Doenças respiratórias: «temos de personalizar os cuidados, definindo corretamente o doente»

“Aquilo para que nós classicamente fomos treinados foi para estabelecer um diagnóstico para uma pessoa que nos procura para um problema. Mas, de facto, estes diagnósticos clássicos já não encaixam tão bem como nós pensávamos até aqui”, afirma Pedro Leuschner, especialista de Medicina Interna que coordena o Grupo de Doenças Respiratórias do CH Universitário do Porto.

O médico sublinha que “as pessoas, ao longo da vida, sobrepõem situações como a exposição à poluição ou o consumo de tabaco a determinadas condições genéticas, e é o somatório de tudo isso que acaba por se traduzir numa determinada expressão clínica, como a dispneia ou a tosse, com carácter intermitente ou persistente”.

“Nós chegámos a um ponto em que acreditamos na personalização de cuidados, definindo corretamente o doente, desde as suas condições socioeconómicas até à sua capacidade de realizar os tratamentos que lhe são propostos”, diz Pedro Leuschner.

Garante que “só com a definição correta dos doentes é que nós vamos conseguir prescrever o tratamento adequado, sendo isso, por vezes, muito mais importante do que estabelecer se estamos perante uma DPOC e/ou uma asma”. E insiste: “Nós temos é que sair do órgão, deixar os rótulos e procurar a personalização e a individualização desta nossa leitura do doente, o seu diagnóstico.”

A personalização dos cuidados foi, aliás, o tema central da 1.ª Reunião do Núcleo de Estudos de Doenças Respiratórias (NEDResp) da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna (SPMI), realizada em 2018.

Um tema abrangente, em que se procurou abordar cada uma das áreas das doenças respiratórias, tentando definir de que forma os cuidados podem ser individualizados.


Pedro Leuschner

Abrangência das infeções respiratórias

Um ano depois, o NEDResp realizou há dias a 2.ª Reunião, no Porto, cuja Comissão Organizadora foi presidida precisamente por Pedro Leuschner. Procurando novamente a abrangência, estiveram agora em debate as infeções respiratórias.

A abrangência a que o nosso interlocutor se refere tem que ver com o facto de que “a infeção tanto surge numa pessoa saudável como na fase final de uma patologia respiratória, sendo muito comum nestas situações”.

“MI tem a obrigação de tratar bem estas situações clínicas”

A Medicina Interna tende a ser, como se sabe, uma especialidade presente nas áreas de admissão dos doentes, tanto na Urgência como na Consulta Externa, e acaba por assumir grande parte do internamento médico nos hospitais portugueses.

Segundo Pedro Leuschner, “mesmo em hospitais com serviços de Pneumologia, a grande maioria das infeções respiratórias é tratada pela MI”. Isso verifica-se, inclusive, quando é necessária a admissão em unidades intensivas ou intermédias. “No nosso Hospital de Santo António talvez mais do que noutros, por uma questão histórica de, durante muito tempo, não haver Pneumologia”, observa.

O médico considera mesmo que, “nesta dimensão de gravidade que implica tratamento hospitalar, a MI é, de facto, a especialidade que mais tem a obrigação de tratar bem estas situações clínicas”.

“Este nosso reconhecimento da relevância da patologia respiratória em geral para os cuidados médicos, tendo em conta a população que temos, levou-nos à criação do Núcleo. Procuramos contribuir, assim, para a formação no âmbito das patologias respiratórias crónicas, que são cada vez mais prevalentes, mas contemplando também as situações com que -- recorrentemente e sobretudo em picos de grande afluência à Urgência – mais nos confrontamos.”



Pedro Leuschner diz não ter dúvidas de que haverá tendência para irem surgindo mais internistas interessados nas doenças respiratórias. Admite, no entanto, que “relativamente à produção científica apresentada em congressos de MI, esta área tem sido relativamente pouco relevante, comparando com a incidência de outras patologias e a sua preponderância na nossa prática geral”.

O especialista acaba por deixar uma mensagem: “Como em qualquer área, se nós não aprofundarmos o conhecimento tendemos a agarrá-lo pela rama e, dessa forma, talvez a patologia respiratória seja menos cativante. Ideia que se altera quando percebemos que, na verdade, os doentes são todos diferentes, o que é verdadeiramente desafiante.”



A entrevista completa pode ser lida no Hospital Público de setembro/outubro 2019.

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