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«Temos de evitar que os problemas do SNS se transformem em meras notas de rodapé»


Xavier Barreto

Presidente da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares (APAH)



Por todo o SNS temos assistido ao encerramento de serviços. Geralmente encerramentos transitórios, e quase sempre por escassez de recursos humanos. Há quem ache que estes encerramentos não são graves, que são empolados para atacar o SNS. Como se a negação do problema contribuísse de alguma forma para a sua resolução.

É verdade que o SNS é muito mais do que os seus problemas. Todos os dias se realizam aqui milhares de consultas, milhares de cirurgias e outros tratamentos. Todos os dias se salvam vidas no SNS.

No entanto, nada disso diminui a gravidade destes encerramentos. Para a pessoa que procura o Serviço, para a grávida que entra em trabalho de parto e não sabe exatamente para onde se deve dirigir, o SNS falha quando mais precisavam dele. É uma quebra de confiança inaceitável, que compromete o contrato social implícito entre aquele cidadão e o Estado.

Não podemos conformar-nos com estas situações. À medida que o tempo foi passando, os encerramentos ganharam contornos de normalidade e deixaram de abrir os noticiários. O espaço mediático preenche-se com outros temas e os encerramentos passam a ser meras notas de rodapé.

O impacto que estes encerramentos provocam na vida dos cidadãos não pode passar a ser aceitável. Não podemos aceitar que o tempo aplaque o nosso inconformismo como se, de repente, a não garantia de acesso tivesse passado a ser uma característica do nosso SNS.

É necessária uma intervenção determinada e imediata por parte da Tutela. É necessário planear uma nova resposta, assente nos recursos existentes (e não nos recursos ideais, que nunca vão existir) e que priorize os doentes mais urgentes.


Xavier Barreto

É urgente revalorizar os trabalhadores do SNS, incorporando nas suas remunerações métricas associadas ao desempenho, permitindo dessa forma captar e reter os melhores. Este aspeto é crucial, num momento em que se prevê uma redução dos seus rendimentos reais, em função do impacto da inflação.

Na rede de urgências, é preciso assumir a criação de uma nova primeira linha de resposta nos Cuidados Primários. Não pode resumir-se a um conjunto de vagas de consulta para onde se reencaminham meia dúzia de doentes não urgentes. Deve ser uma rede estruturada, com equipamentos e recursos humanos capacitados, que se constitua como primeira linha para o doente
agudo e que referencie os casos com necessidade de atendimento mais diferenciado para os hospitais.

Ainda no âmbito do doente agudo, é fundamental que se criem respostas não programadas no ambulatório hospitalar, respondendo às agudizações dos doentes crónicos seguidos em meio hospitalar, prestando assim cuidados mais próximos e humanizados.

Para os doentes crónicos, é necessário criar novas respostas para aqueles, que, tendo situação clínica estável, podem (e devem) ser seguidos em contexto comunitário e de proximidade.

Para isso, será necessário criar novos percursos clínicos, que incluam maiores contributos por parte de outros grupos profissionais para além do médico, juntando a este percurso todos aqueles que possam contribuir para a gestão da doença crónica: associações de doentes, farmácias, municípios, mas também os setores privado e social.

O sistema de saúde tem recursos subaproveitados que podem, num esforço sinérgico, libertar mais espaço para atender, em tempo adequado, todos aqueles que procuram o SNS.

A reforma do sistema de saúde deve assentar numa estratégia e materializar-se através de ações concretas. Só dessa forma evitaremos que os problemas do SNS se transformem em meras notas de rodapé.



O artigo pode ser lido no Hospital Público de setembro/outubro.

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