«Desenhei um trajeto de vida que passa muito pela Medicina e pela família»

Entrevistado pela Just News uma semana depois de ter sido avô pela primeira vez, Armando Carvalho, diretor do Serviço de Medicina Interna A do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra (CHUC) e presidente do Colégio da Especialidade de Medicina Interna da Ordem dos Médicos, revela que tal facto não fará com que passe a trabalhar mais ou menos. “Nunca reduzi a minha vida à profissão, mesmo gostando muito dela”, garante o médico, que se assume como internista de corpo e alma.

Entre vários temas abordados nesta entrevista de fundo, publicada na mais recente edição de LIVE Medicina Interna, Armando Carvalho fala sobre si e a sua família, passa em revista mais de 35 anos das duas carreiras (a universitária e a hospitalar) e, claro, partilha as suas opiniões sobre a realidade e os desafios da Medicina Interna em Portugal.



“ser internista, fazer investigação e ter alguma área mais diferenciada de interesse”

Questionado sobre por que motivo escolheu a especialidade de Medicina Interna, afirma que "teve a ver com a minha personalidade. Nunca me interessei por um só assunto. Sempre quis prestar atenção às coisas de uma forma abrangente, de ter uma ideia tão completa quanto possível do ser humano. Ao longo do curso, as minhas opções foram sempre por especialidades mais generalistas, como a Medicina Interna ou a Cirurgia Geral."

Refere que gostava da vertente prática que a cirurgia proporcionava, "de poder resolver situações de forma mais rápida, mas acabei por optar pela Medicina Interna, que me dava mais liberdade de ação. Foi uma decisão perfeitamente consciente a que tomei em 1982. Como também queria seguir a carreira docente, achei que esta era uma especialidade que me dava maior liberdade e abertura."

Armando Carvalho explica que, no 4.º ano de Medicina, foi contratado como monitor e, "já depois de me licenciar, fui assistente de Microbiologia. Assim que pude transitei para a área clínica e passei a dedicar-me às duas carreiras, hospitalar e universitária. Para mim, as duas são complementares e sempre achei que era possível ser internista, fazer investigação e ter alguma área mais diferenciada de interesse." Desta forma, foi assim que, "por provas públicas, cheguei a especialista em 1987, a consultor em 1994, fiz o doutoramento em 1996, ocupei o lugar de chefe de serviço em 1999 e prestei provas de agregação em 2005."



Estudo do Fígado

Sendo o corpo humano uma área tão vasta de estudo, tendo tantos órgãos, o diretor do Serviço de Medicina Interna A esclarece porque escolheu o fígado como área de interesse:

"Tudo aconteceu de forma muito natural. Nos anos 80, era interno no Serviço de Medicina 3 dos Hospitais da Universidade de Coimbra, dirigido pelo professor Armando Porto, que tinha um interesse especial pelos doentes hepáticos. Havia então poucos médicos particularmente envolvidos nesta área e o internista, que deve ter uma visão global, mas pode ter picos de profundidade numa área ou outra de que goste mais, deve estar disponível para as necessidades do local onde trabalha. Para além de mim, criou-se um grupo que hoje é reconhecido como referência na Hepatologia nacional."

Internistas "de corpo inteiro"

Armando Carvalho faz questão de destacar que o Serviço de Medicina Interna A do CHUC "está muito bem representado também noutras áreas (nutrição clínica, doenças autoimunes sistémicas, lipidologia e aterosclerose, geriatria), tem gerado muitos doutoramentos e está presente nos órgãos sociais de várias sociedades científicas."

E acrescenta que trabalham atualmente no Serviço sete doutorados e seis regem unidades curriculares do Mestrado Integrado em Medicina, sublinhando: "Todos nós continuamos a ser internistas de corpo inteiro!"



Resolver "a equação final que permite o tratamento correto do doente"

Sobre o futuro da Medicina Interna, Armando Carvalho deseja, "não por qualquer espírito corporativo, mas por interesse do doente", que a especialidade tivesse uma atuação dentro dos hospitais "mais abrangente e melhor do que a que tem agora. Isto porque, à medida que os anos avançam, vai haver maior hiperespecialização, vamos ter mais médicos e não médicos a atuar sobre os doentes. A multidisciplinaridade e o trabalho de equipa vão ser cada vez mais importantes. Ou seja, teremos gente mais competente numa área limitada."

Por isso, acrescenta, "será cada vez mais necessário ter alguém que consiga olhar para o doente como um todo, estabelecendo a articulação entre saberes e competências, sintetizando e organizando os dados, resolvendo a equação final que permite o tratamento correto do doente. Isso será ainda mais essencial porque os doentes serão mais idosos e com mais patologias associadas."




A entrevista completa com Armando Carvalho pode ser lida na última edição de LIVE Medicina Interna. 

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