Consulta de Covid de Longa Duração na USF Tejo dá apoio a quem tem sintomas após a alta

Cansaço, tosse ou anosmia são exemplos de sintomas de covid-19 que podem manter-se durante semanas. Para dar resposta a estes doentes, a USF Tejo criou uma consulta específica, que acaba também por ser uma fonte de aprendizagem e de conhecimento, ou não fosse esta uma nova entidade clínica.

O alerta disparou na unidade quando se concluiu que um utente do sexo masculino, com 40 anos, não conseguia recuperar totalmente dos sintomas de covid-19. Apesar de não reportar quaisquer problemas de saúde anteriores e de ter tido apenas sinais ligeiros de covid, a fadiga extrema mantinha-se à medida que as semanas passavam, pondo em causa a realização de algumas das atividades de vida diária.

Miguel Ferreira, médico de família na USF Tejo, em Moscavide (Lisboa), que é o seu médico assistente, resolveu começar a procurar mais informação sobre a sintomatologia do que já se sabe, atualmente, ser covid de longa duração.


O Reino Unido é um dos locais onde mais se investiga este assunto, daí que o especialista em MGF e alguns internos da Unidade se tivessem focado em estudar o exemplo britânico, com base em dados disponibilizados pelo Serviço Nacional de Saúde inglês (NHS) ou divulgados em publicações científicas, como o British Medical Journal.


Miguel Ferreira

Com a crescente observação de casos destes nas consultas da USF Tejo, face também à maior incidência do vírus em dezembro e janeiro, foi criada, agora em março, a Consulta de Covid de Longa Duração.


Miguel Ferreira sublinha que “mais de 20% dos casos de covid-19 ligeiros a moderados não conseguem recuperar totalmente, mantendo queixas, nem que seja apenas anosmia, e obviamente que precisam de uma resposta”.



Manual de procedimentos e formação a toda a equipa

Com a colaboração dos médicos internos da Unidade, foi criado um manual de procedimentos para dar corpo à ideia de se ter uma consulta específica a pensar neste problema de saúde. Havendo já apoio hospitalar para quem teve sintomas graves de covid, faltava uma resposta a nível dos cuidados de saúde primários para os casos ligeiros a moderados que deixam marcas.

Na fase inicial, deu-se formação a toda a equipa da USF Tejo, para que mais facilmente pudessem ser identificadas as situações. “Qualquer utente tem direito a bons cuidados de saúde, por isso, temos que estar todos preparados para ajudar quando se suspeita estarmos perante um caso de covid de longa duração”, indica Miguel Ferreira.

Apesar deste especialista estar no projeto desde a fase inicial da sua conceção, quem dá a cara pelo mesmo é Frederico Rocha, interno do 3.º ano de formação específica de MGF, e Ana Sofia Ferreira, sua colega do 2.º ano. São eles que estão responsáveis pela consulta, fazendo a avaliação dos doentes.

O tipo de resposta vai depender dos sintomas apresentados, podendo ser necessário fazer o encaminhamento para uma especialidade hospitalar. Contudo, é sempre entregue a cada utente um folheto com indicações de como pode diminuir o impacto físico e psicológico da sintomatologia.


Frederico Rocha e Ana Sofia Ferreira

Para Frederico Rocha, que esteve muito envolvido na criação do manual de procedimentos, está a ser “um projeto muito aliciante”. E afirma: “Tenho a sorte de estar numa USF dinâmica. É um campo novo e um compromisso entre nós e os utentes, na medida em que estamos ainda a aprender muito.”

Reconhece que este projeto até surgiu na melhor altura. “Foi uma autêntica bolha de oxigénio, uma enorme mais-valia também para nós, que estamos em formação”.

A mais-valia da experiência da gripe A

A apoiar desde o primeiro dia a Consulta está Avelina Pereira, coordenadora da USF desde setembro de 2020 e uma das suas fundadoras, no final de 2010. Médica de família há 34 anos, mantém a mesma postura dos primeiros tempos: “Perante as dificuldades, há sempre duas atitudes possíveis: ou paralisamos ou avançamos com uma solução. Prefiro a última.”


Avelina Pereira

E foi essa mesma vontade de não parar que levou toda a equipa a reagir, procurando manter alguma atividade, quando há um ano um novo coronavírus veio alterar a vida de toda a gente.

“Mesmo quando o Ministério da Saúde deu indicações para nos cingirmos às consultas e Saúde Materna e Infantil, vacinação e casos urgentes, com os devidos cuidados, mantivemos o acompanhamento dos nossos utentes com doença crónica, optando pela teleconsulta sempre que possível”, esclarece Avelina Pereira.

Apesar de desempenhar as funções de coordenadora apenas desde setembro de 2020, o facto é que já integrava há vários anos o Conselho Técnico da USF Tejo. Conhecendo bem os problemas e os desafios da Unidade, ajudou na criação de um plano de contingência. O que não era propriamente uma novidade para si, uma vez que já em 2009 havia enfrentado, na qualidade de médica do trabalho, a epidemia da gripe A e a ameaça dos vírus SARS-CoV-1 e MERS. “A empresa onde eu prestava cuidados estava sediada em Macau e, inevitavelmente, foi preciso tomar algumas medidas”, recorda.



Essa experiência deu-lhe, assim, outro à-vontade para lidar com os desafios atuais e levou-a, inclusive, a pedir para que toda a equipa – mesmo os secretários clínicos – usassem sempre máscara, mesmo quando ainda não existiam diretivas nesse sentido. “Não foi fácil! Por que haveria de ser assim? Não havia indicações superiores”, exclama.

“Nunca mais dei um abraço aos meus pais..."

Pior do que as resistências de alguns colegas foi a falta inicial de equipamentos de proteção individual, que obrigou a “uma correria, em tudo o que era sítio, para se comprar EPI”, ao mesmo tempo que se esperava a reposição do stock de álcool-gel a nível nacional.

Mesmo assim, a coordenadora adianta que o ACES Loures/Odivelas ainda disponibilizou EPI “em tempo útil”, tendo sido possível adotar, desde cedo, algumas precauções que tão cedo não irão desaparecer, como usar viseira para observar a garganta e trocar de imediato de máscara ou auscultar sem se posicionar de frente para o doente. Mas, apesar de tudo, isso não é o mais difícil, como salienta Avelina Pereira.

E acrescenta: “Nunca mais dei um abraço aos meus pais... Isto cria uma certa dissonância cognitiva e emocional, o que não é fácil. A covid-19 é muito disruptora.” Dificuldades à parte, está satisfeita por a equipa estar a dar resposta e prova disso foi o terem mantido um bom Índice e Desempenho Global, que coloca a USF no 3.º lugar na avaliação das USF da Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo (ARSLVT).



“Todos são importantes, inclusive a senhora que faz a limpeza e o segurança”

O lema “não paralisar” foi também o mote que levou à criação da USF Tejo há 10 anos, assinalados no passado mês de dezembro.

Avelina Pereira e outros profissionais integravam a equipa do Centro de Saúde de Moscavide, onde as condições eram bastante precárias. Abraçou o projeto na expectativa de se poder vir a prestar cuidados de melhor qualidade aos utentes e também “pela possibilidade de se poder acompanhar e ensinar os internos de outra forma”.



Numa fase inicial, os profissionais da USF Tejo tiveram que ocupar temporariamente um espaço pré-fabricado, enquanto esperaram que estivesse pronto o edifício onde se encontram atualmente e que partilham com a UCSP Moscavide e com a USF Moscavide.

Avelina Pereira afirma à Just News que o que mais a fascina no modelo USF é a forma como se trabalha em equipa: “Todos são importantes, os médicos, os enfermeiros e os assistentes técnicos, mas também a senhora que faz a limpeza e o segurança. Aliás, tenho muita pena de que eles não possam ser considerados prioritários no processo de vacinação contra a covid-19, porque a verdade é que também correm riscos.”

Sequelas psicológicas

A saúde mental é, aliás, uma das áreas de interesse da USF Tejo, que se prepara para, nos próximos tempos, vir a dar uma especial atenção às sequelas psicológicas que o vírus pode originar.


Elementos da equipa da USF Tejo

“Vamos, com certeza, recorrer a escalas de avaliação precoce, para podermos dar uma resposta ou referenciar para consultas da especialidade", adianta Avelina Pereira.

E acrescenta: "Não é apenas o doente covid que ficou com sequelas que pode vir a ter problemas do foro da saúde mental, mas também todos aqueles que ficaram no desemprego ou que não têm conseguido lidar tão bem com o confinamento e com a falta de contacto social, de estar com a família e com os amigos”.

A médica espera, no entanto, que o apoio à saúde mental envolva outros parceiros porque “as USF têm alguma autonomia, mas pouco dinheiro”.



“O resultado será sempre maior que a soma das partes”

Quanto à covid de longa duração, "a ver vamos até quando se vai necessitar deste tipo de acompanhamento". O importante, como faz questão de dizer a nossa interlocutora, é que todos estão empenhados em dar o seu melhor, independentemente das condicionantes, e “o resultado será sempre maior que a soma das partes”.



A reportagem completa, com entrevistas a diversos profissionais da USF Tejo, pode ser lida na edição de abril do Jornal Médico dos cuidados de saúce primários.


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