Miocardiopatias: peritos estrangeiros vêm a Lisboa partilhar as principais novidades da área

Um número invulgar de especialistas em doenças do miocárdio oriundos de vários países desloca-se a Lisboa, no final de novembro, no âmbito de um curso pós-graduado inteiramente dedicado às miocardiopatias. Dulce Brito descreve-as como “doenças complexas, de difícil diagnóstico e causa potencial de morte súbita, muitas vezes em idade jovem”.

"A miocardiopatia dilatada é uma das grandes causas de insuficiência cardíaca"

A cardiologista de Santa Maria, que é uma das diretoras do curso “Cardiomyopathies in Clinical Practice”, sabe do que fala. A sua tese de doutoramento, concluída em 2007, foi dedicada à miocardiopatia hipertrófica, e, não menos relevante, é responsável pela Consulta de Miocardiopatias daquele hospital desde 2003. “Sigo mais de 200 famílias. O equivalente a várias centenas de pessoas, entre doentes e familiares”, revela.

Compreende-se que não seja fácil fazer o diagnóstico preciso de uma miocardiopatia, até porque só as de origem genética são em número elevado, “umas muito raras, outras frequentes”, explica Dulce Brito. “A miocardiopatia hipertrófica sarcomérica, por exemplo, pode afetar uma em cada 200 pessoas. A miocardiopatia dilatada, por sua vez, é frequentíssima e uma das grandes causas de insuficiência cardíaca”, esclarece.


Dulce Brito

Lisboa recebe alguns dos principais especialistas mundiais

A vinda de Juan Pablo Kaski, cardiologista pediátrico do Reino Unido, justifica-se porque “as miocardiopatias também se podem manifestar em idades muito jovens”. Dulce Brito diz que, “sendo muitas destas doenças genéticas, a idade em que se expressam é variável e dependerá de múltiplos fatores. Na verdade, alguns tipos de miocardiopatias  também se podem expressar tarde, pelos 40/50 anos, mas não é o habitual”.

Oliver Guttmann também se desloca desde Londres e Christoph Kampmann, um dos maiores especialistas mundiais em doença de Fabry, da Alemanha. Confirmaram igualmente a sua presença os cardiologistas espanhóis Lorenzo Monserrat, CEO de uma reputada empresa de testes genéticos, Pablo Garcia-Pavia, que dirige uma unidade hospitalar de doenças do miocárdio, e Juan Jimenez-Jaimez, particularmente interessado em miocardiopatia arritmogénica do ventrículo direito, que pode ser causa de morte súbita.

Dulce Brito destaca ainda a presença em Lisboa do “especialista máximo em amiloidose cardíaca”, o italiano Claudio Rapezzi.



“Obter algum impacto pedagógico”

O curso internacional “Cardiomyopathies in Clinical Practice”, que vai decorrer durante dois dias (28 e 29 de novembro), num dos auditórios do Edifício Egas Moniz da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa (UL), é organizado pela Associação para a Investigação e Desenvolvimento da Faculdade de Medicina (AIDFM), contando com a colaboração do Centro Cardiovascular da UL (CCUL) e o apoio científico da FMUL e da Sociedade Portuguesa de Cardiologia.

Para Fausto Pinto, que partilha com Dulce Brito a direção deste curso pós-graduado, “pretende-se, com a sua realização, obter algum impacto pedagógico, no sentido de uma atualização sobre aquilo que de mais recente existe nesta área”. Adicionalmente, “procura-se reforçar o nosso networking, a nossa rede de contactos com outros centros académicos e colegas que convidámos para estarem presentes”.


Fausto Pinto

O diretor do Serviço de Cardiologia e do Departamento de Coração e Vasos do Centro Hospitalar Universitário Lisboa Norte sublinha o facto de as miocardiopatias constituírem “uma área de grande responsabilidade, uma vez que temos uma consulta de referência”.

Fausto Pinto salienta que este curso surge na sequência de outras reuniões temáticas que têm vindo a ser promovidas, nomeadamente no âmbito da cardiologia de intervenção e da hipertensão pulmonar, “realizadas dentro daquilo que é o perímetro das chamadas Novas Fronteiras”.

Aliás, o X Congresso Novas Fronteiras em Medicina Cardiovascular, evento anual, tem data e local já em divulgação – decorrerá entre 7 e 9 de fevereiro de 2020, no Centro de Conferências de Troia.

“Doenças muito mais frequentes do que se pensava”


Dulce Brito fala em “mortes súbitas indevidas” por haver miocardiopatias que são, com alguma frequência, fatais em idades jovens e não se cansa de frisar que podem ser, por exemplo, causa de insuficiência cardíaca. Sublinha que, “por vezes, as pessoas não sabem que têm a doença e, portanto, ignoram também que as podem transmitir aos seus descendentes”.

“Uma situação deste tipo pode passar sem ser detetada e só se manifestar, por exemplo, em esforço”, observa a cardiologista, garantindo que “a maior parte dos jogadores de futebol que morrem em campo são potenciais candidatos a ter alguma doença deste tipo ou outra com potencial arritmogénico, mas que, no entanto, não teria expressão fenotípica evidente”.



Os avanços registados nas duas últimas décadas em matéria de técnicas de imagem e no campo da Genética fizeram com que as miocardiopatias, “não sendo agora, provavelmente, mais prevalentes do que já eram, se tenham tornado, contudo, mais conhecidas e mais diagnosticáveis”. Dulce Brito afirma mesmo que, “atualmente, parecem ser mais frequentes porque as caracterizamos melhor”.

Até pelo facto de estas doenças “passarem tantas vezes despercebidas” aos médicos de família, Dulce Brito diz que faz todo o sentido que os especialistas de Medicina Geral e Familiar “saibam que o curso se vai realizar e que, seguramente, será útil aos colegas interessados”. Mas refere que esta ação de formação é particularmente dirigida a médicos das áreas da Cardiologia e da Medicina Interna.

Para além da parte teórica, o curso “Cardiomyopathies in Clinical Practice” tem uma componente prática, com um número de inscrições limitado e em que vai ser possível, através de uma discussão interativa, debater um total de oito casos clínicos diferentes.

Para além de Fausto Pinto e de Dulce Brito, a Comissão Organizadora e Científica é constituída por Carmo Fonseca, Inês Zimbarra Cabrita, Luís Rocha-Lopes e Mónica Mendes-Pedro.

Todas as informações relacionadas com o curso podem ser consultadas através de http://cm2019.caml-cardiologia.pt/.


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