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Opinião

Polifarmácia na população idosa: «O médico deve evitar, sempre que possível, a cascata de prescrição»


Márcia Kirzner

Professora de Geriatria da Faculdade de Medicina da Universidade da Beira Interior. Membro do Secretariado do NEGERMI - Núcleo de Estudos de Geriatria da Sociedade Portuguesa da Medicina Interna.



A população idosa apresenta maior risco de patologias associadas ao processo de envelhecimento e, como consequência inevitável, necessita de muitos medicamentos para o controlo dessas patologias.

A polifarmácia definida neste texto como sendo o uso de cinco ou mais medicamentos é um problema de saúde muito grave nos idosos, dado que está associada a um maior risco de iatrogenias, quedas, delírio, incontinência urinária, desnutrição e dificuldades na adesão ao tratamento. Por tudo isso, a polifarmácia, historicamente, tem sido associada a uma “má prescrição médica”.

Entretanto, é muito importante salientar que a polifarmácia pode ser “um mal necessário”, uma vez que as patologias existentes num idoso devem ser tratadas corretamente e não minimizadas, como sendo “próprio da velhice” ou porque “já toma muitos medicamentos”.

A omissão de um tratamento pode ter consequências graves na qualidade de vida do idoso e/ou dos seus cuidadores. Estudos demonstram que a omissão de tratamento é frequente em idosos, estando relacionada com a polifarmácia. Kuijpers et al (2008) relatam que 42,9% dos idosos que apresentavam polifarmácia estavam submedicados e apenas 13,5% dos idosos que não apresentavam polifarmácia eram submedicados.

O termo “polifarmácia apropriada” tem sido usado na literatura com o objetivo de fazer face à necessidade real da prescrição de muitos medicamentos para o idoso, reduzindo assim o risco de omissão da prescrição de medicamentos necessários para o controlo das múltiplas patologias.

O grande desafio na prescrição para idosos com várias comorbidades é conseguir o equilíbrio entre a eficácia, a segurança dos medicamentos apropriados e o risco de iatrogenia, o qual é cada vez mais elevado quanto maior for o número de medicamentos prescritos.


Márcia Kirzner

A doença iatrogénica é uma das condições mais comummente tratada no idoso e estima-se que mais de metade poderia ser prevenida. Os principais fatores de risco para a iatrogenia são a idade, as múltiplas patologias e a polifarmácia. Quanto maior for a idade e o número de medicamentos maior será o risco de interação entre eles e também haverá maior risco de interação entre o fármaco e a doença.

Existem na literatura várias listas de medicamentos potencialmente inapropriados para idosos, que alertam e auxiliam os médicos na prescrição dos medicamentos mais apropriados, contribuindo para a redução de eventos iatrogénicos. As mais conhecidas são os Critérios de Beers e “STOPP (Screening Tool of Older Person’s Prescriptions) and START (Screening Tool to Alert doctors to Right Treatment)”.

Com o objetivo de reduzir a polifarmácia, o médico deve, sempre que possível, evitar a cascata de prescrição. Isto ocorre quando se prescreve um fármaco para tratar uma reação adversa de um outro. A desprescrição de medicamentos nos idosos é uma prática comum dos profissionais com formação em Geriatria, sendo, por isso reconhecida, como “the art of taking older adults off drugs they no longer need”.

O processo de desprescrição no idoso deve ser sempre realizado independentemente da existência de polifarmácia ou não. Para a sua adequada realização é fundamental uma revisão frequente dos medicamentos e dos diagnósticos associados, correlacionando-os com o estado funcional do idoso.



Artigo publicado na edição de outubro do Jornal Médico dos cuidados de saúde primários, no âmbito de um Especial dedicado à 4.ª Reunião do Grupo de Estudos de Geriatria.
Jornal distribuído em todas as unidades de cuidados primários do SNS. 
Porque as boas práticas merecem uma ampla partilha entre profissionais!

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