Doenças psicóticas nos jovens: investir em unidades de transição para «intervenção mais efetiva»

A criação de unidades de transição para a patologia psiquiátrica da adolescência e jovens adultos foi uma das ideias debatidas no 19.º Congresso Mundial de Psiquiatria, que decorreu entre 21 e 24 de agosto, pela primeira vez, em Portugal.



Pedro Varandas, presidente da comissão organizadora local, destaca o sucesso do evento que se refletiu na “qualidade das comunicações” e nos mais de 4 mil participantes de 120 países.



Unidades de transição: "importante prosseguir este desenvolvimento"

Das várias intervenções do congresso, Pedro Varandas refere, em entrevista à Just News, a de Patrick McGorry, fundador do modelo de intervenção precoce nas fases iniciais das doenças psicóticas nos jovens.

“Este eminente psiquiatra e cientista propôs, com fundamento num modelo de transdiagnóstico – que prevê um olhar mais atento aos sintomas em si mesmos e não tanto ao diagnóstico categorial –, a criação de unidades de transição”, afirma.



Em termos concretos, explica o especialista, “a ideia é ter equipas constituídas por pedopsiquiatras, psiquiatras e outros profissionais especializados capazes de acompanhar e monitorizar jovens sinalizados quando apresentem sintomas de alerta para eventual evolução para psicose, permitindo assim uma intervenção precoce mais efetiva”.

Pedro Varandas recorda que estas unidades de transição (para a idade adulta) já são uma realidade nalguns países, inclusive em Portugal, dando o exemplo do Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa, "onde foi criada uma há cerca de 3 anos", mas sublinha: "É importante prosseguir este desenvolvimento.”


Pedro Varandas

Outra intervenção que também faz questão de destacar foi a de Thomas Fucks, psiquiatra e filósofo da Universidade de Heidelberg, Alemanha. “Apresentou uma ideia muito interessante da questão mente/cérebro, que é uma das questões mais debatidas desde sempre na Filosofia e nas Neurociências.

Segundo este autor, "o cérebro não será ele próprio o gerador de pensamentos, sentimentos e perceções, mas uma plataforma intermédia da relação da pessoa consigo própria, com o seu corpo e com o meio envolvente, sustentando a vida subjetiva consciente e inconsciente, resultante deste conjunto complexo de inter-relações”.



Os psiquiatras devem ser “atores ativos na definição das políticas de saúde”

Além de Pedro Varandas, outro dos participantes na sessão de abertura do evento foi Joaquim Cerejeira, que marcou presença em representação da Ordem dos Médicos (OM) e do Colégio da Especialidade de Psiquiatria e Saúde Mental da OM.


Joaquim Cerejeira

O psiquiatra salienta o empenho da OM, e do próprio Colégio, "para que os portugueses possam ter acesso a cuidados de saúde mental", mas alerta que são necessários três pontos-chave:

“Primeiro, a definição de políticas de acordo com a evidência científica, que devem ser partilhadas a nível global; segundo, a importância da relação efetiva entre médico e doente, de modo a que contribua para a gestão individualizada de cada caso clínico; terceiro, disponibilidade de recursos para a implementação de um pacote de cuidados, que pode ser diferente consoante a realidade de cada região.”

E acrescenta: “É necessário que os psiquiatras sejam suficientemente flexíveis para darem diferentes respostas ao mesmo problema, tendo em conta a pessoa em si e os recursos existentes”. Além disso, devem ser “atores ativos na definição das políticas de saúde, a fim de se conseguirem esses recursos”.



Também presente esteve João Marques Teixeira, presidente da Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental (SPPSM), que realça o enfoque na atualização científica, mas não só:

“A SPPSM também tem organizado algumas ações no sentido de diminuir o estigma associado à doença mental, nomeadamente junto da comunicação social.”


João Marques-Teixeira

E relembra os resultados do estudo “Health at a Glance 2018”, segundo o qual Portugal é o 5.º país da OCDE com mais problemas de saúde mental. “Em 2015, tivemos uma despesa de 6,6 mil milhões de euros com este tipo de patologias.”

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