NEDF alerta para a «urgência de estabelecer um plano nacional para a hepatite C»

De acordo com o Núcleo de Estudos das Doenças do Fígado (NEDF) da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna (SPMI), "a hepatite C é uma doença crónica que evolui para cirrose hepática em mais de 20% dos casos e, destes, 1 a 2% por ano desenvolverão carcinoma hepatocelular". Em comunicado, o núcleo, coordenado por Maria de Jesus Banza, alerta para a "urgência de estabelecer um plano nacional para a hepatite C".

O documento começa por esclarecer que o NEDF "congrega os internistas que se dedicam especialmente ao estudo e tratamento dos doentes hepáticos e que, por isso, têm prestado cuidados a inúmeros doentes com hepatite C, quer mono-infectados, quer co-infectados pelo VIH".

Estes profissionais têm acompanhado com "entusiasmo e expectativa os avanços notáveis dos últimos quatro anos no que respeita à terapêutica da hepatite C e que permitem hoje obter a cura em mais de 90% dos doentes, com terapêutica oral, sem interferão e quase sem efeitos adversos". Trata-se de algo que "supera as melhores expectativas", assegura o NEDF.

É recordado que alguns profissionais do núcleo "têm participado ativamente em várias comissões junto das autoridades de saúde, procurando contribuir para a melhor racionalidade da terapêutica da hepatite C, infelizmente sem resultados práticos satisfatórios até agora."

O comunicado salienta também que o NEDF tem acompanhado, "com alguma tristeza, a campanha na comunicação social, ora dramatizando excessivamente as consequências (inegáveis) da doença, ora tentando comprometer a imagem de seriedade dos médicos, ora diabolizando a indústria farmacêutica, ora acusando o Ministério da Saúde."

De acordo com o núcleo, "não é assim que devem ser resolvidos os problemas da Saúde" e tal "não favorece a serenidade e o rigor necessários". Desta forma, o NEDF dá a conhecer a sua posição relativamente aos seguintes pontos:

1. A hepatite C é uma doença crónica que evolui para cirrose hepática em mais de 20% dos casos e, destes,  1 a 2% por ano desenvolverão carcinoma hepatocelular. No entanto, não pode prever-se com segurança a evolução de cada doente, pelo que todos devem ser considerados candidatos ao tratamento, embora a dificuldade de acesso à melhor terapêutica possa impor a priorização dos mais graves. Isto implica a obrigatoriedade e urgência de estabelecer um plano nacional para a hepatite C!

2. A incidência da hepatite C (novos casos) tem vindo  a diminuir, pelo que a maioria dos nossos doentes foi infectada há já muitos anos, muitos deles não responderam a tratamentos anteriores e mais de 40% têm já cirrose hepática, com risco considerável de descompensação, carcinoma hepatocelular e morte. Esta realidade impõe o tratamento a curto prazo, com os novos fármacos, sem interferão (além de pouco eficaz não será bem tolerado) em mais de metade dos doentes que seguimos!

3. Como internistas, habituados a tratar uma grande diversidade de doentes, realçamos a necessidade de garantir equidade de acesso ao tratamento da hepatite C, quer a nível nacional, quer entre diferentes patologias. Nesse sentido, deve haver um plano nacional e não decisões dependentes de cada hospital; não fará sentido que no mesmo doente seja autorizado o tratamento duma doença (por exemplo infecção pelo VIH) e não da outra (hepatite C); também não é razoável  que se aceite tratar algumas doenças crónicas (por exemplo, artrite reumatóide, doença inflamatória intestinal) com fármacos paliativos, durante períodos prolongados e se negue um tratamento curativo a outras (hepatite C); e os exemplos poderiam continuar...

4. Julgamos que, face ao número de doentes a tratar, aos preços que poderão conseguir-se e à seleção do tratamento mais custo-efetivo para cada caso, poderíamos assegurar a cura de mais de 90% dos doentes com hepatite C, em cinco anos, com menos do que se gasta num ano com o tratamento da infecção VIH (mais de 220 milhões de euros). Apelamos ao Senhor Ministro da Saúde e aos laboratórios da Indústria Farmacêutica que sejam razoáveis e coloquem acima de tudo o interesse dos doentes (é a missão de todos nós!), concluindo rapidamente as negociações necessárias para que possamos dispor dum plano para tratar os nossos doentes com hepatite C.

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