«Integração dos setores Social e da Saúde é vital para um envelhecimento saudável»

"Os setores da Saúde e Social mantêm-se excessivamente separados, apesar de, na teoria, se falar muito de integração”, lamenta o presidente do Colégio da Competência em Geriatria da Ordem dos Médicos.

Em declarações à Just News, Manuel Teixeira Veríssimo sublinha a "necessidade premente" da articulação de cuidados, "quer entre o hospital e os cuidados de saúde primários (CSP), quer com outras áreas da sociedade, tais como a Segurança Social e as autarquias".


“A pessoa é a mesma e, muitas vezes, os problemas de saúde devem-se, em grande parte, à sua situação social ou vice-versa. Exemplo disso é o idoso que, com uma reforma pequena, não consegue pagar todos os medicamentos, mesmo sendo genéricos, ou tem dificuldade em fazer uma alimentação equilibrada por falta de dinheiro”, diz.


Manuel Teixeira Veríssimo: "Temos de mudar a ideia errada de que a partir dos 65 anos se deixa de ser importante"

"Temos de dar uma resposta conjunta"

O médico, que atualmente preside ao Conselho de Administração do Hospital Distrital da Figueira da Foz, defende um sistema que vá ao encontro dos mais velhos. “Infelizmente, são eles que têm que ir à procura de ajuda, mas isso não faz qualquer sentido, sobretudo porque muitos não o conseguem fazer por dificuldades de mobilidade ou até por desconhecerem os seus direitos”, exclama.

A solução deverá, assim, passar pela criação de equipas multiprofissionais, que incluam médicos (do hospital e dos cuidados de saúde primários), enfermeiros, psicólogos, fisioterapeutas e assistentes sociais, entre outros, que vão ao encontro dos idosos. “Temos de interagir uns com os outros, dando uma resposta conjunta, onde se deve incluir também a família, dando-se sempre preferência ao apoio no domicílio”, sublinha.

Plataforma clínico-social permite o registo das "informações necessárias"

Com o propósito de passar do papel para a prática esta ideia de inclusão, o geriatra adianta que no Hospital Distrital da Figueira da Foz já se está a trabalhar num projeto, que permite fazer um levantamento da situação de todos os idosos da região de influência do hospital.

Pensado há algum tempo, neste momento já existe "uma plataforma clínico-social, na qual se registam as informações necessárias", esclarece Manuel Teixeira Veríssimo. Falta, no entanto, o mais importante: recursos humanos suficientes. “É o próximo passo, para que se possa ir para o terreno. Na minha opinião, dever-se-ia centralizar este processo nos cuidados de saúde primários (CSP)”, refere.

"Após uma avaliação, as respostas vão depender de cada caso", explica Manuel Teixeira Veríssimo, porque “a idade avançada não é sempre sinónimo de doença e de incapacidade”. Após uma seleção, serão então tomadas medidas "que devem ter como foco, em primeiro lugar, o apoio no domicílio".

"Colocar a pessoa no centro e não a doença"

Para o especialista, não há qualquer dúvida: “Em Portugal, abusa-se da institucionalização em ERPI (Estruturas Residenciais Para Pessoas Idosas)." Realça que, "obviamente, há situações que assim o exigem, inclusive, por não haver um cuidador. Contudo, com mais apoios, é possível manter a pessoa na sua casa, junto dos seus familiares, no espaço onde se sente bem."

De acordo com o médico, com esta equipa multiprofissional, centrada nos CSP, "manter-se-á a comunicação entre os diversos setores da sociedade, de modo a que se utilizem os recursos de forma eficiente". O nosso entrevistado lembra que “estes projetos implicam um investimento inicial, mas a médio prazo trazem poupança, com a diminuição das agudizações das doenças crónicas, com menos idas à urgência e, por conseguinte, uma menor necessidade de hospitalização”.

E dá um exemplo: “Em casa, com cuidados adequados, mais facilmente se consegue manter a autonomia e a qualidade de vida, mesmo que se tenha mais do que uma doença crónica. E porquê? Porque quem está no centro é a pessoa e não a doença. Com esta visão mais global, consegue-se monitorizar e controlar muito melhor as patologias crónicas ou dar resposta a necessidades tão básicas como a limpeza da casa e a entrega de refeições.”

O médico considera que este poderia mesmo ser o primeiro projeto-piloto, a nível nacional, para que esta integração se replicasse no país: “Devemos começar por algumas regiões, para depois se avançar. Ganhamos todos: idosos, familiares, profissionais de saúde e de outros setores, as instituições de saúde e, em última instância, o próprio Estado, por poupar ao baixar os custos diretos e indiretos associados à doença nesta faixa etária.”

Na prática, “o envelhecimento saudável seria uma realidade, o que se iria traduzir em menos patologia aguda, em doenças crónicas melhor controladas e em idosos que não se sentem tanto um fardo. Em suma, atingir-se-ia o patamar dos países nórdicos, onde a esperança média de vida – idêntica à portuguesa – é sinónimo de mais qualidade e bem-estar."

Até que este sonho se concretize a nível nacional, é preciso, segundo o nosso interlocutor, mudar mentalidades e haver maior liderança para se avançar com projetos no terreno. “Mesmo assim, para que haja condições e recursos, o Estado é que tem que dar o passo maior. As entidades competentes têm que ser cada vez mais sensibilizadas para a importância da integração, nomeadamente, dos setores Social e da Saúde, numa plataforma única, por regiões”, afirma.

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