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Opinião

A importância da medicina perioperatória do idoso para «preservar o seu estado funcional»


Rafaela Veríssimo

Assistente hospitalar de Medicina Interna, com competência em Geriatria, CHVNG/E



As cirurgias em idosos são cada vez mais frequentes, com aumento na incidência acima dos 75 anos, pelo aumento crescente desta população. O objetivo da medicina perioperatória do idoso é providenciar cuidados multidisciplinares a doentes idosos cirúrgicos, preservar o seu estado funcional com a mesma prioridade que se trata a doença subjacente, iniciando precocemente medidas preventivas apropriadas.
 
Apesar de muitos idosos apresentarem um envelhecimento saudável, a morbimortalidade associada à cirurgia é maior no idoso, gerando mais incapacidade, dependência e perda de autonomia. No entanto, é a fragilidade o melhor preditor de mortalidade do que a idade em si, tornando-se uma ferramenta essencial na avaliação perioperatória.

Idosos da mesma idade não têm o mesmo risco: alguns poderão não ser tão idosos e ter fragilidade, outros serão muito idosos, mas menos frágeis, constituindo um grupo heterogéneo, em que a idade biológica é mais importante que a idade cronológica. Independentemente de como é medida a fragilidade, correlaciona-se com o aumento do tempo de internamento, o risco de complicações e a mortalidade.


Rafaela Veríssimo

A colaboração multidisciplinar em todo o processo (pré, peri e pós-operatório) é essencial e um prognóstico pós-operatório de sucesso é definido não apenas pelo sucesso cirúrgico, mas também pela preservação da funcionalidade, da autonomia e da qualidade de vida.

A avaliação geriátrica global préoperatória pode identificar riscos para cada idoso. Podem também ser aplicadas ferramentas de rastreio rápidas para avaliar riscos específicos e identificar síndromas geriátricas comuns, como comprometimento cognitivo, polifarmácia e delirium.

A utilização de uma equipa multidisciplinar, o recurso à família e o uso de ferramentas de triagem apropriadas melhoram os resultados sem aumentar significativamente os custos. A determinação da fragilidade pode facilitar a identificação de doentes cirúrgicos vulneráveis, de modo que a abordagem cirúrgica e anestésica possa ser adequada.

A avaliação geriátrica global deve incluir uma avaliação funcional, cognitiva, nutricional e social, para além da história clínica e do exame físico. Défices cognitivos e funcionais podem não ser corrigíveis, mas seu reconhecimento permite melhor avaliação do risco e planeamento cirúrgico. Comorbilidades pré-existentes, como doença arterial coronária, enfisema ou insuficiência renal, têm um impacto maior no resultado da cirurgia que a idade cronológica.

Alguns riscos prévios à cirurgia podem ser identificados pelo médico de família: anemia (e tratar quando necessário); otimizar medicação utilizando ferramentas de prescrição para o idoso; avaliar malnutrição e prescrever suplementação nutricional oral, se necessário; determinar o estado cognitivo à admissão; avaliar risco de queda; promover informação sobre o testamento vital e diretrizes avançadas de vida; recomendar pré-reabilitação, como exercícios respiratórios.


Os idosos apresentam mais complicações pós-operatórias (insuficiência cardíaca congestiva, doença isquémica do coração, broncoaspiração, o delirium, pneumonia e infeção do trato urinário.), tempo de estadia hospitalar maior, aumento do risco de alta, com maior incapacidade e maiores custos de saúde e sociais.

A medicina perioperatória do idoso permite a avaliação de doenças crónicas, fragilidade e redução do stress na situação aguda, exigindo diferentes soluções de acordo com cada indivíduo, procedimentos intraoperatórios estruturados e uma via de tratamentos pós-operatórios igualmente estruturada.



O artigo pode ser lido na edição de fevereiro do Jornal Médico dos Cuidados de Saúde Primários, no âmbito de um Especial dedicado à 5.ª Reunião do Grupo de Estudos de Geriatria da SPMI.

Dirigido a profissionais de saúde e entregue nas unidades de saúde familiar (USF) de Portugal, esta publicação da Just News tem como missão a ampla partilha de boas práticas e de projetos de excelência desenvolvidos no âmbito do SNS.

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