Integração de cuidados: As respostas à pessoa frágil «não se podem cingir aos aspetos biológicos»

"São necessárias respostas baseadas na interação entre diversos fatores, como físicos, sociais, psicológicos e ou ambientais", afirma Inês Espírito Santo, assistente social, a propósito do webinar "Pessoa Frágil – Os desafios para a coordenação de cuidados", cuja primeira sessão se realiza hoje.

Em declarações à Just News, a cocoordenadora desta iniciativa, promovida pela PAFIC - Associação Portuguesa de Integração de Cuidados, salienta que "o conceito de fragilidade não se pode cingir apenas aos aspetos biológicos".

Mesmo já havendo, hoje em dia, maior noção desta visão holística da pessoa frágil, a especialista sublinha que as respostas existentes são “exíguas em Portugal" e que as equipas têm de ser multidisciplinares (saúde e sociais). “E não basta a Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados (RNCCI)”, alerta.

Construção de "iniciativas e compromissos colaborativos”

Na opinião de Inês Espírito Santo, não há qualquer dúvida de que é importante que haja uma maior interação institucional, já que se verifica “uma visão fragmentada da pessoa e das suas necessidades”, além de os processos de encaminhamento e articulação serem “demasiado burocratizados e morosos”.

E acrescenta: “É preciso haver redes de comunicação e parcerias entre a comunidade, hospitais, cuidados de saúde primários, como forma de consolidação de externalidades positivas, que fomentem relações de longo prazo, alicerçadas num conjunto de iniciativas e compromissos colaborativos”.


Inês Espírito Santo

Assistentes sociais: "Avaliação numa perspetiva biopsicossocial"

Neste campo, o Serviço Social é mais uma das áreas que pode fazer a diferença, como salienta Inês Espírito Santo. “A leitura que fazemos dos determinantes sociais da saúde é essencial para a gestão e otimização dos meios, tal como o conhecimento da rede de recursos, psicossociais e comunitários.”

Na prática, considera que "os assistentes sociais, integrados numa equipa multi e interdisciplinar, poderiam ser uma mais-valia na avaliação e identificação da pessoa numa perspetiva biopsicossocial, para que se possa intervir precocemente". A responsável dá um exemplo:

“No combate ao isolamento social temos de avaliar o impacto que tem a ausência de rede de suporte social e familiar, bem como a perceção da falta de apoio, de afeto e de participação em atividades sociais e de lazer no restabelecimento da pessoa com doença.”

Este papel interventivo, "e mesmo preventivo", implica, por conseguinte, dotar “os profissionais e as organizações de estratégias digitais, equipas interdisciplinares no acompanhamento, diagnóstico, e monitorização da pessoa, antecipando estados de vulnerabilidade e fragilidade". O propósito é claro: "Para que possamos promover os direitos, o respeito e a capacitação da pessoa na sua singularidade e autodeterminação.”

E com o objetivo, também, "de garantir a sustentabilidade e eficácia das organizações”.

Menos silos, mais interligação

Também a cocoordenar o evento está Vanessa Ribeiro, especialista em planeamento e inovação em Saúde, que reafirma a necessidade de se apostar mais em cuidados integrados e centrados no utente:

“Têm o potencial de melhorar a qualidade e acesso, os outcomes, a literacia em saúde e autocuidado, a satisfação das pessoas e dos profissionais, assim como a eficiência dos serviços e a redução de custos.”


Vanessa Ribeiro

Contudo, na prática, nem sempre é fácil avançar com estas medidas, sobretudo por não haver ainda uma ideia comum quanto à definição de integração e de fragilidade. “Existem vários projetos em curso, espalhados pelo país, mas falta este consenso que pode gerar dificuldades no alinhamento dos diferentes players.”

Esta realidade acontece principalmente na integração vertical em diversos contextos, assim como na do setor social-comunidade. “Mais desafiante se torna, porque este tipo de organização da prestação de cuidados é disruptivo face à atual, em silos”, observa.

Estratégias de topo e prevenção

Para a presidente da PAFIC, Adelaide Belo, o webinar é uma oportunidade para falar, ainda mais, sobre as mudanças sociodemográficas que se vivem em Portugal. Um estudo europeu de 2019 identificou mesmo, na população portuguesa, 15,6% de idosos frágeis e 47,6% de idosos pré-frágeis.

A especialista de Medicina Interna salienta que “a fragilidade tornou-se, assim, uma preocupação da OMS e da União Europeia, que têm vindo a publicar orientações para a sua abordagem, solicitando aos países que definam políticas que minimizem o seu impacto no bem-estar das pessoas e na sustentabilidade dos sistemas de saúde.”


Adelaide Belo

Questionada sobre os maiores desafios que se enfrentam na coordenação de cuidados a esta população, a responsável destacou a identificação, no hospital e cuidados primários, dos idosos frágeis e pré-frágeis; os sistemas informáticos; e a definição e implementação de políticas que minimizem a fragmentação e os silos.

“A solução passa por estratégias de topo, mas também pela implementação no terreno de mudanças na forma como respondemos às necessidades das pessoas”, considerou.

Relembrou, ainda, que é preciso ter em conta que “a fragilidade é diferente de envelhecimento, doença crónica ou dependência, por ser um processo dinâmico, que pode ser prevenido, revertido ou mitigado com as tais respostas integradas”.


O webinar "Pessoa frágil - Os desafios para a coordenação de cuidados" realiza-se hoje e no dia 3 de março, entre as 17h00 e as 18h30. Cada uma das sessões conta com diferentes oradores, que partilharão variadas perspetivas. 

"Como é que os cuidados de saúde primários detetam a pessoa frágil", "A pessoa frágil no hospital de agudos" ou "Respostas sociais à pessoa frágil" são temas de algumas das intervenções.

A inscrição (gratuita) na sessão "A pessoa frágil", que decorre hoje, e na sessão "As respostas à pessoa frágil" pode ser efetuada AQUI. A participação está aberta a todos os profissionais interessados no tema em debate.

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