USF Espaço Saúde: Equipa assume-se como unidade com vocação formativa

Na USF Espaço Saúde (ES), situada em Aldoar (Porto), o número de alunos de Medicina e internos de MGF ultrapassa o de médicos. Em entrevista ao Jornal Médico, Cristina Sousa, coordenadora da unidade, sublinha a grande vocação formativa e fala sobre a morosa espera à passagem efetiva a modelo B, concretizada precisamente dia 1 deste mês de junho, quando esta reportagem já tinha sido realizada.

Organizada e coesa, com visão, missão e valores bem definidos, a equipa da USF ES tem grande motivação para a melhoria da qualidade de prestação de cuidados e capacidade de adaptação à mudança e resistência à adversidade. Com forte vocação formativa e orgulho no seu percurso, Cristina Sousa refere que a unidade tem uma visão humanista da saúde, acreditando que “a vida pessoal e profissional têm de ser saudavelmente compatíveis”.

A sua missão é colocar o cidadão no centro de toda a atividade da unidade, fomentando a sua participação ativa, visando a sua satisfação e a qualidade dos serviços prestados. E, além disso, “prestar cuidados personalizados, globais, adequados, continuados e equitativos, com base na excelência técnico-científica, aos melhores níveis de eficiência”.

Abriu as suas portas a 3 de novembro de 2008, no edifício do Centro de Saúde de Aldoar, com três médicos, quatro enfermeiros e quatro secretários clínicos. Era, na altura, a mais pequena USF do país, aberta das 8.00 h às 20.00 h, sem recurso a horas extraordinárias.

Dois dos seus médicos e os quatro secretários clínicos vinham do Regime Remuneratório Experimental (RRE) de Ramalde que, em 2006, quando foi iniciada a reconfiguração dos centros de saúde e a implementação das USF, se dividiu para formar duas unidades de saúde familiares. Uma manteve-se em Ramalde. A segunda procurou outras instalações que ficassem perto, de forma a permitir aos utentes manter, caso o pretendessem, o mesmo MF.

“O CS do Aldoar, a que Ramalde pertencia, tinha instalações novas e um espaço disponível. Tinha também um grande número de utentes sem MF e, por isso, a escolha do edifício da sede do CS de Aldoar afigurou-se a melhor opção”, conta a responsável, admitindo que, em comparação com as instalações de Ramalde, “o novo edifício era o realizar de um sonho”.

Estacionamento e bar para os profissionais, sala de reuniões e biblioteca, consultórios individuais e bem equipados, sala de espera ampla e luminosa são algumas das vantagens apontadas pela coordenada da unidade.

Do ponto de vista do utente, passou a haver “um sem número de facilidades”, entre as quais Cristina Sousa destaca um estacionamento para deficientes, elevadores, casas de banho adequadas para pessoas com mobilidade reduzida, outros serviços do CS no mesmo edifício (consultas de Nutrição, de Psicologia e de Saúde Pública, entre outras), ginásio equipado para a preparação para o parto, local para as crianças brincarem, sala de saúde infantil devidamente equipada e decorada; sala de saúde da mulher, sala ampla e equipamento adequado para atividades de educação para a saúde.



Evolução da equipa

Segundo a nossa interlocutora, a grande maioria dos utentes das duas médicas do RRE optou por as acompanhar para a nova unidade. “Como não havia transporte público direto de Ramalde para a USF, e apesar de a distância não ser grande, a unidade e a comissão de utentes com a qual a unidade tinha o melhor relacionamento conseguiram, junto da câmara e da Sociedade de Transportes Coletivos do Porto, a criação de uma linha de autocarro para fazer o percurso”, relata.

O terceiro médico da USF veio do CS de Famalicão e ficou com uma lista de utentes que estavam, na altura, sem MF, em Aldoar. A equipa de Enfermagem foi constituída por uma enfermeira vinda do IPO do Porto e outras três dos CSP. Os quatro administrativos vieram do RRE de Ramalde.

“Era, então, uma equipa muito pequena e só um grande espírito de colaboração e de entreajuda e uma organização e programação otimizadas permitiram funcionar quase dois anos só com três médicos”, aponta.

As instalações da USF têm dimensão para seis médicos e seis enfermeiros e o objetivo é atingir esse número de profissionais. A unidade tem estado sempre disponível para inscrever os utentes sem médico de Aldoar e assim integrou, ao longo do tempo, mais dois médicos e dois enfermeiros.

Neste momento, os secretários clínicos são o grande problema e a limitação da USF. Conforme refere, quando a USF foi constituída, três dos quatro administrativos estavam perto da aposentação, o que se verificou entretanto. “As mobilidades são, neste momento, demoradas e a dificuldade de completar e estabilizar a equipa administrativa tem sido difícil de ultrapassar.”

A equipa é, atualmente, constituída por cinco médicos, cinco enfermeiros e dois secretários clínicos. Funciona das 8.00 h às 20.00 h, sem alargamento de horários e sem carteiras adicionais. Tem 8593 utentes, maioritariamente das freguesias de Ramalde e Aldoar (82,7%).

Auditoria concluiu que USF ES se comporta como modelo B

A USF ES foi uma das auditadas na “Auditoria ao desempenho de unidades funcionais de CSP” realizada pelo Tribunal de Contas. Programada com o objetivo de avaliar a organização e o desempenho das unidades funcionais prestadoras de CSP, a auditoria abrangeu os anos de 2009 a 2012, tendo sido auditadas quatro USF (duas modelo A, das quais uma foi a USF ES, e duas modelo B) e quatro UCSP pertencentes a quatro ACES, dois da região de Lisboa e Vale do Tejo e dois do Grande Porto.

“Foi interessante ser avaliado por uma entidade externa com uma visão que, apesar de claramente dirigida aos aspetos económicos, não deixou de avaliar os indicadores no seu conjunto e outros aspetos, nomeadamente o tempo médio de marcação de consulta, tendo concluído, por exemplo, que a USF garantiu aos utentes uma acessibilidade dentro de tempos máximos de resposta garantidos”, admite Cristina Sousa.

Em relação à contratualização, a médica refere que os resultados obtidos no triénio 2010-2012 evidenciaram uma evolução favorável dos indicadores, nomeadamente dos financeiros, tendo sempre superado as metas contratualizadas para estes indicadores. “A USF ES é uma das unidades com melhores valores obtidos nos indicadores financeiros, não só entre as unidades auditadas como a nível nacional”, indica.

Cristina Sousa revela que quando a USF iniciou atividade, com três médicos, e apesar de ter origem numa RRE, pareceu à equipa prematuro pedir a passagem a modelo B, o que só sucedeu quando passou a ter quatro médicos. “Para nossa surpresa, foi-nos pedido ter incentivos durante dois anos seguidos (2011 e 2012) para poder ter parecer técnico favorável para passagem a modelo B, o que aconteceu no início de 2013. Como não fomos incluídos na quota de passagem a modelo B desse ano, ainda aguardamos a passagem efetiva a modelo B”, conta.

Na sua opinião, sendo a auditoria do Tribunal de Contas realizada no ano de 2013 e a USF ES uma das duas do modelo A auditadas, “não surpreende que o Tribunal de Contas tenha concluído que não há diferença significativa de desempenho entre as USF A e as USF B, com as consequências que todos conhecemos”.

“Exige-se que as USF A se comportem como B durante vários anos para poderem ser aprovadas para passar a modelo B e depois aguarda-se ainda tempo indefinido para poder efetivar essa passagem. É de alguma forma perverso que o bom desempenho que nos é exigido seja o argumento que nos prejudica”, considera Cristina Sousa, acrescentando que em 2013, mais uma vez, a unidade teve incentivos e atingiu ou superou todos os indicadores contratualizados, nomeadamente os de eficiência.

Vertente formativa é elemento caracterizador

A grande vocação formativa da unidade é evidente. “Neste momento, apesar de a equipa médica ter apenas cinco elementos, temos sete internos de especialidade de MGF, um interno do Ano Comum, um aluno do 6.º ano de Medicina e dois do 5.º ano de Medicina.”

“Todos os anos, numerosos posters, apresentações e participações em reuniões científicas são a prova da importância que a USF atribui à formação e à investigação”, menciona Cristina Sousa, adiantando que, além das competências técnicas e científicas que adquirem, os internos da unidade têm a oportunidade de conhecer as tarefas de gestão inerentes às USF, de participar na realização e atualização dos documentos da USF, nomeadamente, manual de procedimentos, plano de ação e outros, e ter a vivência de como funciona a gestão partilhada, o trabalho em equipa e a intersubstituição.

Para a médica, ”é disto também que se faz o ‘currículo não formal’, que inclui a ética e os valores e é tão difícil de conhecer e avaliar”. Para os formadores, a partilha de conhecimentos e experiências é muito enriquecedora. Adicionalmente, sublinha, “numa área da Medicina em que o médico tem tantas vezes um trabalho solitário, a presença de internos confere enorme dinamismo e alegria”.

Também a formação contínua de todos os elementos da equipa é uma prioridade, face à elevada exigência das tarefas a desempenhar e a frequência de formações internas e externas é sempre facilitada e incentivada.

A USF privilegia também a investigação. A coordenadora conta que a unidade está, neste momento, a iniciar um projeto de investigação em que participam todos os elementos da equipa (médicos, enfermeiros e secretários clínicos) e também os médicos internos, que deverá estar concluído em 2015. “É importante que a equipa, para além do trabalho, partilhe projetos, potenciando as aptidões e competências de cada profissional”, considera.

Melhoria na acessibilidade e possibilidade de cuidados personalizados e continuados

Para muitos utentes que transitaram do RRE, a USF foi o continuar de uma boa experiência. Para muitos outros (a maioria), que não tinham MF, a USF representou, nas palavras de Cristina Sousa, ”uma enorme melhoria da acessibilidade e a possibilidade de ter cuidados personalizados e continuados”, não só médicos como de enfermagem.

“Graças à figura do enfermeiro de família, os utentes sabem que têm toda uma equipa que garante intersubstituição e lhes presta cuidados de qualidade quando algum dos profissionais está ausente, assegurando resposta às situações de doença aguda no próprio dia e as consultas de vigilância com a periodicidade adequada.”

Sabem também que podem contactar com a USF, solicitar informações e pedir medicação crónica através de e-mail, fax e outros. Além disso, sublinha, “também o perfil dos profissionais e a presença dos médicos internos permite um maior investimento nas atividades preventivas e na educação para a saúde, realizando atividades várias, aproveitando a proximidade do Parque da Cidade e as boas instalações da USF”.

Por outro lado, “o facto de a autonomia organizativa e funcional da USF permitir adotar medidas corretoras rapidamente quando são identificados problemas dá flexibilidade à USF”. Assim como “o facto de as decisões resultarem da reflexão da equipa, tendo em conta múltiplas opiniões e pontos de vista, enriquece, compromete, envolve todos nas decisões tomadas e aumenta a motivação”.


A Reportagem da USF Espaço Saúde pode ser lída na íntegra em pdf, acessível aqui.

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