«O fim do tratamento do cancro nem sempre é o fim da doença», alerta a oncologista Gabriela Sousa

A redução da taxa de mortalidade do cancro, em grande medida fruto dos rastreios e da melhoria dos métodos de diagnóstico e de tratamento, está a engrossar a fatia de população sobrevivente. “É preciso cuidar destas pessoas”, defendeu Gabriela Sousa, presidente da Sociedade Portuguesa de Oncologia (SPO), numa palestra sobre o tema “Sobreviventes: a dimensão do problema”, dirigida aos médicos de família.

“A pessoa que teve um cancro nunca mais fica como antes, por muito que haja apoio. Temos que garantir que essa vida vai ser aproveitada da melhor forma possível. Temos que ter a preocupação de o integrar na família, no trabalho, nos seus amigos”, afirmou Gabriela Sousa, perante a assistência presente no auditório do Instituto Politécnico de Viseu, onde decorreu o 19.º Congresso Nacional de Medicina Geral e Familiar.



Dirigindo-se aos médicos de família, a quem pediu apoio e colaboração para um cuidado mais integrado ao sobrevivente, a oncologista do IPO de Coimbra sublinhou que “o fim do tratamento do cancro nem sempre é o fim da doença”, devido às sequelas do corpo e da alma. É por este motivo que “em muito poucas circunstâncias é dada alta a estes doentes”.

Gabriela Sousa esteve em Viseu na qualidade de moderadora de um painel sobre o doente oncológico, que contou com mais duas oradoras. Paula Jacinto, oncologista do IPO de Coimbra, abordou o tema “Rastreios: como otimizá-los”, e Ana Joaquim, oncologista do Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia, focou a sua intervenção nos problemas dos doentes em tratamento. À presidente da SPO coube falar sobre o que está para lá dos rastreios e do tratamento: os sobreviventes.



Segundo Gabriela Sousa, mais de metade dos homens e mulheres a quem foi diagnosticado cancro continuam vivos cinco anos após a deteção da doença. Esta realidade veio colocar um novo desafio à comunidade médica. Atenta ao problema, a Sociedade Portuguesa de Oncologia pretende alargar a rede de apoios, tanto mais que continua a haver um aumento da incidência de neoplasias.

Cerca de 65% dos adultos diagnosticados com cancro nos países desenvolvidos vão manter-se vivos nos primeiros cinco anos. A redução da taxa de mortalidade está relacionada com os programas de rastreio, a melhoria dos métodos de diagnóstico – os tumores são detetados numa fase mais precoce – e com os significativos avanços no tratamento, quer curativos, quer paliativos.

Por outro lado, o aumento da taxa de sobrevivência é também atribuída à implementação de medidas dietéticas e à diminuição do consumo de tabaco. Gabriela Sousa explica, no entanto, que a sobrevivência depende do tipo de neoplasia. No caso do cancro da mama, a sobrevivência aos cinco anos é superior a 90%. No cancro da próstata, a sobrevivência a cinco anos atinge mesmo os 100%.

Numa análise mais fina à dimensão do problema, a oncologista destaca o facto de quase metade dos sobreviventes estar em idade laboral. “Estes doentes têm aqui um problema grande de absentismo laboral”, a que se somam projetos de vida interrompidos, salienta. De acordo com os dados, apenas 4 a 5% dos sobreviventes têm entre 20 e 40 anos. Cerca de 37% estão entre os 40 e os 74 anos.



Gabriela Sousa mostrou ainda outra face do problema: muitos dos sobreviventes estão em idade reprodutiva. “Cerca de 40% das mulheres com cancro da mama querem ter mais filhos, mas só menos de 4% conseguem. Ou porque os tratamentos são longos, ou porque não conseguem, ou perderam a vida, ou o marido. Todas estas alterações, todos os tratamentos deixam muitas sequelas”, explica.

Revelou, porém, que, este ano, as sociedades portuguesas de Oncologia e de Medicina da Reprodução começaram a trabalhar em conjunto na criação de guidelines para que possa ser oferecido ao doente oncológico a possibilidade de preservar a sua fertilidade.

A presidente da SPO aproveitou a palestra sobre os sobreviventes de cancro para lançar um desafio aos médicos de família: o de criarem em conjunto um plano de cuidados para estes doentes. Assentaria num modelo semelhante ao do boletim da grávida ou da criança, mas com informação relativa aos diagnósticos, tratamentos realizados, sequelas previstas pelos tratamentos, contactos e recomendações específicas.

Gabriela Sousa terminou a palestra com uma referência ao livro “Como é Linda a Puta da Vida”, que Miguel Esteves Cardoso escreveu na altura em que a sua mulher travava uma luta contra o cancro. Tal como referiu o autor, “o cancro é como um romance que, depois de escrito e revisto, ainda não está bem”. A personagem principal, neste caso, o sobrevivente, “tem que se redefinir e de se curar em resultado das curas”.












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