«70% dos doentes com feridas estão na comunidade»

“A proximidade que existe do enfermeiro de família e do médico de família ao doente com ferida que está na comunidade é fundamental para conhecer o seu estilo de vida e medir a adesão à terapêutica, aspetos essenciais para se conseguir ter sucesso no tratamento”, começa por afirmar Paulo Alves, que é professor da Universidade Católica Portuguesa e há 2 anos preside à Associação Portuguesa de Tratamento de Feridas.

No seu entender, é preciso "fazer sair rapidamente este tipo de doente do hospital e tratá-lo na comunidade", até porque “é onde temos indicadores de resultados e podemos perceber quanto tempo demora a ferida a cicatrizar”. Para além de que, "na verdade, este doente nunca vai ter alta dos cuidados de saúde primários, onde conseguimos monitorizá-lo de forma mais eficaz”.

“Essa proximidade faz com que se conheça o doente, a família, o cuidador. Que se possa educá-lo, envolvê-lo naquilo que é o processo terapêutico”, diz Paulo Alves. No entanto, as barreiras existem, apresentando como exemplo o que se verifica na visita domiciliária, em que o tempo para a fazer escasseia. “Temos que deixar de ser o técnico que vai apenas mudar o penso. É a ferida que preocupa, mas é necessário olhar para o doente”, alerta.



“Infelizmente, o tratamento que é feito no hospital nem sempre está disponível nos CSP, o que limita a sua continuidade”, lamenta Paulo Alves, segundo o qual a criação de um Centro de Referência de Ferida Complexa – e um bastaria, tendo em conta a dimensão do nosso país – permitiria uma “formação acrescida de médicos e enfermeiros, por exemplo, no diagnóstico diferencial da infeção”.

"O cuidador precisa de ajuda, de educação, de formação"

As carências nas unidades de CSP, em matéria de abordagem às feridas, são naturalmente muito superiores às que existem nos hospitais, desde logo porque,  “nestes, se for preciso desbridar uma ferida, temos um cirurgião, um bloco operatório, profissionais mais especializados...”.

O presidente da APTFeridas sublinha que, “por vezes, num domicílio, nem sequer há onde lavar as mãos, onde colocar o material, ou até a luz é pouca para se fazer determinado procedimento”.

“As dificuldades que se observam nos CSP requerem, por parte da equipa, uma envolvência muito maior e uma decisão terapêutica bastante mais complexa do que a nível hospitalar”, conclui Paulo Alves. E o claro envelhecimento da população deixa adivinhar que “o número de feridas crónicas vai aumentar e isso preocupa-nos porque as necessidades e as complicações daí resultantes também aumentarão”.

Também tendo em conta essa realidade, o nosso entrevistado afirma que a Associação que dirige tem agora um objetivo muito bem definido: “Nós temos estado muito voltados para o profissional que trata as feridas, agora queremos fazer uma abordagem ao cuidador, pretendemos estar mais próximos dele. Temos a noção clara de que o cuidador precisa de ajuda, de educação, de formação, para que possa tratar melhor do seu próprio doente em casa.”

“O país está cheio de cuidadores. Trata-se de uma necessidade social que não está a ser trabalhada. Temos, hoje em dia, cuidadores mais velhos do que os próprios doentes. Precisamos de arranjar estruturas de educação e apoio num contexto domiciliário que possa reduzir este problema, que é, na verdade, uma questão de saúde pública, em Portugal e a nível internacional”, considera o nosso entrevistado.

"A investigação é absolutamente necessária para melhorar a qualidade dos cuidados"

Paulo Alves é, hoje em dia, professor auxiliar na Universidade Católica Portuguesa, dando aulas no Porto e em Lisboa, mas recorda os cerca de 10 anos que trabalhou em hospitais do norte.


Paulo Alves: “Tendencialmente, as feridas crónicas vão aumentar, a nível nacional e internacional”

“As feridas estavam longe de ser a minha área de interesse fundamental, o que se alterou quando constatei que não tínhamos uma resposta continuada. Havia muita desigualdade,
múltiplas abordagens distintas no tratamento…”, explica, acrescentando:

“Ainda hoje mantenho a prática clínica na abordagem dos doentes e interesso-me pela investigação, que considero absolutamente necessária para conseguirmos melhorar a qualidade dos cuidados prestados aos doentes.”

Coordena o Wounds Research Lab, sediado na UCP do Porto, “mas de âmbito nacional”, frisa. Sublinhando ser o único laboratório nacional associado às feridas, está vocacionado
para desenvolver investigação nessa área.

80% dos membros da APTFeridas são enfermeiros

Com 20 anos acabados de fazer, a APTFeridas foi registando muitas alterações nos Órgãos Sociais, mas a verdade é que Paulo Alves é apenas o seu 2.º presidente. O cirurgião Aníbal Justiniano, um dos elementos fundadores, assumiu esse cargo durante 18 anos.

Com cerca de 800 associados, 80% são enfermeiros e os restantes 20% profissionais de diferentes áreas, como médicos, nutricionistas, farmacêuticos e fisioterapeutas.



O artigo pode ser lido no Jornal Médico dos cuidados de saúde primários.

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