Enfermeiras criam «SNS - Jogo da Glória» para mostrar ao utente como usar os serviços de saúde

As enfermeiras Edite de Brito e Adriana Taveira conheceram-se em 2017, quando foram convidadas pela então diretora executiva do ACES Cávado III Barcelos/Esposende, Sofia Leal, a integrar o grupo de trabalho que iria desenvolver, nomeadamente, o projeto “Gestão do Percurso do Utente com Doença Aguda/Agudização da Doença Crónica”, no âmbito da iniciativa “SNS + Proximidade”.


Edite de Brito e Adriana Taveira

“Com o projeto em pleno funcionamento e com ganhos em saúde, fomos motivadas a apresentar a candidatura ao Prémio de Boas Práticas em Saúde, conscientes de que teríamos que ser inovadoras”, recorda Edite de Brito. E admite que a ideia de elaborar um poster com o Jogo da Glória “surgiu num brainstorming casual” com a sua colega e que até tiveram sérias dúvidas de que a conseguiriam “pôr no papel”.

“Apostámos tudo no objetivo de transmitir com êxito a mensagem de que as escolhas do utente influenciam o seu percurso no SNS. Até porque a literacia em saúde tem um papel fundamental na forma como ele gere a sua saúde/doença e como usa os serviços de saúde”, refere Edite de Brito, acrescentando:

“Cada ‘casa’ do Jogo traduz uma parte do projeto, mostrando que as instituições e os profissionais envolvidos tiveram que se organizar e dar resposta à procura do utente. Pretende-se que seja um percurso sustentável, sendo que na última ‘casa’ lançamos ainda a ideia de se investir na recompensa pela escolha certa, pelo desempenho do bom utilizador.”



Cuidados primários: "uma possibilidade única de intervenção"

Envolvendo o Hospital Santa Maria  Maior, em Barcelos, e lançado como projeto-piloto, a funcionalidade da “Gestão do Percurso do Utente com Doença Aguda/Agudização da Doença Crónica” foi entretanto replicada na Póvoa de Varzim, Guimarães, Vila Nova de Gaia e Porto.

"Somos defensoras de que há uma clara necessidade de se investir na literacia em saúde para a continuação do sucesso do mesmo”, refere Adriana Taveira, que sublinha o “papel fundamental e estratégico” dos cuidados de saúde primários, que deverão constituir a “porta de entrada do utente no sistema”.

E mais: “É, sem dúvida, crucial uma visão integrada dos esforços (ACES e hospital), mas é nos CSP que reside uma possibilidade única de intervenção – a ação contínua e próxima centrada na pessoa/comunidade.”

Uma parceria com o hospital que é “espetacular”

Fernando Ferreira, médico de família, assumiu a direção executiva do ACES Cávado III Barcelos/Esposende no final de maio de 2019, mas a verdade é que acompanha o projeto “Gestão do Percurso do Utente com Doença Aguda/Agudização da Doença Crónica” desde o seu arranque, bem como a criação do Jogo da Glória por Edite de Brito e Adriana Taveira, porque já presidia ao Conselho Clínico e de Saúde.


Fernando Ferreira e Joaquim Barbosa prontamente se disponibilizaram para sublinhar à Just News a relevância do projeto na integração de cuidados

Faz questão em explicar como funciona este Jogo da Glória tão especial: “Quando o doente se dirige ao Serviço de Urgência do hospital tem duas hipóteses: ou aguarda que seja atendido, e é informado sobre qual o tempo de espera previsto, ou opta por se dirigir ao centro de saúde, onde tem uma consulta agendada. Se assim for, vai para outra ‘casa’ do Jogo, para uma consulta no âmbito dos CSP, preferencialmente atendido pelo seu médico de família.”
 
Fernando Ferreira considera que “esta interação, esta cooperação, esta parceria com o Hospital Santa Maria Maior é espetacular”. E afirma que as coisas têm “funcionado bem, há um bom entendimento, e quem ganha é o utente, não está em causa o interesse do hospital ou do ACES”.



62% dos utentes aceitaram ser referenciados


Adriana Taveira revela que a taxa de adesão dos utentes que recorreram à Urgência do Hospital Santa Maria Maior e aos quais foi proposta a referenciação para os CSP foi de 62%, ou seja, seis em cada dez aceitaram a sugestão de serem antes observados numa consulta agendada numa unidade do ACES.

Posteriormente, foi realizada uma avaliação junto desses utentes que permitiu concluir que “100% revelaram-se satisfeitos com a resposta dos CSP e com o processo estrutural e físico de referenciação”.




De acordo com a enfermeira, “também acreditamos que isso contribua para a mudança comportamental que desejamos conseguir com a implementação do projeto”.

“Há muita procura desajustada e excessiva dos serviços de Urgência. Isso acontece nos grandes centros urbanos mas também na nossa realidade, que é mais local e periférica. Tem a ver com uma visão demasiado hospitalocêntrica, em que o próprio utente está convencido de que é no hospital que resolve mais facilmente a sua situação”, refere Adriana Taveira, garantindo:


“Nós, nas unidades de cuidados primários, também temos essa capacidade. Mas é importante que a pessoa seja a decisora do seu percurso e, se sentir que as suas necessidades foram satisfeitas, vai seguramente ter uma procura ajustada. Porque os CSP é que devem ser a ‘porta de entrada’ no SNS, considerando um contexto de doença aguda não urgente.”


Joaquim Barbosa, Edite de Brito, Fernando Ferreira e Adriana Taveira


“As pessoas não tinham noção de que havia uma alternativa ao hospital”

Procurar fazer com que os percursos dentro do sistema de saúde fossem os mais adequados às necessidades dos doentes foi, de acordo com Joaquim Barbosa, presidente do Conselho de Administração do Hospital Santa Maria Maior - Barcelos, uma razão de peso para que esta instituição não hesitasse em associar-se ao ACES Cávado III Barcelos/Esposende no âmbito do projeto “Gestão do Percurso do Utente com Doença Aguda/Agudização da Doença Crónica”.

Segundo o responsável, “a percentagem de doentes com a cor verde ou azul que recorriam à Urgência do Hospital de Barcelos chegava aos 52/53% e, portanto, facilmente se percebia que uma parte significativa estava no sítio errado, com tudo o que isso depois acarreta de pressão para o próprio Serviço".

Uma realidade que, no caso desta unidade, "não é pouco, na medida em que as instalações da Urgência são muito diminutas, atendendo em média 200 utentes por dia”, afirmou Joaquim Barbosa, frisando que “a nossa preocupação também tinha que ver com otimizarmos recursos que eventualmente estivessem disponíveis”.


Por outro lado, “considerou-se que havia um caminho a percorrer no sentido de proporcionar aos utentes uma resposta ao nível dos cuidados de saúde primários que envolvesse a utilização de meios complementares de diagnóstico e terapêutica, até porque isso é tradicionalmente apontado como um motivo de recurso ao Serviço de Urgência”.



Joaquim Barbosa diz que se concluiu depois que muitas das pessoas recorriam à Urgência porque simplesmente “não tinham noção de que havia uma alternativa ao hospital”. E que, por outro lado, a sua sobrelotação conduz a tempos de espera mais elevados, aumentando o risco de infeções cruzadas entre utentes.

Uma das medidas implementadas na concretização do projeto “Gestão do Percurso do Utente com Doença Aguda/Agudização da Doença Crónica” prende-se com a referenciação para o ACES de todos quantos, após avaliação na Urgência do hospital, se conclui poderem ser observados nos CSP, uma vez obtida a sua concordância.

“Sempre tivemos consciência de que implicava um grande esforço para o ACES”

O administrador explica como as coisas se passam: “Após a admissão normal na Urgência, o utente é triado por um enfermeiro que, identificando a situação como sendo ‘azul’ ou ‘verde’, considera que o mesmo é potencialmente referenciável para os CSP. Em simultâneo, é confirmada a existência de vaga para consulta criada para o efeito na unidade a que o utente pertence, sendo este convidado a optar por essa alternativa, com o imediato agendamento dessa consulta.”

Com 1145 referenciações para os CSP registadas entre o início deste procedimento (8 de maio de 2018) e a data da reportagem (13 de dezembro de 2019), Joaquim Barbosa está satisfeito com o resultado. Frisando que “o utente, como é natural, pode decidir se aceita ou não a sugestão do enfermeiro”, esclarece que este profissional “aproveita para, de uma forma pedagógica, dar algumas informações, sobretudo sublinhando a importância dos CSP nesta matéria”.

Com uma percentagem de utentes ´verdes` e ´azuis` no Serviço de Urgência reduzida a 43%, Joaquim Barbosa faz questão de afirmar que, embora a implementação deste modelo decorra, em primeira linha, da própria instituição hospitalar, “sempre tivemos consciência de que implicava um grande esforço para o ACES”. Esforço que se traduziu, desde logo, na disponibilização de mais vagas para consultas com este fim e na ampliação do número de unidades aderentes.



"Só formalmente é que nós não somos uma unidade local de saúde"

Dentro da lógica de otimização dos recursos, e aplicando o princípio de internalização de meios e de capacidades dentro do SNS, o hospital começou a disponibilizar os meios de diagnóstico e terapêutica, que são comprados pelos CSP via ARS.

“O utente continua a poder optar pelo setor convencionado, mas tem esta alternativa. Todas as manhãs, um técnico do hospital faz as colheitas nas diversas unidades e, depois de processadas, os resultados são colocados no SClínico, à disposição do médico de família”, indica Joaquim Barbosa.

De referir que, depois das análises clínicas, e agora que existe o aparelho, seguiu-se a disponibilização de TAC, com prescrição do médico de MGF, e a realização do exame de espirometria, com um técnico que se desloca às unidades de Barcelos e Esposende com o respetivo equipamento, com relatório elaborado por um médico hospitalar.

“Eu costumo dizer que só formalmente é que nós não somos uma unidade local de saúde, mas o nível de integração é muito significativo”, conclui Joaquim Barbosa.

Poster premiado


As mais valias do projeto “Gestão do Percurso do Utente com Doença Aguda/Agudização da Doença Crónica” foram já publicamente reconhecidas no âmbito do Prémio Boas Práticas em Saúde, promovido pela Associação Portuguesa para o Desenvolvimento Hospitalar (APDH). 

O projeto foi o vencedor da categoria “Melhor Poster”

O "SNS - Jogo da Glória" pode ser consultado aqui.


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