A organização hospitalar deve tornar a Medicina Interna a «especialidade nuclear»

Apostar na formação da especialidade, conferindo-lhe maior equilíbrio e abrangência, é uma das prioridades apontadas pelo presidente do Colégio da Especialidade de MI da OM e diretor do Serviço de Medicina Interna A do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra (CHUC). “O internista atual deve abarcar um conjunto de conhecimentos e aptidões que lhe permitam entender o doente na sua globalidade”, sustenta Armando Carvalho. 

Em entrevista à Just News, publicada na edição de hoje do Jornal do XXI Congresso Nacional de Medicina Interna, distribuído aos participantes do evento, Armando Carvalho, considera que "a Medicina Interna é, inquestionavelmente, uma especialidade integradora, essencial aos doentes. A sua abrangência permite que os internistas estejam disponíveis para todas as atividades em que são competentes, mas não podem, nem devem, estar disponíveis para tudo!"

Na sua opinião, "a organização hospitalar deve aproveitar bem a Medicina Interna, tornando-a a especialidade nuclear, o que pode conseguir-se com uma estrutura departamental, onde os internistas assumam integralmente os doentes e os outros especialistas atuem estritamente na sua esfera de ação e nos meios complementares de diagnóstico."

Contudo, o essencial, acrescenta, "é o espírito de colaboração entre todos e a qualidade dos internistas, o que pressupõe uma formação global sólida e uma maior atratividade da Medicina Interna para os jovens médicos."

O diretor do Serviço de Medicina Interna A do CHUC participa no XXI Congresso Nacional de Medicina Interna como orador numa mesa-redonda sobre hepatite C. Questionado sobre a investigação desenvolvida em Portugal nesta área, explica que "há investigação clínica e epidemiológica, com publicações nacionais e internacionais de boa qualidade, e estão a decorrer estudos epidemiológicos de âmbito nacional para determinar a prevalência das infeções pelos VHB e VHC." Mas, salienta, "continuamos a não ser capazes, salvo raras exceções, de realizar grandes estudos multicêntricos de âmbito nacional".



Alguém que complete o puzzle: o internista

Muitos internistas têm defendido uma maior aposta na formação e na especialização. Para Armando Carvalho, "hoje, não é possível um internista à imagem do passado, congregando quase todo o conhecimento necessário à prática clínica. Por outro lado, a hiperespecialização conduziu a um perfil de médico mais limitado, restrito a uma pequena parte do doente. Assim, ressurgiu a necessidade de alguém que faça a síntese, que complete o puzzle: o internista."

Acrescenta ainda que, atualmente, o internista deve "abarcar um conjunto de conhecimentos e aptidões que lhe permitam entender o doente na sua globalidade e assumir o estudo e o tratamento da maioria dos casos, ao mesmo tempo que conhece as suas limitações e sabe quando recorrer a outros especialistas".

Promover a justiça e a equidade

Armando Carvalho ganhou recentemente as eleições para a Direção do Colégio da Especialidade de Medicina Interna. De entre os objetivos a que se propôs, explicou à Just News quais são os prioritários:

"A Direção a que presido pretende estar ao serviço de todos os internistas, contribuindo para a dignificação e a qualidade da especialidade. Queremos conhecer as potencialidades e dificuldades dos serviços de Medicina Interna. Pretendemos propor a certificação de competências, quer individuais, quer dos serviços, sempre que isso traga vantagens para a Medicina Interna. A formação será uma prioridade, pelo que iremos rever o programa, buscando maior equilíbrio e abrangência e a metodologia de avaliação do Internato, no sentido de promover a justiça e a equidade."

Não abandonar a Medicina Interna geral

Na resposta à última questão da entrevista, Armando Carvalho salienta a importância da visão e prática mais abrangente da Medicina, inerente à Medicina Interna, e porque se sente realizado com o que faz:

"Continuando a ser um internista generalista, consegui atingir também reconhecimento como hepatologista. Este é um percurso que muitos outros fazem, com diferentes competências, que em nada compromete a integridade da Medicina Interna, e contribui muito para o seu prestígio interpares. Cada um pode escolher a sua via, com uma única condição: só permanecerá internista quem não abandonar a Medicina Interna geral!

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