Enfermagem de Reabilitação focada em acompanhar o doente «de forma integrada, orientada e holística»

São mais de 4000 os enfermeiros especialistas em Enfermagem de Reabilitação, mas Belmiro Rocha diz que deviam ser, pelo menos, o triplo, para corresponder às necessidades da população portuguesa nesta matéria. “Salvar qualidade de vida” é, diz aquele responsável da Ordem dos Enfermeiros, o lema destes profissionais, mais de metade dos quais se encontram a exercer em unidades hospitalares.

O Colégio da Especialidade de Enfermagem de Reabilitação é, neste momento, o maior dos seis que a Ordem dos Enfermeiros tem. Para o seu presidente, “é um sinal de vitalidade e uma prova de que, efetivamente, apesar de todas as dificuldades que encontramos no terreno, seja em termos de condições de trabalho, de carreira, do ponto de vista dinâmico ou organizacional, esta especialidade continua a ter uma grande procura”.

“Nós temos hoje uma especialidade consolidada e sustentável”, afirma Belmiro Rocha. Ressalva, contudo, que se viveu, a certa altura, “uma situação muito dramática”, em que foi necessário “tomar algumas medidas de contingência”. O enfermeiro sabe do que fala, até porque, nessa altura – finais dos anos 90 --, tinha responsabilidades a nível do Colégio.

Em entrevista à Just News, Belmiro Rocha recorda que “uma alteração legislativa fez com que se assistisse a uma paragem no campo formativo e nós quase desaparecemos, pois, não se formavam enfermeiros de reabilitação suficientes”. A realidade é agora bem diferente, com os dados disponíveis a indicarem que “formamos muitos mais do que aqueles que saem”.

Em 2018, cerca de 400 profissionais conseguiram que lhes fosse atribuído, pela OE, o título de enfermeiro de Reabilitação. Este número tem sido constante, variando entre 300 e 400.


Elementos da Mesa do Colégio da Enfermagem de Reabilitação da OE: Júlio Gomes, Belmiro Rocha, José Manuel Correia, Helena Pestana e Emanuel Gouveia

“Retomamos os nossos espaços, reconquistamos novamente áreas que tínhamos perdido e estamos a pôr ao serviço dos cidadãos os cuidados de que precisam em termos de reabilitação, de reinserção no seu meio”, refere, sublinhando que estes enfermeiros “salvam qualidade de vida”.

“A grande preocupação é assegurar que os nossos doentes, com as limitações que apresentam, consigam ter uma vida feliz e se sintam satisfeitos em poder dizer: ‘Eu tenho qualidade de vida’”, acrescenta.

A enfermeira Sales Luís é uma personagem que surge imediatamente associada à ER, tanto que a APER – Associação Portuguesa dos Enfermeiros de Reabilitação lançou mesmo um prémio com o seu nome. “É, no fundo, o reconhecimento de que todos nós devemos muito à sua atitude de resiliência, de perseverança, de querer, de vontade, de garra”, diz Belmiro Rocha.


Intervenção de Belmiro Rocha durante o último Congresso Internacional de Enfermagem de Reabilitação, onde se celebraram os 40 anos da Associação Portuguesa de Enfermagem de Reabilitação

Aquela enfermeira integrava a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa quando foi convidada a deslocar-se aos EUA. O modelo americano haveria de inspirar o primeiro curso de ER realizado em Portugal, coordenado por Maria de Lurdes Sales Luís, em 1965.

Os EUA, o Canadá, a Austrália e a Nova Zelândia são, a par de Portugal, exemplos de países onde a prática da ER se encontra “sistematizada e organizada, ao serviço dos cidadãos”, segundo Belmiro Rocha, ao contrário do que sucede no resto da Europa, onde não existe esta especialidade.

“Queremos um profissional completo na área da Reabilitação”

Os enfermeiros de reabilitação encontram-se, esclarece Belmiro Rocha, “distribuídos pelos diferentes contextos da prestação de cuidados de saúde em Portugal” – nos hospitais, nas unidades de cuidados de saúde primários, na rede de cuidados continuados integrados, nos cuidados paliativos, a nível dos domicílios e da comunidade... “Estamos a ir cada vez mais de encontro às necessidades da nossa população em termos de cuidados de reabilitação”, assegura o nosso entrevistado, acrescentando:

“Temos o dever de prestar cuidados de Enfermagem de Reabilitação, identificando as necessidades das pessoas. Eu costumo dizer que não me interessa ter um doente musculado, mas que depois não consegue apertar um botão e as calças caem-lhe. Quero que ele seja capaz de lavar a cara, pentear-se, comer uma maçã, levantar-se da cama, dar ‘dois passinhos’ e ir tomar um café… Só preciso de fazer com que, apesar das suas limitações e dificuldades, seja o mais autónomo e independente possível, sentindo que tem qualidade de vida.”
 
Belmiro Rocha: “Neste momento, 60% a 70% dos nossos enfermeiros de reabilitação ainda estão concentrados nos cuidados hospitalares.”


Belmiro Rocha: "Existe muito trabalho feito por esta grande equipa que é a Mesa do Colégio de Enfermagem de Reabilitação da Ordem dos Enfermeiros, que não é visível, mas que tem produzido bons resultados"

A subespecialização é algo que, no entender de Belmiro Rocha, não fará muito sentido quando se fala de Reabilitação, embora admita como natural que haja quem tenha “um perfil de atuação mais adequado” à área respiratória, à área cardíaca, ou à questão da disfagia, por exemplo. “Mas nós não gostaríamos muito de espartilhar o doente por um problema que ele tenha, até porque lhe afeta todo o sistema e, portanto, a nossa preocupação é acompanhá-lo de forma integrada, orientada e holística.”

“Eu posso estar a fazer um programa fantástico do ponto de vista respiratório e o doente não aguentar no aspeto cardíaco… Por isso, nós pretendemos que o enfermeiro de Reabilitação seja um profissional completo, embora possa ter um perfil mais específico para uma determinada área”, justifica Belmiro Rocha.

A evolução demográfica a que se assiste, com uma maior esperança de vida e o consequente aumento do número de idosos, bem como a circunstância de as pessoas com algum tipo de traumatismo viverem mais, apesar das sequelas correspondentes, “implica disponibilizar mais cuidados”.

“Temos mais necessidade de enfermeiros especialistas em Reabilitação, somos 4000, mas seguramente deveríamos ser o triplo, assim, conseguiríamos chegar a muito mais pessoas”, afirma. Exemplificando com o que se passa em termos de Reabilitação Respiratória, garante que a mesma “só chega, quanto muito, a 10% da população que necessita de cuidados nesse âmbito”.

E será que vale a pena investir em Reabilitação? A resposta é imediata: “Se no contexto de um Serviço de Ortopedia, por exemplo, se se fizer o levante com menos um dia de internamento, e sabendo-se que esse dia tem um custo de 500/600 euros, a mais-valia que se consegue é evidente.”

E quando o doente já está inserido na comunidade? “Se o tornarmos mais autónomo mais cedo, o seu familiar não precisará, eventualmente, de faltar ao trabalho. O retorno será enorme para o doente como para a sua família e a própria comunidade.”



A notícia completa pode ser lida na última edição de Hospital Público.

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