Dificuldade dos profissionais em darem afeto aos doentes covid-19 aumenta o desgaste

A “intensidade dos acontecimentos” relativamente à pandemia de covid-19 tem tido “um forte impacto na saúde mental dos profissionais de saúde”, garante a psiquiatra Maria Luísa Figueira.

Para a presidente da Comissão Organizadora do III Encontro das Secções da Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental (SPPSM), que decorre online esta quinta e sexta-feira, isso acontece apesar de aqueles profissionais serem “mais resilientes por estarem habituados a enfrentar situações de morte e de sofrimento”.

Sob o tema “Ruturas e continuidades da vida psíquica -- o papel das crises”, o evento conta com o envolvimento das várias secções da SPPSM, sendo que cada uma irá refletir sobre o impacto das crises na sua área específica de atuação.

“Note-se que se fala de crises, ou seja, não nos iremos cingir à pandemia da covid-19”, realça Maria Luísa Figueira, em declarações à Just News.


Maria Luísa Figueira

Contudo, a ex-presidente da SPPSM admite que a atual conjuntura sanitária tem sido expressiva, quer para a população como para os profissionais de saúde:

“Na sua formação, os profissionais adquirem competências para saberem lidar com situações de enorme sofrimento e de morte, mas a forma como o número de infetados aumenta de dia para dia, o desconhecimento inicial da doença e o receio de infetar a família leva a um maior risco de desgaste e de ansiedade.”

As tarefas rotineiras, como sair do trabalho e ir para casa conviver com a família e amigos, acabam por ser postas em causa, com as consequências que daí advêm: “Deixou-se ter, ou pelo menos reduziu-se, esse momento para se descontrair mentalmente. Muitos estiveram meses sem ver os familiares e isso acarreta uma carga emocional muito grande, à qual acresce o stresse associado a novos procedimentos, tal como a desinfeção e o uso de equipamentos de proteção individual (EPI).”

A psiquiatra acrescenta ainda que “o facto de os doentes covid estarem isolados, e até morrerem sem ver a família, faz com que os profissionais sintam necessidade de lhes dar mais apoio”. Missão essa que também está condicionada. “Não o conseguem fazer da maneira como gostariam porque os EPI não facilitam os gestos de carinho e afetividade”, afirma.

Quanto à população, o risco de agudização ou desenvolvimento de perturbações mentais é acrescido nos tempos que correm: “O isolamento, o distanciamento social e as novas regras são fatores de risco por causa das vivências subjetivas, das imagens recorrentes de pessoas em Cuidados Intensivos, o número crescente de infeções… Tudo isto causa sofrimento, sobretudo por causa do medo da morte e da falta de ar.”

As mudanças na forma como se expressam as emoções também é um problema. “O toque, o contacto físico, é fundamental na socialização e esta pandemia vai ter repercussões a vários níveis, levando a diversas crises.”



Várias temáticas refletem a “transversalidade da Saúde Mental”

O III Encontro vai ficar marcado pela criação de mais cinco Secções da SPPSM: Psiquiatria Geriátrica, Arte e Psiquiatria, Saúde Mental da Mulher, Psiquiatria da Adição e Estética e Psiquiatria.

Para Maria João Heitor, presidente da SPPSM, estas refletem “a transversalidade da Saúde Mental”, não apenas no setor da Saúde, mas também em todos os restantes. “As secções são expressão de uma série de áreas diferenciadas dentro da Psiquiatria e Saúde Mental”, diz.


Maria João Heitor

Ainda no que diz respeito ao evento, a responsável sublinha que a SPPSM procura chegar aos mais diversos especialistas, tais como neurologistas, médicos de MGF, enfermeiros, psicólogos, terapeutas ocupacionais, assistentes sociais, investigadores e colaboradores de IPSS e ONG.

Além dos temas de cada Secção, haverá sessões plenárias para se debater temas, como a Psiquiatria no século XXI, a prevenção das psicoses, o stress e a imunologia, a recuperação funcional na doença bipolar e a medicina personalizada na depressão.

"Estamos a preparar um Encontro que permita uma comunicação eficaz entre os psiquiatras, os profissionais de saúde mental e os investigadores em áreas relevantes da prática psiquiátrica", asseguram as duas especialistas.


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