Hospital de Guimarães: «Estamos a fazer uma requalificação total da Urgência»

Após ter desempenhado vários cargos na Saúde, Delfim Rodrigues abraçou, em 2012, o projeto do Hospital de Guimarães, assumindo a presidência do Conselho de Administração. Em entrevista à Just News, publicada no último Hospital Público, adianta que está a ser levada a cabo "uma requalificação total da Urgência, sendo 15% do financiamento do próprio hospital e o restante do Programa 2020. Estamos a falar num investimento de 3 milhões de euros."

Evitar o reencaminhamento para outras unidades

Segundo o responsável, "também estamos a apostar na renovação de métodos de trabalho, o que é igualmente muito importante". Por outro lado, adianta que "temos renovado a Imagiologia, mais especificamente, com dois novos TAC. No caso do AngioTAC, fizemos um investimento de 2 milhões e 600 mil euros e melhorámos a qualidade de vida dos doentes, que antes tinham de ser reencaminhados para outras unidades."



Estão também a decorrer as obras, junto ao Bloco Operatório, para a criação de uma nova área cardiovascular: "São mais de 1,3 milhões de euros, um investimento que conta com verbas do Hospital, mas sobretudo – a maior fatia mesmo – de fund raising e de fundos comunitários. Terminámos também as obras de remodelação do Serviço de Cardiologia – parece um novo mundo dentro do Hospital."

Uma obra que só foi possível "com um grande apoio da comunidade (empresas, anónimos…) e com fundos comunitários. Em suma, assistimos a uma renovação completa, que passa pelos equipamentos, as instalações e as pessoas."

Projeto permite poupança de 350 mil euros/ano

Delfim Rodrigues faz questão de salientar: "O nosso objetivo é a renovação total do Hospital, quer em termos de instalações como de equipamentos e de inteligência, de modo a que possamos reduzir a pegada ecológica".



Nesse sentido, o administrador hospitalar recorda que o hospital é "o maior edifício de Guimarães, o que emprega mais pessoas e pensar no meio ambiente também é uma forma de poupar, porque o que se poupa em gastos com luz, água, etc. vai reverter para projetos de inovação".

É, assim, com satisfação que revela à Just News que o Hospital vai implementar um projeto de sustentabilidade e eficiência no uso de recursos energéticos "com um valor total de 3,6 milhões de euros. O projeto foi candidato a fundos comunitários do Programa Portugal 2020 e foi agora aprovado com uma comparticipação pelo Fundo de Coesão da União Europeia de 95%."

Esta ambiciosa obra será implementada nos anos 2017-18 "e estará totalmente operacional em 2019, permitindo uma poupança anual estimada de 350 mil euros, através da produção autónoma de energia por fontes renováveis e pela redução do próprio consumo de energia".

"A melhor arma terapêutica de que os hospitais dispõem"

A par dos vários investimentos em instalações e equipamentos, Delfim Rodrigues defende que os utentes devem ser tratados com compaixão e explica a sua ideia:

"A compaixão é, porventura, a melhor arma terapêutica de que os hospitais dispõem, porque só empatizo com o outro se compreender quais são os seus valores e preocupações, se me ´colocar na pele do outro`. Apenas desta forma consigo saber, com exatidão, o que o utente precisa, porque uma coisa é o que o profissional de saúde, os familiares, o sistema político de saúde pode pensar, outra é o que cada pessoa realmente acha que é importante para si."



Chama ainda a atenção para a evidência científica de que, "quando se aposta nesta vertente terapêutica da empatia e da compaixão, a recuperação do doente é substancialmente mais rápida".

E acrescenta: "Tradicionalmente, os hospitais tendiam a olhar, de forma padronizada, para a doença, mas não nos podemos esquecer que cada utente representa uma realidade muito própria. Não vale a pena pensar primeiro na doença sem pensar no doente. Esta é a questão central de todo o ciclo de tratamento hospitalar, daí o Hospital da Senhora da Oliveira ser contra a padronização."

"Escolha centrada nas necessidades da pessoa"

É viável pôr em prática essa compaixão num hospital com a dimensão do Hospital de Guimarães? Delfim Rodrigues acredita que sim e, com o objetivo de acelerar essa implementação, revela que "a unidade hospitalar vai integrar a metodologia ICHOM (International Consortium for Health Outcomes Measurement), que estabelece trâmites em torno do doente, tendo em atenção as necessidades e os desejos de cada pessoa" e dá um exemplo: "um homem com cancro da próstata tem à disposição diferentes abordagens terapêuticas, dependentes do seu estado de saúde".

Na sua opinião, "é importante tomar uma decisão em conjunto com o doente, porque o que é bom para mim não tem de ser para o outro." Assim, com a metodologia ICHOM, as equipas vão explicar ao doente as alternativas que tem face a determinada patologia, "de modo que a escolha fique centrada nas necessidades da pessoa".



Consultas fora da área de residência


Na sequência do sistema LAC (Livre Acesso e Circulação), o Hospital de Guimarães é dos mais procurados para consultas fora da área de residência: "Servimos cerca de 265 mil habitantes na sua área de influência e meio milhão na área de atração. De facto, hoje em dia, os doentes têm plena consciência do que querem e onde preferem ter determinados cuidados."

Delfim Rodrigues refere que, dentro do seu grupo, onde estão instituições do SNS com dimensão semelhante, "o Hospital de Guimarães é mesmo o mais procurado e com mais pedidos de fora da sua área em 16 especialidades, destacando-se os pedidos para consultas de Anestesiologia, Cardiologia e Neurologia. Apenas para dar um exemplo, o Serviço de Gastrenterologia teve um aumento de procura de 52% desde que o Governo implementou o LAC."

Apesar de considerar serem "ótimas notícias", não tem dúvidas de que "isto coloca sérios desafios, principalmente no que respeita à nossa capacidade de oferta".



Hospitalização domiciliária

O Hospital Senhora da Oliveira tem apostado na hospitalização domiciliária desde 2014. Questionado sobre como está a correr o projeto, o administrador assegura estar "a bom ritmo", indicando quais os dois ingredientes necessários para que projetos como este - "que são o futuro" - tenham sucesso:

"A adesão dos doentes e seus familiares e a dos profissionais de saúde. Até ao momento, os utentes e a família estão muito satisfeitos – temos realizado inquéritos – e os médicos e enfermeiros que estão no projeto apresentam graus de satisfação muito mais elevados do que os dos restantes colegas. Isto é fundamental, porque não se pode enviar pessoas que não gostem de trabalhar fora do hospital."

O projeto será, entretanto, reforçado: "aguardamos uma nova viatura para darmos assistência ao fim de semana e também vamos expandir o projeto às áreas médicas não cirúrgicas, porque estamos a ter bons resultados".



Delfim Rodrigues nota que existe, cada vez mais, "uma maior abertura a esta ideia" e recorda os encontros que se realizaram há cerca de um ano, em Almada e em Guimarães, onde foram partilhadas as experiências do Hospital de Guimarães e do Hospital Garcia de Orta no âmbito da hospitalização domiciliária:

"Foram vários os hospitais presentes. Acredito que a tal compaixão de que falava também passa por este projeto. É notável a ligação que se mantém aos profissionais. Há relatos de pessoas que, depois da alta, telefonam a convidar o médico e o enfermeiro para um almoço ou um jantar, porque já têm saudades deles."

Uma carreira na Saúde que lhe valeu uma Medalha de Mérito

Com 63 anos, Delfim Rodrigues é presidente do Conselho de Administração do Hospital da Senhora da Oliveira, em Guimarães, desde 2012. Licenciado em Direito e com uma pós-graduação em Administração Hospitalar, desempenhou o cargo de administrador em vários hospitais públicos e privados, tendo iniciado a sua carreira nos Hospitais Civis de Lisboa. No final dos anos 80, foi bolseiro do Programa “Hubert Humphrey”, da “Fullbright”, tendo feito formação em hospitais nos EUA.

Após chegar a Portugal, esteve à frente da Direção Regional do Norte das Instalações e Equipamentos da Saúde, foi diretor-geral dos Hospitais, diretor-geral da Saúde e presidente da ARS de Lisboa e Vale do Tejo. Foi ainda docente universitário, consultor da Organização Mundial de Saúde e integrou inúmeras comissões nacionais e interministeriais. Pelo seu trabalho, em 2015, no Dia Mundial da Saúde, foi-lhe atribuída a Medalha de Serviços Distintos do Ministério da Saúde, grau “ouro”.



A entrevista completa pode ser lida na edição de novembro do Hospital Público.

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