Opinião

«A tentação para desinvestimento no SNS vai ser tremenda»


Alexandre Lourenço

Presidente da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares (APAH)



O Hospital Público não recuperou da última crise, vivendo em permanente sobressalto e manifestações de descontentamento. Chega à pandemia de covid-19 bastante limitado, enfrentado graves problemas estruturais.
 
A covid-19 alterou as perceções sobre o sistema de saúde. Principalmente sobre a relevância dos profissionais de saúde. Como comunidade, percebemos a importância de ter um serviço de saúde universal e de ter um corpo profissional empenhado e qualificado.

Contudo, a memória é curta – as pessoas que criticavam o SNS e os profissionais de saúde são as mesmas que agora batem palmas e que se sentem muito emocionadas com a resposta dos profissionais de saúde.

Face à iminente crise económica e fiscal, veremos se a perceção da importância do SNS se mantém. Face às crescentes necessidades em saúde, dado o empobrecimento inevitável, com maior reflexo nos mais frágeis, veremos a prioridade dada ao SNS. Infelizmente, o comportamento dos agentes é mais oportunístico do que reflexo de convicções.


Alexandre Lourenço

A tentação para desinvestimento no SNS vai ser tremenda. Mesmo dada a complexidade em manter um sistema dual em funcionamento: cuidados específicos para a covid-19 e cuidados gerais. Foi necessário vivermos uma crise com esta dimensão para o Ministério das Finanças desagrilhoar as instituições hospitalares. Nada de mais. O medo do colapso deu lugar à vontade política que tanto faltou nos últimos anos.

Antes da tentativa de redução do financiamento, que vai surgir, há uma oportunidade para o Hospital Público promover a sua reestruturação. A transformação digital e a integração de cuidados de saúde (entre níveis de cuidados) e cuidados sociais permitem inovar os seus modelos de prestação. Os centros de responsabilidade integrados têm potencialidade para melhorar a qualidade e o acesso a cuidados de saúde.

Mas, mais do que tudo, é necessário atalhar o problema estrutural de governação do Hospital Público, que limita tudo o resto. Não é possível continuar a aceitar que a gestão de topo não seja avaliada. Não é mais aceitável que o Hospital Público seja gerido por curiosos, por carreiristas, por arrivistas. Não é possível gerir o Hospital Público sem considerar a participação da comunidade, das universidades, dos doentes e suas famílias, e dos profissionais de saúde.


A covid-19 trouxe-nos novos problemas, sem que tenhamos resolvido os do passado. Ninguém tenha dúvidas de que entramos numa nova fase de problemas mais complexos. Como vamos gerir a conjunção da gripe sazonal com a covid-19? Como vamos garantir recursos humanos para o sistema dual? Como vamos enfrentar as desigualdades sociais? Como vamos garantir o acesso a cuidados de saúde?

O Hospital Público precisa de liderança e de compromisso. De liderança para mostrar o caminho por entre a tormenta. De compromisso para não ser abandonado pelo poder político.

Nós, o Hospital Público, aqui estaremos, como sempre estivemos. Com e sem covid-19.



Artigo publicado na edição de maio/junho 2020 do Hospital Público - jornal para profissionais de saúde, distribuído em serviços e departamentos de todas as unidades hospitalares do SNS.

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