Projeto-piloto de saúde oral nos CSP promove ganhos em saúde

Artur Miler, médico dentista deste espaço, considera que é uma iniciativa que deveria ser alargada a todo o país – de forma a dotar a população com baixa capacidade económica de uma boa saúde – e conta que não pensou duas vezes na altura de se candidatar.

“Trata-se de uma valência que o SNS não disponibilizava aos utentes. É um passo há muito desejado, pelo qual me interesso desde a minha carreira académica, e acredito que veio para ficar”, indica, acrescentando que teve, ainda, a aliciante de ser pioneiro nesta valência e de estar a construir algo novo.

Segundo recorda, apesar do seu entusiasmo pelo projeto, o início foi “um pouco complicado”, uma vez que se estava a construir algo totalmente a partir do zero. “Começámos a 15 de setembro de 2016. O consultório foi todo montado por mim. Além disso, foi preciso organizar a rede, perceber de que forma as consultas e respetiva logística associada iam funcionar e explicar isso a todos os intervenientes. Mas correu tudo bem”, recorda Artur Miler.

Atualmente, depois da Norma da DGS que saiu em janeiro de 2017, todos os doentes do SNS podem ter acesso a consultas de Medicina Dentária. Contudo, inicialmente, apenas alguns doentes, com determinadas patologias, estavam abrangidos por esta valência.



“Todos estes passos foram uma aprendizagem, foi preciso readaptar, reajustar, para que o Serviço funcionasse da melhor maneira, chegando a todas as pessoas que nos procuram, mas sobretudo às que mais precisam”, afirma.

E acrescenta. “Estamos numa fase inicial, mas todos os profissionais envolvidos, assim como a ARS e o ACES, querem contribuir para que este projeto seja um sucesso, tanto que até já permitiu o seu alargamento a todos os utentes.”

Ganhos em saúde

Aos 30 anos de idade, médico dentista desde 2010, Artur Miler refere estar a gostar muito da experiência de ser um dos pioneiros da Medicina Dentária nos CSP.

No seu entender, este projeto de saúde oral faz todo o sentido e, apesar de ser ainda muito recente, reconhece que se veem já ganhos em saúde nas populações abrangidas por este centro de saúde: Montemor-o-Novo, Vendas Novas e Arraiolos.

“Estamos perante gente que estava bastante carenciada. Temos maioritariamente pacientes adultos e idosos e muito deles tiveram aqui o primeiro contacto com o médico dentista”, observa.

E acrescenta: “Era uma valência que fazia muita falta, tal como faz noutras localidades, uma vez que existe ainda uma grande franja da população que não tem cuidados de saúde oral. Este programa veio colmatar essa falha, na minha opinião, mais para uma faixa de idosos e adultos com baixa capacidade económica.”

Contudo, e apesar de haver dados que já lhe permitem afirmar que se obtiveram ganhos em saúde, Artur Miler lembra que alguns utentes têm “pouquíssimas peças dentárias” e que é necessário desenvolver esforços de forma a ser criado um programa que consiga dotar esses doentes de uma reabilitação oral que lhes permita recuperar a função mastigatória.



“As principais necessidades de saúde oral estão a ser colmatadas com este programa, nomeadamente com o combate a infeções e com o tratamento das cáries, entre outras medidas. Porém, há agora que estudar a melhor forma de o articular, nomeadamente, com IPSS e autarquias, de forma a reunir sinergias e encontrar meios para proporcionar aos doentes com maiores dificuldades económicas uma reabilitação que lhes permita voltar a poder mastigar convenientemente”, sublinha.

Uma constante aprendizagem

Artur Miler refere que “os procedimentos já em curso neste momento encontram-se em muito bom ritmo e a ser implementados com qualidade”, estando lançadas as primeiras bases para que este tipo de consultas funcione no âmbito dos CSP.

Já são corretamente aplicados alguns filtros, até mesmo por parte dos médicos de família, no que respeita à referenciação, de forma a ser possível rentabilizar os recursos disponíveis.

“Creio que a ARS Alentejo e o próprio ACES têm desenvolvido esforços para conseguir dotar-nos dos materiais necessários. Sendo um serviço novo, estamos numa constante aprendizagem, precisamos de mais tempo para saber ao certo a quantidade de material adequado ao número de doentes”, indica.

Artur Miler é, até agora, o único médico dentista deste centro de saúde e conta com a ajuda da assistente dentária Rita Ramalhinho. Fazem 10 horas diárias de consulta, de segunda a quinta-feira. Às sextas-feiras a sala está reservada para a higienista oral.


Rita Ramalhinho e Artur Miler

Para o futuro, e no que respeita à Medicina Dentária nos CSP, o nosso interlocutor volta a referir a importância da reabilitação oral protética do doente, mas salienta a premência de se alargar o projeto a todas as zonas do país e a de se criar a carreira de médico dentista no SNS, algo que considera “fundamental”, pelo que saúda as recentes medidas tomadas pelo
secretário de Estado adjunto da Saúde, no que à saúde oral diz respeito.

O jovem médico dentista licenciou-se na Universidade Fernando Pessoa e fez, posteriormente, uma especialização em Reabilitação Oral na Faculdade de Medicina Dentária da Universidade do Porto. Encontra-se a terminar a sua tese de mestrado em Geriatria.



Artigo publicado na edição de julho do Jornal Médico.

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