Cardiopatia degenerativa no idoso

“A doença cardiovascular é uma patologia frequente, incapacitante e muitas vezes fatal, fundamentalmente no paciente idoso”, alertou Filipe Macedo, chefe de serviço de Cardiologia e professor associado convidado da FMUP, no âmbito da sessão “Cardiopatia degenerativa no idoso”, que decorreu nas Jornadas de Actualização Cardiológica do Norte para a MGF.

Segundo o especialista, as patologias mais frequentes são a doença cardíaca isquémica, a insuficiência cardíaca, a fibrilhação auricular e a cardiopatia valvular, com destaque para a estenose aórtica no idoso e a regurgitação mitral degenerativa.

“Estima-se que no ano de 2030 cerca de 20% da população tenha mais de 65 anos de idade. Neste grupo etário, a doença cardiovascular é responsável por 40% das causas de morte e os custos do tratamento da doença cardiovascular terão triplicado nessa altura”, mencionou o orador.

E sublinhou que a doença valvular cardíaca é um paradigma da mudança de etiologia das doenças humanas, intimamente associada aos novos estilos de vida ocidentais, cada vez mais vulgarizados, novas atitudes e comportamentos e a uma crescente esperança média de vida observada nos países industrializados.

“Atualmente, nos países desenvolvidos, a etiologia mais importante das doenças valvulares cardíacas é a patologia degenerativa, a qual se encontra diretamente relacionada com o aumento da esperança média de vida, a relativa riqueza desses países e os novos estilos de vida a ela associados”, referiu Filipe Macedo.

A patologia da válvula aórtica é, atualmente, considerada a que maior impacto tem nas populações dos países industrializados. Para além da idade, Filipe Macedo indicou que foi postulado que os fatores de risco ateroscleróticos também seriam fatores de risco para a patologia valvular aórtica degenerativa.

“A doença valvular aórtica degenerativa é uma doença lenta, mas progressiva, que cursa desde um espessamento ligeiro das suas cúspides, sem restrição da amplitude de abertura, até um grau mais grave de restrição, condicionando uma estenose aórtica grave”, desenvolveu.

Por seu lado, a esclerose aórtica é uma doença comum, presente em cerca de 25% da população entre os 65 e os 74 anos de idade e em cerca de 48% das pessoas com mais de 84 anos. Do ponto de vista de ecocardiografia, “define-se com áreas de atingimento focal e espessamento de localização mais central, com razoável mobilidade e sem cálcio comissural. No que diz respeito à avaliação hemodinâmica, caracteriza-se com velocidades no estudo Doppler inferiores a 2,5m/s”, explicou, desenvolvendo que esta patologia tem uma progressão lenta, sendo necessário, grande parte das vezes, vários anos para evoluir para estenose aórtica.

Prosseguindo, Filipe Macedo salientou que a estenose aórtica é a lesão valvular mais comum nos indivíduos idosos. “O espessamento das cúspides afeta cerca de 25% dos adultos com mais de 65 anos de idade e a repercussão funcional, estenose aórtica, atinge 2 a 4% dos idosos.”

“As recomendações atuais sugerem efetuar, anualmente, um ecocardiograma nos doentes assintomáticos com estenose aórtica grave, de dois em dois anos na estenose moderada e dentro de cinco anos nos casos ligeiros”, adiantou.

A doença degenerativa da válvula mitral é também, segundo o médico, uma doença comum, afetando cerca de 2% da população. A situação mais frequente é o prolapso valvular, devido a alongamento ou rotura das cordas tendinosas, resultando em diferentes graus de insuficiência mitral (IM) devido à deficiente coaptação dos seus folhetos durante a contração ventricular.

“A maior prevalência desta patologia observa-se nos doentes com hipertensão arterial, aumento do stress da válvula mitral, prolapso da mesma, aumento da pressão sistólica do ventrículo esquerdo, estenose aórtica, insuficiência renal crónica, secundária a hiperparatiroidismo, fibrilhação auricular e aterosclerose aórtica”, esclareceu.

Filipe Macedo disse ainda que a ecocardiografia é o método de diagnóstico de eleição nos doentes com doença valvular mitral, permitindo a identificação da etiologia e lesões subjacentes que resultam da disfunção da válvula mitral (de crucial importância para a decisão e seguimento destes doentes).

“Os doentes com regurgitação mitral degenerativa devem ser diferenciados dos doentes com outras etiologias, como doença reumática e regurgitação mitral funcional”, alertou.

E terminou indicando que “o momento ótimo para a cirurgia da regurgitação mitral é habitualmente ajuizado por um conjunto de situações, quer pela ocorrência de sintomas, compromisso da função sistólica do ventrículo esquerdo, dilatação do ventrículo esquerdo e desenvolvimento de fibrilhação auricular ou hipertensão pulmonar”.


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