As famílias e a depressão: «O estigma é um dos principais problemas»

24 horas por dia, 7 dias por semana, 365 dias por ano – "o doente e a sua família vivem e convivem permanentemente com a doença mental, sem acompanhamento especializado e sujeitos à exclusão social", afirmou a presidente da FamiliarMente – Federação Portuguesa das Associações das Famílias de Pessoas com Experiência de Doença Mental.

“Isto resume tudo aquilo a que uma família fica sujeita”, sublinhou Joaquina Castelão, durante o evento que assinalou o Dia Europeu da Depressão e que se realizou num dos anfiteatros da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa.



“As famílias e a depressão” foi precisamente o tema da sua apresentação, não se tendo escusado a revelar que à sua única irmã, hoje com 58 anos, foi diagnosticada há cerca de 30 anos uma esquizofrenia paranoide.

“A nível profissional, desempenhei várias atividades com algum relevo, mas essa parte da minha vida foi sempre omitida”, admitiu, justificando: “A partir do momento em que se sabe que temos na família alguém com doença mental, os nossos comportamentos são altamente escrutinados.”

“Infelizmente, a par da doença, o estigma é um dos principais problemas vivenciados quer pelo doente, quer pela família. Porque ele existe, sendo uma realidade nos dias de hoje, em pleno século XXI. A doença mental continua ainda a ser um tabu, sendo encarada como alguma coisa obscura”, afirmou, salientando:

"Até a própria Psiquiatria é vista pelas outras especialidades como o ‘parente pobre."

Joaquina Castelão só começou “a dar a cara por esta luta” em 2015 quando a FamiliarMente foi constituída. E porquê? “Porque já estava numa situação profissional diferente, porque os meus filhos já eram adultos e porque entendi que era a altura de fazer alguma coisa por pessoas que muito precisam. Mas também falei com o meu núcleo familiar mais restrito, para saber até que ponto os poderia prejudicar ao dar a cara.”

A verdade é que “qualquer doença do foro mental afeta a qualidade de vida não só do doente, mas também de todo o seu agregado familiar”.


Joaquina Castelão

A presidente da FamiliarMente acha que, de uma forma geral, para os profissionais de saúde, a família “não é muito valorizada e não é tida em conta no processo de tratamento”, apesar de a maioria das pessoas com problemas mentais se deslocar às consultas acompanhadas de um familiar, por vezes, “progenitores com 80 anos, pessoas também já a precisarem de cuidados”.

“A culpa aqui não é dos profissionais”, ressalva, “é do próprio sistema, do modelo de intervenção que está implementado na área da Psiquiatria e Saúde Mental. O tempo que o médico tem para fazer uma consulta não lhe permite uma avaliação e uma observação conveniente do doente, quanto mais do familiar que lhe dá apoio”.


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