Doente crítico: integração de enfermeiros de reabilitação nos cuidados intensivos é «muito vantajosa»

Conhecer bem a clínica do doente crítico parece ser um aspeto fundamental na atividade do enfermeiro de reabilitação. Até porque, como esclarece Maria Loureiro, do Colégio da Especialidade de Enfermagem de Reabilitação da Ordem dos Enfermeiros , “não se trata de uma intervenção inócua”.

O Centro Hospitalar Universitário de Coimbra (CHUC) tem sido uma das instituições onde os enfermeiros de reabilitação "têm gradualmente vindo a integrar alguns dos serviços", nomeadamente o de Medicina Intensiva.



Em entrevista à Just News, Maria Loureiro esclarece o motivo desta crescente valorização dos enfermeiros de reabilitação: “percebe-se que essa integração nas equipas tenha vindo a acontecer gradualmente um pouco por todo o lado porque está demonstrado que representa uma mais-valia na prestação de cuidados, neste caso, ao doente crítico”.


Até porque, salienta, "não se trata de uma intervenção inócua. Todas as técnicas que nós usamos e, no fundo, tudo aquilo que fazemos tem riscos, como qualquer outra terapêutica. Porque é de cuidados terapêuticos que estamos a falar."

“Se eu for ter com o doente só para fazer a reabilitação e não conhecer o contexto prévio, até posso achar que ele não tem capacidade, ou que lhe falta motivação, quando afinal podem ser questões hemodinâmicas, clínicas, ou até de ordem emocional que o estão a condicionar relativamente à disposição para fazer uma sessão de reabilitação”, exemplifica. 


E faz questão de esclarecer que a presença continuada do enfermeiro no contexto em que o doente se encontra “é muita vantajosa, seja nos CI, nos cuidados intermédios, ou no internamento”.

"Passámos a poder estar mais horas com os doentes"

Criada há cerca de meio século, a especialidade de ER como que renasceu nos últimos 10 ou 20 anos, tendo o número de especialistas vindo a subir de forma significativa.
Consequentemente, “passámos a ser muitos mais, a poder estar mais horas com os doentes, com uma disponibilidade que não havia há uns anos”.


 Maria Loureiro: “Toda a gente percebe os ganhos em saúde pela diminuição do número de dias de internamento, pela redução das complicações...”

Maria Loureiro cita o exemplo da ULS Matosinhos, que “tem enfermeiros de reabilitação na maioria dos serviços e equipas de ER ao domicílio”, tendo mesmo sido já ali criado
um Núcleo de Enfermeiros de Reabilitação, sendo certo que esse tipo de grupo de trabalho já existe também no Hospital de São João e até no próprio CHUC. Espera que no IPO de Coimbra venha a ser formado mais um destes núcleos:

“O IPO de Coimbra é uma instituição relativamente pequena, mas já tem neste momento 12 colegas de reabilitação, assistindo-se progressivamente ao seu incremento. Vê-se uma evolução significativa. O foco tem sido sobretudo a preparação pré-cirúrgica dos doentes e no pós-operatório, sobretudo de cirurgia da mama, pelas limitações funcionais do lado operado, que comprometem o autocuidado da pessoa. Nos cuidados paliativos, por exemplo, o foco é o controlo de alguns sintomas e a promoção do bem-estar e autocuidado, existindo também enfermeiros de reabilitação noutros serviços.”
 
"O desafio de nos ajustarmos a este novo contexto"

As atenções estão neste momento muito focadas no doente com covid-19, Aliás, o próprio Colégio da Especialidade de ER da OE produziu um documento com um conjunto de recomendações sobre parâmetros de segurança e o tipo de intervenções que o enfermeiro de reabilitação poderá fazer neste doente em CI, no internamento e até nos cuidados de saúde primários.


Foto assegurada pelos próprios profissionais da UCI do Hospital Geral do CHUC

O documento em causa vai sendo atualizado, tendo em conta que estão permanentemente a ser publicados artigos a nível internacional, "estando a China na vanguarda da informação produzida e os EUA destacando-se já também com algumas recomendações".

”O doente covid-19 tem concentrado mais as atenções pelos desafios que coloca, por ser um tipo de doente que não se enquadra, do ponto de vista de segurança, nos parâmetros a que estamos habituados. Normalmente, num doente em CI trabalhamos aerossoloterapia, ventilação não invasiva e técnicas de cinesioterapia respiratória, que na infeção por covid-19 podem não ser recomendadas”, refere Maria Loureiro.


 Maria Loureiro: "Deverão estar a surgir, em média, 200 novos especialistas em ER por ano em Portugal"

A enfermeira sublinha ainda que, por outro lado, "há que perceber se, apesar de tudo, se poderá ir um pouco mais além e até submeter o doente a uma drenagem postural, ou recorrer a algum outro posicionamento que eventualmente poderá, em termos globais, não estar aconselhado".


E acrescenta: "Por isso é que a perícia do enfermeiro de reabilitação que está nos CI – ou no internamento, ou no domicílio – é tão importante. Nós possuímos as competências e agora temos o desafio de nos ajustarmos a este novo contexto."

"Vamos conseguir potenciar a melhoria do doente"

Maria Loureiro chama a atenção para um facto: “De tudo aquilo que tem saído em termos de literatura científica, e daquilo que vamos vendo, os doentes não saem saudáveis no pós-covid. Eles recuperam, mas existe toda a parte ventilatória, que passou por um percurso de doença que faz com que tenha depois de ser trabalhada e que deve ser uma preocupação e um alvo da nossa intervenção. Assim como a parte funcional, condicionada após a pessoa passar por um período de internamento em CI.”

A forma de trabalhar também não é comum: “Eu estou habituada a estar sem paramentação e o relacionamento com o doente, por exemplo, na reabilitação respiratória, é de muito contacto. Estando eu com o equipamento de proteção individual, terei necessariamente de proceder de uma forma algo diferente...  Nós já lá estamos. O desafio agora é ver como é que, dentro daquilo que já sabemos fazer, vamos conseguir potenciar a melhoria do doente.”



Dedicada à reabilitação pós-cirurgia cardíaca e transplantação

A ideia lá por casa era que fosse ser advogada, mas Maria Loureiro fez “uma mudança de muitos graus” e, para surpresa da família, foi estudar Enfermagem, em Coimbra. Natural de Resende, distrito de Viseu, Maria Loureiro acabou o curso e logo começou a trabalhar nos HUC, no Serviço de Medicina Interna.

“A população a que nós prestávamos maioritariamente cuidados eram pessoas com mais de 70 anos, que do ponto de vista funcional via-se que iam perdendo muita capacidade. Percebi que era possível ter uma intervenção que podia parar ou minorar essa situação”, recorda. Foi fazer a especialidade de Enfermagem de Reabilitação, que acabou em março de 2010, e começou a exercer na Medicina Interna.

Mais à frente, Maria Loureiro decidiu que queria trabalhar na Cirurgia Cardiotorácica, “porque a reabilitação cardíaca dentro da ER é uma área muito desafiadora, muito inovadora” e integra a equipa de enfermagem da Unidade de Cuidados Intensivos do Serviço de Cirurgia Cardiotorácica e Transplantação de Órgãos Torácicos do CHUC.

Tem-se dedicado mais à reabilitação pós-cirurgia cardíaca e transplantação. Fez o mestrado nesta área e está a preparar a tese de doutoramento, que consiste precisamente na elaboração de um programa de reabilitação cardíaca fases 1, 2 e 3 para doentes transplantados ao coração.

“Sempre valorizámos muito o enfermeiro de reabilitação”


Emília Sola tem a sua UCI, nos CHUC, pronta a receber doentes com covid-19, isto se e quando seja necessário, ou seja, se todas as camas de CI do Hospital Geral – mais de três dezenas – ficarem ocupadas. É isso que está programado.


 

Por enquanto, a enfermeira gestora da UC de Cirurgia Cardiotorácica continua a acolher os doentes em situação crítica no âmbito do Serviço de Cirurgia Cardiotorácica e Transplantação de Órgãos Torácicos do CHUC, que, aliás, têm sido poucos nas últimas semanas.

"Nós temos a vida do doente nas mãos!"

Natural de Sever do Vouga, foi estudar Enfermagem para Coimbra, contrariando um pouco a vontade do seu pai, que a queria “ver” advogada! Por curiosidade, muitos dos seus familiares próximos têm profissões na área da Saúde. Diz que é “intensivista por natureza”.

A verdade é que Emília Sola sempre esteve ligada a esta área e, já agora, ao mesmo Serviço, para onde entrou mal acabou o curso, pouco antes da inauguração dos HUC. Fez um estágio intensivo nos CI e por ali ficou, assumindo a chefia da UCI há uns 15 anos.


Emília Sola

“Eu acho que o enfermeiro de CI tem que ter um perfil muito próprio. Antes de mais, um grande autocontrolo e uma boa gestão do stress. Para além das competências científicas e relacionais exigidas, necessita de uma boa destreza técnica, pois nós temos a vida do doente nas mãos!”, exclama.

Afirma ainda: “O nosso foco principal é efetivamente assegurar a vida do doente e face a esta situação tão crítica instalam-se grandes défices de funcionalidade, que importa reabilitar. O enfermeiro de reabilitação é, assim, fulcral na equipa de CI.”

Especializada em Enfermagem Médico-Cirúrgica, Emília Sola esclarece que na sua Unidade sempre existiu a figura do ER” e mais: “Sempre valorizámos muito o seu trabalho, considerando-o imprescindível na recuperação do doente. Nós sabemos que este está acamado numa UCI e que os músculos, as articulações e toda a sua funcionalidade atrofiam se não forem trabalhados.”

Refere ainda que “muitos dos nossos doentes saem bem dos CI sob o ponto de vista cardíaco, mas, por vezes, mantêm um internamento prolongado pela necessidade de capacitar a componente respiratória e motora. Eu própria vi doentes totalmente dependentes que saíram do serviço a ‘andar’, fruto da aplicação de programas de reabilitação”.

"Foi possível incrementar as horas de cuidados de Enfermagem de Reabilitação"

À semelhança de Maria Loureiro e de Emília Sola, também Áurea Andrade, enfermeira diretora do CHUC, destaca o trabalho dos enfermeiros de reabilitação neste centro hospitalar, sublinhando, aliás, que a sua crescente integração nas equipas é resultado de uma opção tomada com base na evidência.

No contexto específico das unidades de Cuidados Intensivos, "tem um percurso já longo de reconhecimento da sua importância".


Áurea Andrade

É assim com satisfação que a responsável afirma: "Nos últimos anos, foi possível incrementar as horas de cuidados de Enfermagem de Reabilitação, aspeto que tem evidenciado ainda mais o seu papel nos ganhos em saúde".

Desta forma, acrescenta: "Temos, hoje, enfermeiros especialistas que cuidam com o mais elevado e atualizado nível de evidência científica, adaptando-se às necessidades de quem cuidam, tendo sido recentemente definido que o seu percurso formativo terá o grau de mestre, validando ainda mais as suas competências."

Segundo Áurea Andrade, e face a esta realidade, "os gestores não podiam ficar alheios a esta evidência, pelo que tem havido também uma preocupação em dotar os contextos de cuidados com mais enfermeiros de reabilitação".

A enfermeira diretora recorda ainda que, ao longo dos últimos anos, "têm sido efetuados no CHUC diagnósticos de situação sobre as necessidades de cuidados de Enfermagem de Reabilitação e alocados enfermeiros especialistas aos contextos", assegurando "ainda existirem áreas que pretendemos melhorar".




A reportagem completa pode ser lida na edição de maio/junho 2020 do Hospital Público - jornal para profissionais de saúde, distribuído em serviços e departamentos de todas as unidades hospitalares do SNS.

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