardiovasculares, cada vez mais se tem vindo a compreender que as chamadas emoções positivas (otimismo, sentido de coerência, conscienciosidade, autoconfiança….) funcionam como protetores da saúde, sendo o seu benefício mediado por duas vias distintas:

1) pela via fisiológica, associando-se a menor reatividade do eixo hipotálamo-hipofisário-suprarrenal, a melhor imunidade e menor inflamação; 

2) pela via comportamental, na adoção de hábitos de vida saudáveis, relações interpessoais mais satisfatórias e maior adesão aos tratamentos.

De acordo com as guidelines vigentes, a intervenção psicológica nos doentes cardíacos, enquanto componente não farmacológica de uma abordagem interdisciplinar, deve ser orientada para as necessidades específicas de cada doente e dos seus cuidadores diretos, ajudando a modificar/extinguir aspetos cognitivos, emocionais e comportamentais “tóxicos”, mas também reforçando e promovendo o desenvolvimento de estratégias para melhor identificar, expressar e regular as suas emoções.

O processo de ajustamento ou adaptação após o diagnóstico de uma doença cardíaca não é rápido nem automático, envolve diversos componentes (físicos, emocionais, cognitivos, interpessoais e comportamentais), para os quais é necessário identificar com cada indivíduo quais os domínios de funcionamento mal adaptativo e aqueles onde dispõe de recursos/padrões de funcionamento positivo.

Para além da informação sobre a doença, dos tratamentos prescritos e das recomendações quanto à mudança de hábitos, nestes doentes o contributo da intervenção psicológica – assumindo que cada indivíduo é autor e colaborador ativo no seu comportamento e desenvolvimento pessoal – visa mobilizar competências de autorregulação, alicerçadas na reflexão sobre a escolha de objetivos pessoais, no planeamento da mudança de comportamentos e na sua manutenção, com vista a atingir os melhores resultados, a médio e longo prazo.



Artigo publicado no Jornal do Encontro Nacional (2019) da Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental.

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