Opinião

Relato de uma experiência multicultural no mundo da Medicina Geral e Familiar


Ana Luísa Esteves(1), Diogo Dias da Silva(1), Diogo Malheiro(1) e Rui Castro Coelho(2)

(1) USF Serpa Pinto, ACeS Porto Ocidental (2) USF Valbom, ACeS de Gondomar


A American Austrian Fundation (AAF) é uma organização não governamental e sem fins lucrativos, criada em 1983, com o objetivo de aproximar dois países (Estados Unidos da América e Áustria) e permitir a troca de conhecimentos e experiências em diversas áreas, tais como: medicina, comunicações/media, arte e cultura. Esta iniciativa bilateral rapidamente se alastrou para outros países, abrangendo atualmente mais de 100 em todo o mundo.

Um dos principais e maiores programas em curso da AAF é denominado de “Open Medical Institute – Medical Education Beyond Borders”, e foi iniciado em 1993. Uma das componentes basilares deste programa consiste na organização de seminários, em diferentes áreas da medicina, com a possibilidade de participação de elementos médicos de vários países.

Desta forma, está criada a plataforma ideal para um espaço de partilha de experiências multicultural, com diferentes pontos de vista sobre a arte da prática da medicina e com vontade de atualização e aquisição de novos conhecimentos.

Para a organização e tutoria destes seminários, a AAF conta com a participação de vários parceiros académicos, como o Duke University Medical Center, responsável pelo seminário de Medicina Geral e Familiar (MGF).

A inscrição para os seminários da AAF, nas várias áreas médicas e cirúrgicas da medicina, pode ser efetuada no site da instituição, disponível em www.aaf-online.org. Os potenciais candidatos estão sujeitos a um critério de seleção, disponível e definido no site da AAF. Depois de selecionados, os participantes apenas têm de custear a deslocação do seu país de origem até ao local onde decorrem os seminários, o Schloss Arenberg em Salzburgo – Áustria. Uma vez neste local, a estadia e alimentação são suportadas pela AAF.



Após candidatura, enquanto internos que se propuseram vivenciar esta experiência, fomos positivamente selecionados para participar no seminário de MGF intitulado "2016 Salzburg Duke Seminar in Family Medicine", que decorreu na semana compreendida entre 10 e 16 de Abril de 2016, em Salzburgo.

O primeiro dia ficou marcado pela sessão de boas-vindas, que contou com a presença de alguns elementos da organização: o Diretor do curso, especialista de MGF da Universidade de Duke - Carolina do Norte, com sub-especialização na área da Saúde da Mulher e Obstetrícia, o Subdiretor do curso, especialista de MGF, a exercer funções no departamento de Medicina Geral da Universidade de Viena, três Médicos especialistas de MGF e uma Interna do 2º ano de MGF, todos pertencentes à Universidade de Duke. Nesta, todos os participantes tiveram a oportunidade de se conhecer e ter uma abordagem inicial daquilo que seria a semana.

A primeira impressão foi extremamente positiva, uma vez que a organização, porventura motivada pela experiência acumulada em seminários anteriormente realizados, preparou uma receção e consequente jantar para que os intervenientes interagissem desde o início, com as devidas apresentações na língua inglesa, que era, aliás, um dos critérios obrigatórios para aceitação da candidatura.



A origem geográfica dos médicos participantes neste evento foi, efetivamente, outra questão surpreendente e inesperada, dado que dos 32 elementos inscritos, 13 eram provenientes da Europa, sendo a maioria destes originários de países de Leste (Turquia, Lituânia, Estónia, Kosovo, República Checa, Eslováquia, entre outros). Por outro lado, países como o Qatar, Tajiquistão, Cazaquistão, Geórgia, Tanzânia e Mongólia, encontravam-se entre as nações representadas.

De realçar que, paralelamente a este facto, também o grau académico era bastante diverso, contando tanto com especialistas como com internos de especialidade, demonstrando o carácter inovador e holístico deste evento, que decorreu no magnífico Schloss Arenberg.

Contando com uma plateia de mais de 30 médicos, repletos das mais variadas experiências e conhecimentos tidos nos diferentes sistemas de saúde do mundo, o evento destacou-se em diversos temas centrais acerca da realidade dos Cuidados de Saúde Primários (CSP) e MGF na Europa, segundo as diferenças existentes entre os vários sistemas de saúde, nomeadamente no que concerne aos princípios, níveis de cuidados, modelos, competências, remuneração, etc. Dos temas abordados, de objecto de partilha e discussão, destacamos:

• Os sistemas e subsistemas de saúde na Europa: a este propósito, ficaram patentes as diferenças entre os vários países representados. Países como a Inglaterra e Escandinávia têm um modelo baseado no Serviço Nacional de Saúde (SNS), financiado pelo Estado, cobrindo toda a população, mediante o pagamento de taxas, em que os CSP representam a “porta de entrada” do SNS.

Noutros países, como a Rússia e certos países da Europa de Leste, vigora um SNS financiado pelo estado, que cobre igualmente toda a população, mediante o pagamento de taxas, mas com médicos assalariados e em que o foco se centra nos cuidados secundários, estando os CSP a cargo de policlínicas, que prestam cuidados na área da Pediatria, Ginecologia, etc.

Outros há, como é o caso da Áustria, em que é obrigatória a realização de um seguro de saúde - estando envolvidas várias seguradoras, segundo profissão, região, etc., - , em que os médicos estabelecem contrato com as companhias de seguros, tendo os utentes acesso à livre escolha de médicos e serviços.



• Os diferentes tipos de prevenção e a evolução dos sistemas de auxílio informático: relativamente a este ponto, ficou vincada a exigência crescente a nível dos cuidados de saúde preventivos, em virtude do fenómeno do envelhecimento da população à escala global (estima-se que em 2050 existirão aproximadamente 50 milhões de pessoas com 65 ou mais anos nos EUA), o que se traduz na necessidade de envolver os doentes numa decisão partilhada, transmitindo-lhes as noções científicas, potenciadoras de uma resolução validada.

Salientou-se, também, a qualidade e necessidade dos sistemas informáticos nos procedimentos em CSP, numa lógica de vivência cada vez mais globalizada, a que a evolução científica e tecnológica obriga. Nesta matéria, foi identificado por alguns colegas a dificuldade e escassez de meios que se verifica em alguns países.

• O internato de MGF nos diferentes países: por exemplo, na República Checa, futuros especialistas hospitalares e de MGF fazem todo ou parte do seu internato no hospital, sendo a preparação de ambos muito semelhante.

• A abordagem da patologia depressiva: em alguns países, como o Cazaquistão, o tratamento de perturbações depressivas fica a cargo do especialista de Psiquiatria, não sendo uma patologia tratada pelo Médico de Família.

• O Plano Nacional de Vacinação (PNV): nos EUA, uma considerável fatia da população recusa a vacinação. Neste campo, ficou evidente que Portugal se encontra entre os países mais bem colocados no que toca ao PNV, tendo dos PNV mais completos e abrangentes. Por outro lado, países como a Eslováquia têm vacinação disponível, mas que ainda não integra o PNV.

Houve ainda lugar à participação nos workshops de “Entrevista Motivacional” e “Dar Más Notícias”, importantes para o treino de competências e desenvolvimento de técnicas comunicacionais. Nestes foi notória a participação de todos os elementos, a partilha de experiências, e manifesta a vontade de apreender um pouco das demais culturas e sistemas de funcionamento. Além destas palestras, realizou-se uma sessão destinada à apresentação individual de casos clínicos relevantes para a MGF e, de certa forma, representativos da realidade de cada sistema de saúde local.


Diogo Dias da Silva, Diogo Malheiro, Ana Luísa Esteves e Rui Castro Coelho

Do convívio e troca de experiências com os colegas oriundos dos vários países, ficou bem vincada a diferença entre "General Practitioner" e "Family Doctor", não apenas no sentido conceptual, mas também no âmbito da prática clinica, concluído pela diferente abordagem diagnóstica e terapêutica de patologias comuns, pela diferente estruturação dos serviços de saúde e diferentes faixas etárias a que os cuidados se destinam, entre os países representados.

Ao longo da semana, a partilha de conhecimento e o enriquecimento perante o contacto com outras realidades na Europa e fora desta, bem como a noção do apoio que cada país concede aos cuidados de saúde, foram uma constante, ao qual não é alheio o facto de todos os colegas terem ficado alojados no Schloss Arenberg e fazerem as refeições em conjunto.

Entre os quatro, e ao longo da semana em que decorreu o seminário, surgiu várias vezes o pensamento e a reflexão conjunta de que, decorridos 37 anos desde a fundação do nosso SNS, prestamos em Portugal cuidados de saúde de qualidade relevante, pela solidez, equidade e constante melhoria do SNS ao longo do tempo.

Temos uns CSP que representam o primeiro contato dos indivíduos com os serviços de saúde e uma MGF centrada na prestação de cuidados essenciais, no aconselhamento na resolução de problemas dos indivíduos, em todas as faixas etárias, com disponibilidade e de forma personalizada, que tem em conta as mudanças demográficas, políticas, económicas, sociais, religiosas, os avanços e limitações da medicina, as necessidades e expectativas dos utentes.

Pelos motivos enumerados, consideramos que urge valorizar o nosso SNS, a autonomia funcional e organizativa das Unidades de Saúde Familiar, o trabalho em equipa, a literacia e a capacitação dos utentes. Com efeito, reforçámos a convicção de que os sistemas de saúde baseados em CSP com médicos generalistas, efetivamente treinados e que estabelecem contacto direto com a comunidade, prestam cuidados com maior efetividade, em comparação com os sistemas com uma fraca orientação para os cuidados primários.

Como balanço final, cumpre-nos realçar e enaltecer da partilha e do conhecimento, da aquisição e melhoria de competências, do valor e desafio de uma experiência multicultural no mundo da Medicina Geral e Familiar, e do reconhecimento de que temos, de facto, um dos melhores sistemas de saúde do mundo.

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