Nova unidade do CHOeste vai «evitar a transferência dos doentes críticos para Lisboa»

Ainda muito no início do seu mandato à frente do Centro Hospitalar do Oeste (CHO), a presidente do Conselho de Administração, Elsa Baião, reparte os seus dias entre as três unidades que o constituem e que distam uns 50 kms de distância entre si: os hospitais de Torres Vedras, Caldas da Rainha e Peniche.

Em entrevista à Just News, publicada na última edição do jornal Hospital Público, a gestora adianta que têm vindo a ser desenvolvidas soluções para "problemas complexos", suportadas por uma visão estratégica que "relance o CHO para níveis de qualidade e de diferenciação que nos últimos ano não foi possível obter".



Uma dessas medidas está a ser efetivada no Hospital das Caldas da Rainha. Elsa Baião reconhece a degradação dos equipamentos nesta unidade, "que é enorme", e igualmente as "muitas limitações de espaço, necessitando de mais áreas de internamento e de ambulatório". Mas adianta uma boa novidade:

"A obra da Urgência, que está a decorrer, vai dar algum fôlego. Para além do mais, prevê-se criar na Urgência um novo espaço, ainda muito restrito, para Cuidados Intermédios, que o hospital não possui."

E esclarece que "do ponto de vista formal, não será ainda uma unidade, mas está a ser construída nesse sentido, com o equipamento necessário, no sentido de ganhar, aos poucos, uma capacidade de diferenciação que evite a transferência de todos os doentes críticos para Lisboa." 

"Degradação das instalações e dos equipamentos"

As dificuldades e limitações no Hospital das Caldas não são a exceção. Tendo assumido a presidência do CHO em setembro de 2018, o cenário que Elsa Baião foi encontrar nas três unidades não terá sido o mais animador, como a própria reconhece. 


Elsa Baião

"Encontrei uma instituição com grandes carências e vários problemas, como a antiguidade dos edifícios, a degradação e as limitações estruturais das instalações e a falta de espaços físicos para alguns serviços de internamento e para áreas de ambulatório.", começa por referir a responsável.

"Mas deparei-me também com a inexistência de uma Unidade de Cuidados Intensivos em qualquer um dos polos, a exiguidade dos serviços de Urgência, uma assinalável desatualização tecnológica e equipamentos em fim de vida, a dispersão de recursos por 3 unidades geograficamente distanciadas, o ratio baixo do número de camas hospitalares para a população abrangida (1,1 camas por cada 1000 hab., contra 2,1/1000 em Portugal)." 

E não só. Elsa Baião faz ainda referência à "inexistência de valências básicas, de acordo com os padrões em vigor (Anatomia Patológica, Cuidados Intensivos, Nefrologia) e a necessidade de redimensionamento de várias áreas, como a Urologia, a Oftalmologia, a Cardiologia, a Neurologia e a Psiquiatria".

Na sua opinião, "trata-se de um CH localizado no litoral, com características de interioridade, dada a extrema dificuldade em captar e reter recursos especializados, que são facilmente absorvidos pelos grandes centros urbanos".

Finalmente, há também a questão da cultura organizacional: "O CHO resultou de várias fusões problemáticas, entre as zonas norte e sul da região do Oeste, as quais geraram instabilidade interna e dificuldades na definição de uma cultura institucional."



Criar um espírito de grupo com "pessoas competentes e dedicadas"

E precisamente devido a estas fusões organizacionais, Elsa Baião considera que "um dos maiores desafios tem sido criar um espírito de grupo e um sentimento de pertença em profissionais pertencentes a várias instituições, que foram sofrendo transformações constantes nas últimas décadas".

Contudo, está convicta de que esta dificuldade será ultrapassada. "Os nossos profissionais são pessoas competentes e dedicadas, que trabalham em prol da população, não obstante os obstáculos que têm de ultrapassar no seu dia-a-dia."


Elsa Baião: "O património do CHO inclui três igrejas, um museu e umas cavalariças, com manutenção complexa"

"Não há um milímetro disponível para alargar serviços"

"Algo que condiciona muito a nossa capacidade de resposta é a questão da antiguidade dos edifícios e a degradação das instalações e dos equipamentos", afirma Elsa Baião. "Foi uma coisa que me chocou bastante. Era para mim um dado adquirido, mas quando o constatamos no local o impacto é diferente."

A gestora não tem dúvidas em considerar a unidade hospitalar de Torres Vedras como "a mais degradada"e recorda um dado relevante: "Em 2014, o Hospital do Barro foi desativado e integrado no Hospital de Torres Vedras e essa é uma das condicionantes, pois, encaixou dois hospitais."

Ou seja, "não há um milímetro disponível para alargar serviços, para criar novas respostas, o hospital está completamente sobrelotado". E, estando localizado no centro da cidade, "não tem margem para crescer". Contudo, adianta que será lançado "um concurso para uma obra de remodelação e ampliação da Urgência, cujo espaço é muito pequeno e pouco adequado para as necessidades da medicina atual".


"Desejo que os próximos anos sejam de conquistas, no sentido da modernização, da diferenciação e da recuperação da imagem da instituição"

Quanto a Peniche, outra obra prevista prende-se com a "remodelação de uma ala do Hospital de Peniche, com vista à criação da valência de internamento no Serviço de Psiquiatria".

De acordo com a administradora, "será em Peniche porque é onde há mais espaço disponível. E esta é, efetivamente, uma necessidade do Oeste, com resposta ainda muito limitada na Saúde Mental e com necessidade de transferência para Lisboa de muitos doentes."

Relativamente a outras obras concretas, "há inúmeras para realizar, tendo em conta a antiguidade dos edifícios, a degradação, as limitações estruturais das instalações e a necessidade de criar novas respostas".

Elsa Baião adianta que as prioridades são as seguintes: a obra que viabilize a reabertura da Unidade de Preparação de Citotóxicos, a remodelação do Serviço de Obstetrícia, a criação da Unidade de Cuidados Intermédios e Intensivos, a criação da Unidade de Cuidados Paliativos e a criação de um Laboratório de Anatomia Patológica.



"Aprofundar a articulação com os cuidados continuados"

Antes de decidir aceitar o desafio de liderar a Administração do CHO, Elsa Baião esteve quase dois anos na Coordenação Regional de Cuidados Continuados da ARS de Lisboa e Vale do Tejo, sendo esta uma área que, naturalmente, conhece muito bem, o que terá já contribuído para a efetivação de algumas medidas:

"Temos vindo a desenvolver um trabalho de articulação e aproximação com os cuidados continuados, com reuniões regulares. O recurso à Urgência por parte destes utentes institucionalizados provoca constrangimentos muito significativos. Assim, o CHO criou uma ficha para referenciação de utentes de lares e unidades de CC para o Serviço de Urgência."

Na sua opinião, "é também de todo o interesse, e para uma melhor organização e orientação clínica da situação do utente, que exista um contacto prévio com o hospital". Por este motivo, explica que foi criada a figura do “elo de ligação” do Serviço de Urgência. "Pretende ser um veículo excecional de comunicação no caso de existirem dúvidas e questões relacionadas com o internamento, a alta e o encaminhamento do doente."

"Por último, reforçámos a importância da vacinação dos utentes quanto à gripe sazonal e insistimos nas indicações para a vacinação com a Prevenar 13 que, especialmente na população idosa e institucionalizada, faculta proteção contra o Pneumococo, com redução das taxas de morbilidade e mortalidade por pneumonia."



"A saúde é uma responsabilidade de toda a comunidade"

Esta "aposta na articulação" verifica-se também "com todos os parceiros da comunidade", sublinha Elsa Baião, sendo essa, aliás, uma das principais linhas orientadoras que a administradora procura implementar.

"A saúde é cada vez menos do hospital, as situações de doenças crónicas implicam um tratamento prolongado, constante, que, eventualmente, não terá de ser feito no hospital. Por isso, a saúde é uma responsabilidade de todos.", afirma a gestora.

E acrescenta: "Não é só do hospital ou do centro de saúde, é também das autarquias, das IPSS, da comunidade em geral, e cada vez mais temos de fomentar esta articulação. Nós temos tentado fazer isso."



Maior articulação com os cuidados primários

No caso específico da ligação aos cuidados de saúde primários, refere que foi assinado um protocolo para encaminhamento dos pacientes verdes e azuis, "à semelhança do que já tinha sido feito em Barcelos, com os doentes triados como não urgentes a serem reencaminhados para o centro de saúde".

Elsa Baião explica que o apoio administrativo na Urgência faz o contacto com o centro de saúde "e agenda uma consulta rápida para o utente, no próprio dia ou para o dia seguinte, ficando aquele isento do pagamento da taxa moderadora no hospital. É um processo voluntário, ninguém é obrigado a aderir."

Foram também já realizados dois outros protocolos: "um na área da Imagiologia e outro na Patologia Clínica, no sentido de disponibilizar análises básicas e raios X para os utentes que precisam de diagnóstico rápido, no centro de saúde."

Ou seja, "o doente vai ao seu médico de família, que necessita de um MCDT para concluir o diagnóstico, e envia o utente diretamente para o hospital, sem passar pela Urgência, para fazer um exame básico, e depois retorna ao médico de família."


Membros do Conselho de Administração do CHO: Francisco San Martin (diretor clínico), Elsa Baião, Lurdes Ponciano (enfermeira diretora), atrás - Pedro Morais (vogal) e Ivo Oliveira (vogal)

Mudanças já implementadas

Questionada sobre o que já mudou desde a tomada de posse, Elsa Baião salienta ser ainda muito cedo para fazer balanços, mas adianta que são vários os resultados visíveis:

"É já notório o aumento de atividade assistencial, verificado nos últimos meses, o que constitui, antes de mais, um ganho para os nossos utentes. Verificou-se, igualmente, uma ligeira melhoria dos tempos de espera para consulta e cirurgia. Fizemos um protocolo de afiliação com o CHU de Lisboa Central, CHU Lisboa Norte e o Instituto Gama Pinto, para complementar recursos em várias especialidades."

Acrescenta ainda que foi finalizado "o processo de regularização do vínculo laboral precário dos trabalhadores do CHO que submeteram a sua candidatura ao PREVPAP" foi desenvolvido "um modelo de gestão participada, assente na contratualização interna de objetivos e meios".

Elsa Baião revela também que "temos um projeto de criação de três centros de responsabilidade integrados" e recorda que "reabrimos a cozinha do Hospital das Caldas da Rainha, solucionando assim um problema que comprometia a qualidade das refeições de utentes e profissionais".

"Modernização, requalificação e inovação"
 
E quais os objetivos estratégicos traçados? "Uma das nossas prioridades é a realização de investimento na modernização, requalificação e inovação, relançando o CHO para níveis de qualidade e de diferenciação que nos últimos anos não foi possível obter", refere a responsável.


"Espero que consigamos fazer crescer e diferenciar o CHO"

Segundo Elsa Baião, este plano contribuirá para a "captação e retenção de recursos humanos diferenciados, para responder às necessidades efetivas da população, bem como para a substituição de equipamentos obsoletos e reparações das infraestruturas degradadas, onde já investimos cerca de um milhão de euros desde o início do mandato".

Por outro lado, "é importante efetivar uma integração e complementaridade entre cuidados primários, hospitalares e continuados e outros parceiros da comunidade, para criar respostas conjuntas, e desenvolver protocolos com outros hospitais".



A entrevista completa pode ser lida na edição de maio/junho do Hospital Público.

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