Doença VIH: preparar profissionais para «a alta prevalência das lesões multiorgânicas»

“Os casos de VIH diminuíram, mas o diagnóstico nem sempre é atempado.” O alerta é de José Vera, coordenador do Núcleo de Estudos VIH (NEVIH) da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna (SPMI) e surgem no âmbito do 2.º Curso Intensivo Infeção e Doença VIH, que vai ter lugar entre 22 e 26 de setembro, em Tomar.

Com uma capacidade máxima de 30 formandos, o objetivo do Curso é abordar uma patologia que ainda traz alguns desafios aos profissionais de saúde e que, como refere o médico, “não é apenas uma infeção viral do sistema imunológico, mas uma doença sistémica, complexa, que desafia o nosso conhecimento e as nossas capacidades”.

Atualmente, um dos problemas que se mantém é o atraso no diagnóstico, havendo mesmo “alguns doentes que vão várias vezes às urgências, com certos sinais e sintomas de alerta, sem lhes ser feito o teste”. Para diminuir este tipo de situações, que tem implicações no prognóstico e na qualidade de vida, o internista espera que nesta segunda edição se consiga formar ainda mais profissionais, quer trabalhem em hospitais e cuidados primários, quer em organizações comunitárias.

Apostando numa componente sobretudo prática, este ano, os formandos poderão partilhar casos clínicos que lhes suscitem mais dúvidas. “Este será um momento importante e mais uma razão para mantermos o formato presencial”, afirma o coordenador do NEVIH.


José Vera

Outras patologias comuns

Especialista em Medicina Interna, dedicando-se à infeção por VIH desde 1996, José Vera pretende que o Curso não se cinja apenas às questões mais basilares da infeção e da doença, conforme explica:

“As novas classes terapêuticas, como a dos inibidores da integrase e as novas gerações de fármacos de classes já existentes, permitiram o resgate de doentes que, por anteriores falências múltiplas, tinham poucas opções de tratamento. Esta maior facilidade no controlo virológico, a curto e a longo prazo, e a consequente possibilidade de recuperação imunológica tem-se refletido no decréscimo acentuado da mortalidade e no crescente aumento da esperança de vida.”

Os doentes VIH deixaram assim de se confrontar com a probabilidade de poderem viver apenas mais 12 a 15 anos após o diagnóstico. Atualmente, com a inovação terapêutica, a diferença na esperança de vida em comparação com os não VIH é de 2 a 5 anos. “A prescrição correta e atempada de antirretrovirais continua a ser um dos elementos-chave para o controlo virológico e para a possibilidade de recuperação imunitária”, diz José Vera.

No entanto, não é ainda possível anular todo o impacto da infeção VIH e as comorbilidades vão surgindo. A inflamação crónica e a ativação imunológica, que persistem, mesmo após o controlo virológico, adicionam-se a outros fatores de risco clássicos, com impacto sistémico “na alta prevalência e precocidade das lesões multiorgânicas que ocorrem na doença VIH”.

Face a este desafio diário, no Curso ir-se-á abordar as patologias do foro pulmonar, cardiovascular, renal, metabólico e psiquiátrico: “São condições comuns a outras pessoas, nomeadamente com o avançar da idade. No caso concreto do doente VIH, acresce o ter uma doença sistémica e alguns comportamentos de risco, tal como o consumo de tabaco e ainda, em certos casos, o consumo de estupefacientes.”

Tanto no seguimento em ambulatório, como nas situações agudas, o médico defende, assim, a adoção de protocolos de atuação que promovam a redução de fatores de risco, a profilaxia, o diagnóstico precoce e o tratamento atempado das comorbilidades.

Entretanto, alerta para a importância de se estar atento à saúde mental, porque “não é fácil viver com esta patologia”. Por um lado, existe toda a necessidade de controlar a doença, por outro o estigma, que aumenta a incidência de perturbações depressivas e ansiosas. Em suma, espera que se possa ter uma visão holística do doente VIH ou não fosse ele próprio um internista.

O Curso, certificado pela Ordem dos Médicos, conta com o patrocínio científico da Associação Portuguesa para o Estudo Clínico da Sida (APECS). O programa pode ser consultado aqui.

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