Doença valvular aórtica: tratamento sem cirurgia deverá ser «alargado a mais doentes»

Nos próximos anos a cirurgia poderá vir a deixar de ser a solução standard no tratamento da doença da válvula aórtica. A mensagem foi deixada por João Morais, presidente da Sociedade Portuguesa de Cardiologia e diretor do Serviço de Cardiologia do Centro Hospitalar de Leiria, durante o 7th Challenges in Cardiology, reunião de que é responsável.

“Nos últimos cinco anos a tecnologia e a investigação permitiram-nos perceber que é possível tratar a doença da válvula aórtica implantando válvulas sem cirurgia, a chamada implantação por via percutânea”, explica o cardiologista, acrescentando que os estudos hoje conhecidos demonstram uma grande eficácia desta solução em doentes de alto risco cirúrgico.

“Aquilo que a investigação tem vindo a mostrar é que é possível liberalizar um pouco mais o uso desta opção”, esclarece João Morais, afirmando que esta técnica começou a ser usada em doentes que tinham algum risco cirúrgico, mas podiam ainda ser operados, para chegarmos a uma fase, a atual, em que as válvulas estão a ser testadas mesmo em doentes de baixo risco cirúrgico.



“A questão agora é perceber até que ponto é que com estas válvulas percutâneas, temos os mesmos resultados, evitando a cirurgia”, explica, adiantando que os estudos estão a mostrar que têm eficácia igual à da cirurgia e com benefícios associados. Por isso, conclui, “tudo aponta para que nos próximos anos possamos alargar o uso destas válvulas e, dentro de cinco a seis anos, a necessidade de cirurgia seja muito menor do que é hoje para este tipo de doentes”.

Não obstante a mais valia terapêutica desta solução, João Morais reconhece que o custo desta solução é um “grande handicap”, pois, está muito acima do custo da cirurgia. Ainda assim, confia que no futuro se torne a solução mais vantajosa.

“No futuro, não só esperamos que as válvulas fiquem mais baratas como também que sejam feitos estudos de eficácia económica que mostrem que as vantagens podem ser de tal forma importantes que justifiquem o seu custo mais elevado. Se, por exemplo, chegarmos à conclusão de que podemos ter menos AVC com o uso de válvulas, temos de calcular a poupança que daí advém e tomar uma decisão fundamentada”, sublinha.



"Um campo completamente novo"

Outro tema em debate na sétima edição do Challenges in Cardiology foi o dos anticoagulantes orais. João Morais afirma que se trata de um campo onde estão a ser feitos novos usos que importava explorar.

“Estamos a abrir um novo conceito terapêutico, a chamada hipocoagulação de muito baixa intensidade, conseguindo benefícios clínicos e reduzindo os riscos hemorrágicos. É um campo completamente novo e que promete avanços no âmbito da proteção vascular”, augura o cardiologista.



"Um marco na educação médica em Portugal"


A sétima edição do Challenges in Cardiology foi a mais concorrida, com 300 inscritos, e João Morais explica os motivos deste sucesso.

“O Challenges in Cardiology é hoje um marco na educação médica em Portugal. O interesse que os jovens médicos têm manifestado nesta reunião é notório. É um modelo baseado em sessões, em que é possível explorar um tema aprofundadamente”, esclarece que vê como grande vantagem deste modelo o facto de as pessoas conseguirem, em apenas dois dias, ter um apanhado sobre 14 ou 15 tópicos abordados de forma detalhada.

Pese embora o crescimento da reunião, que mais uma vez decorreu em Monte Real, Leiria, João Morais não pretende torná-la maior e afirma que prefere que continue a ser considerada “a reunião gourmet da Cardiologia”, mantendo o modelo e o carisma que a caracterizam.

Nos dias 7 e 8 de julho, em cima da mesa para debate, para além da anticoagulação, estiveram temas como a cardio-oncologia, as novas guidelines para a insuficiência cardíaca, a diabetes e o uso de dispositivos eletrónicos.




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