As diferenças nos gémeos monozigóticos: «Este livro é um puzzle»

Após mais de 15 anos de dedicação à temática dos gémeos monozigóticos, Alexandra Matias orgulha-se de ter publicado, em maio último, um livro que pretende evidenciar as suas diferenças. Em entrevista à Just News, a par da sua paixão pelo tema, fica também evidente o seu grande desejo de trazer a arte para a Medicina.


Alexandra Matias

Genética e ambiente

“O fenótipo é um conjunto de forças balanceadas entre o genótipo, a epigenética e o ambiente”, afirma Alexandra Matias, especialista em Ginecologia/Obstetrícia do CH Universitário de São João e professora da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP). Se, por um lado, verifica que o património genético dos gémeos é diferente, a especialista sublinha que também os fatores ambientais contribuem para esta diferença.

“A exposição ao sol, a influência das dietas ou o crescimento em lugares distintos torna-os diferentes”, explica, referindo que “gémeos monozigóticos separados à nascença, em que um cresce na Europa e o outro nos EUA, com formas de estar, culturas e religiosidades distintas, vão ser diferentes porque viveram em ambientes que não eram iguais”.

Quanto à componente psíquica, apesar de afirmar que também aí os gémeos diferem, a médica reconhece existir “uma telepatia incrível”, apresentando o exemplo de dois irmãos monozigóticos residentes nos EUA: Louis e David Keith. Numa ocasião, estavam divididos entre Chicago e Berlim, e enquanto um deles era diagnosticado com uma pielonefrite, com dor renal e febre, o outro, a mais de 7000 km de distância, começou a sentir os mesmos sintomas. “Há o misticismo, a magia, e depois há as coisas reais...”, observa.

As 22 fotografias da autoria de Tiago Martins que figuram no livro, quando se fala de gémeos, confirmam a ideia de que “o serem completamente iguais é que é raro”. Natural do Porto, Alexandra Matias dividiu o seu percurso académico e profissional entre a cidade materna e alguns outros locais no mundo.

Após fazer o curso de Medicina e o internato geral na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, foi na Alemanha, aos 23 anos, que iniciou a experiência da investigação básica em ratos. “Criei um modelo e ganhei um prémio ao desenvolver ratos com hipertensão por um bloqueio crónico dos recetores da adenosina”, esclarece.



O diagnóstico pré-natal é “a arte da doença”

As suas atenções rapidamente se dirigiram para o diagnóstico pré-natal, que caracteriza como “a arte da doença”. O primeiro interesse foi “tentar perceber por que razão a translucência da nuca estava aumentada nos bebés com trissomia 21”, afirma, recordando a “onda completamente estranha num desses fetos”, que identificou como sendo “sinal de insuficiência cardíaca”.

Depois de verificar a presença  dessas mesmas ondas em fetos com trissomia 18 e 13, depressa concluiu que “em muitos dos casos com translucência aumentada havia uma cromossopatia”, o que a levou a enveredar pelo estudo dos fenómenos do ducto venoso no 1.º trimestre da gravidez.

Esta sua constatação foi apresentada e premiada no Congresso Mundial em Ultrassonografia Obstétrica e Ginecológica (ISUOG), em Roterdão, lugar onde conheceu o Prof. Kypros Nicolaides, tido como “o ‘Deus’ da Medicina Materna e Fetal”.

Para seu espanto, surgia um convite na primeira pessoa para trabalharem juntos em Londres os fenómenos do ducto venoso, que culminou na publicação de dois artigos com mais de duas mil citações. “Consegui fazer em três meses o que em Portugal teria demorado três anos a conseguir!”, exclama.


É o fenómeno do ducto venoso, em combinação com a translucência da nuca aumentada, que leva a especialista a aplicar esses conceitos aos gémeos, em particular aos monozigóticos.

“Percebemos que nos monozigóticos, essas alterações não levavam a mais cromossomopatias, mas ao desenvolvimento de síndrome de transfusão feto-fetal”. É neste contexto que Alexandra Matias conhece o Prof. Isaac Blickstein, um dos obstetras com mais publicações, com quem viria a partilhar a edição do livro Developmental and Fetal Origins of Differences in Monozygotic Twins.

“O Prof. Isaac foi alguém que me deu mesmo a mão nesta minha especialização em gémeos”, recorda, triste por o colega e amigo não ter conseguido ver a obra publicada em vida.

Um livro "feito de muitas vicissitudes"

A ideia de editar um livro surgiu em 2011, depois de Alexandra Matias sugerir a uma mestranda o estudo dos mecanismos de discordância dos gémeos monozigóticos e perceber que existia muita matéria para explorar. Contando com a colaboração de especialistas nacionais e estrangeiros, o objetivo era explorar, em conjunto, “as diferenças no crescimento fetal, genótipo, genética, comportamento ou desenvolvimento”. Este projeto editorial haveria de ter uma gestação de quatro anos.



Além de abordar a própria questão científica, o livro contempla uma componente jurídica, em que se discute a “problemática de, perante um crime cometido por um gémeo, o queixoso afirmar reconhecer o seu autor quando, inicialmente, tinha identificado o outro gémeo, sendo, assim, impossível prender o verdadeiro culpado”. Neste ponto, Alexandra Matias afirma estarem a ser estudadas “novas formas de, pela íris ou por metilação do ADN, tentar chegar às provas e saber quem é quem”.

Também a matéria histórica e mitológica teve direito a um capítulo neste livro, o que foi propiciado pelo gosto da nossa interlocutora pela Arte. “Enquanto nós, europeus, reagimos com ‘São dois, é giro!’, os índios da Califórnia, os esquimós ou os ainus japoneses, geralmente, cometiam infanticídio, aceite dentro da comunidade e justificado pela pobreza”, conta Alexandra Matias.

A médica lembra também que “muita da mitologia inclui gémeos”. Por exemplo, Jacob e Isaías estão descritos na Bíblia como ‘um que saiu vermelho e outro branco’, um caso de síndrome de transfusão feto-fetal”.


Apesar de reconhecer que "o percurso de construção do livro foi feito de muitas vicissitudes", Alexandra Matias frisa que foi a sua resiliência, combinada com “capítulos de extrema qualidade, escritos com o coração”, que permitiu chegar ao resultado final, sem nunca desistir.

“Médicos expostos a Arte são melhores profissionais”

“Desistir” é uma palavra que não tem cabimento no seu desejo de “levar a Arte para a Faculdade de Medicina do Porto”, onde leciona.

Acreditando e tendo como base variados estudos que provam que “médicos expostos a Arte são melhores profissionais”, por desenvolverem “a capacidade para ver o detalhe, terem sensibilidade e serem mais humanos”, a especialista tem já um projeto pensado para três anos, que engloba “aulas de teatro, fazer fotografia, ir a museus ou identificar doenças em determinados quadros”. “Quero médicos mais humanos e renascentistas”, remata.

Um projeto "a 80 mãos"

Alexandra Matias e Isaac Blickstein são os editores deste livro publicado pela Elsevier, que reúne um conjunto de textos de autores portugueses e estrangeiros das mais diversas áreas. 


Ao longo de 360 páginas, distribuídas por 22 capítulos, estendem-se os textos de 40 coautores de 10 países diferentes. Publicado e disponível na Elsevier, este livro também se encontra à venda na Amazon e na Barnes & Noble.


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