Cuidados Intensivos: «Temos que saber gerir as emoções, para o bem do doente»

Sendo internista no Serviço de Medicina Intensiva do Centro Hospitalar Cova da Beira (CHCB), Vítor Branco admite que o conhecimento holístico inerente à Medicina Interna faz toda a diferença no contacto com os doentes. 

"A inquietação permanente de saber o que se passa de forma integrada"

Em entrevista à Just News, e para explicar melhor esta sua ideia, o secretário-adjunto da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna (SPMI) recorda o anestesiologista Dinis Cunha Leal, "um dos fundadores da Medicina Intensiva em Portugal, dizer que é muito importante ter internistas nos Cuidados Intensivos".

E acrescenta: "Na sua opinião, indicar que a pessoa tem uma insuficiência respiratória e entubá-la é um ato médico que pode ser feito por um anestesiologista ou por um intensivista, mas quem tem a inquietação permanente de saber o que se passa realmente, e de forma integrada, é o internista."

"Uma mais-valia para a Medicina intensiva"

Para Vítor Branco, trata-se de uma "busca constante" que exige estudo e atualização de conhecimentos: "E não me refiro somente à última grande inovação, mas a um trabalho constante de revisão, não deixando de incorporar as novidades. Esta atitude de procura e de estudo é uma parte significativa do percurso do internista."



Vítor Branco

Desta forma, considera que "a Medicina Interna, por ser uma especialidade heterogénea, sem monotonia, permite ter uma visão holística do doente, sem nos centrarmos apenas num órgão". E dá o exemplo do que sentiu no início da sua carreira, durante o Internato no Hospital de Santa Maria:

"Fiquei fascinado com o desafio que os internos enfrentam no dia-a-dia em termos diagnósticos, o que não era habitual noutras especialidades. No fundo, vi que a Medicina Interna nos obriga a olhar para o doente no seu todo, não nos focando apenas na doença em si."

Uma realidade que o leva a concluir: "A Medicina Interna acaba por ser uma mais-valia para a Medicina intensiva".

"A preparação de internista é uma mais-valia"


Mas será que todos os intensivistas deveriam ser internistas? "Não acho que deva ser esse o caminho" responde de imediato, até porque "a Medicina Intensiva é, neste momento, uma especialidade autónoma".

O médico salienta que estão a ser formados intensivistas "e, em breve, passaremos a ter especialistas de raiz nesta área. Esta questão tem gerado alguns conflitos, mas não se deve ir por aí…".

Qual então a mensagem central a passar? Vitor Branco reforça a ideia de que o especialista em Medicina Interna pode dar um contributo crucial: "Obviamente que o facto de se ter a preparação de internista é uma mais-valia, porque permite ter a tal visão holística do doente e os futuros especialistas em Intensivismo não vão ter este back-ground, o que acaba por originar mudanças no dia-a-dia dos Cuidados Intensivos."

Na sua opinião, e perspetivando o futuro, "provavelmente, vai ter de se alterar o modelo organizacional destas unidades, que poderá passar pelo apoio externo da Medicina Interna."


"Gerimos as emoções, focando-nos no diagnóstico e nas opções terapêuticas"

O Intensivismo é uma área que exige decisões críticas, imediatas. E como se gerem as emoções neste cenário? "Antes de mais, deve-se fazer uma distinção… O Intensivismo, ou o doente crítico, tem alguns momentos de decisão cruciais, mas essa não é a essência dos Cuidados Intensivos", começa por referir Vítor Branco.

Segundo o médico, "estes cuidados propriamente ditos podem-se espraiar no tempo, apesar de, obviamente, se ter de dar especial atenção a determinados detalhes". E desenvolve a ideia:

"Costumo dizer que o intensivista é um fisiologista, ou seja, quem age nos processos fisiológicos alterados através da monitorização. O stresse de ter de tomar decisões imediatas acontece mais nos casos da urgência-emergência, em que uma ou mais funções vitais estão (potencialmente) ameaçadas; quando a situação se prolonga no tempo, o doente passa a ser crítico."

Especificamente quanto às emoções, "a melhor maneira de reagir é através da racionalização" e dá um exemplo. "Estar perante uma pessoa com muita falta de ar é angustiante. Se apenas contemplo o que está a acontecer acabo por entrar em choque, mas se começar a interpretar o problema, dando-lhe um nome científico, consigo agir como médico."

Desta forma, afirma: "Não somos insensíveis ao sofrimento, mas temos que saber gerir as emoções, para o bem do doente, focando-nos no diagnóstico e nas opções terapêuticas."

Assim, "quando corre bem, temos a recompensa de que ajudámos aquele doente. Quando corre mal, também temos de racionalizar e lembrar-nos que utilizámos as ferramentas adequadas, mas que não controlamos tudo, porque não somos deuses."

E acrescenta: "Diariamente, temos pessoas que percebemos que não vão resistir e que acompanhamos durante dias ou semanas e com quem até estabelecemos uma relação, mesmo quando não comunicam. Até com a própria família… Não é fácil para nós, mas esta empatia é essencial e nunca pode deixar de existir. Contudo, temos que reagir."



Vítor Branco tem 49 anos e está desde 2005 na Unidade da Covilhã do Centro Hospitalar Cova da Beira, mais precisamente no Serviço de Medicina Intensiva.

"Gosto de estar com o doente emergente e crítico"  

Além das decisões críticas que tem de tomar no âmbito dos cuidados intensivos, Vítor Branco também é médico na VMER. Entre 2012 e 2016 dirigiu o Serviço de Urgência do Hospital da Covilhã "e foi a partir daí que aceitei essa tarefa, porque na altura a Tutela decidiu integrar os meios de emergência hospitalar, nomeadamente a VMER, na Direção da Urgência".

Atualmente, já não dirige a Urgência. Contudo, a sua paixão por esta área mantém-se: "Mantenho-me na VMER porque gosto de estar com o doente emergente e crítico. Quase todas as semanas faço um ou dois turnos."

O facto de ter um conhecimento concreto do que se passa antes de o doente chegar ao hospital faz com que Vítor Branco esteja mais sensibilizado para certas realidades:

"Ajuda a ter mais presentes alguns aspetos de que, dentro do hospital, nos podemos esquecer, como as condições em que as pessoas vivem e adoecem. A noção dessas situações surge, sobretudo, na alta hospitalar… Como vai ficar aquela pessoa, dependente, perante situações habitacionais e sociais complexas? Muitos dos doentes a quem damos apoio estão institucionalizados e ao andarmos na rua percebemos melhor o impacto de se dar alta a quem não tem as condições necessárias para a receber."

E partilha um episódio que revela a complexidade de certas situações: "Ainda no outro dia ouvia um colega de um hospital dizer que tem um doente internado há 14 anos e que ainda não teve alta por não se conseguirem encontrar as condições necessárias para que possa viver fora do hospital sem o seu estado de saúde piorar. Este é um aspeto mais social do que médico, mas que é essencial e que tem repercussões no estado global de saúde. Os espanhóis têm o chamado Hospitel, mas nós não…"

SPMI: "A Presença é a marca distintiva, quer junto dos internistas como da população"

Relativamente à Sociedade Portuguesa de Medicina Interna (SPMI), Vítor Branco, que assume a função de secretário-adjunto, encara "de forma muito animadora" o presente e o futuro desta sociedade científica! 

O médico está ligado aos órgãos sociais da SPMI "desde o tempo do Prof. Manuel Teixeira Veríssimo, embora tenha tido contacto com a Sociedade desde a altura em que fiz o internato no Serviço do Dr. Armando Porto, que foi responsável pela sua reanimação", fazendo questão de recordar:

"É justo dizer, aliás, que o Prof. Armando Porto, o Prof. Rui Santos e o Prof. Armando Carvalho foram absolutamente determinantes na minha vida e contribuíram para a escolha que fiz da Medicina Interna."


Vítor Branco assume ainda a coordenação hospitalar de Doação de Órgãos de Transplante

É já o terceiro presidente da SPMI que Vítor Branco acompanha e salienta "uma evolução na continuidade, num caminho de progressão. Naturalmente, com estilos diferentes, mas em cada ano que passa podemos acrescentar dinâmica e peso à SPMI."

Nesse sentido, não hesita em considerar: "A palavra Presença é a marca distintiva do presente e do futuro, quer junto dos internistas como da população, sendo o principal exemplo. Destaco a Festa da Saúde, no verão, ou até o evento que assinala o aniversário da Sociedade, em dezembro. O FORMI tem sido também fundamental.

E acrescenta: "É muito gratificante olhar para a agenda, para os cursos que se mantêm ao longo do tempo… Estou muito otimista quanto ao presente e ao futuro da SPMI!"

"O internista está em todo o lado e fica com os casos que não dão brilharete..."

Vítor Branco é docente na Universidade da Beira Interior (UBI) e assume gostar de ensinar, "mas não propriamente por causa de grandes apresentações desta ou daquela matéria. O que mais me entusiasma é a partilha de saberes, de conhecimento. Colaboro em vários blocos. Neste momento, dedico-me, sobretudo, ao da emergência-urgência-doente crítico."

Contudo, adverte que os sinais não são muito animadores para Portugal, mas não pela qualidade dos futuros profissionais, pelo contrário: 


"Neste momento, os alunos querem emigrar. Alguns, logo no 2.º ou no 3.º ano já dizem que não querem exercer Medicina em Portugal. É verdade que não há vagas para todos, mas já nem se presume que talvez se consiga… No caso da Medicina Intensiva, só recentemente se autonomizou como especialidade e é normal que ainda não se pense, desde logo, nesta área."

De acordo com Vítor Branco, "a Medicina Interna já tem muitos anos e o problema não está na localização geográfica, mas na exigência que lhe está associada, tanto nos grandes como nos pequenos centros urbanos. É desafiante, mas a necessidade de atualização e a subalternização do internista acaba por levar ao desinteresse pela Medicina Interna".

O médico faz mesmo questão de sublinhar: "Essa subalternização é uma ameaça, porque acaba por tomar conta do refugo de outras especialidades." E refere ainda outras questões, que se prendem com o horário de trabalho e a sobrecarga do mesmo, "ficando em causa a vida pessoal".

Ou seja, "o internista está em todo o lado e fica com os casos que não dão brilharete…" e deixa o alerta: "Se não conseguirmos motivar as pessoas para a importância da ética e da estética – o gosto por ajudar –, vamos ter consequências… Esta é uma problemática geracional e sociocultural".

E reforça a ideia: "A nossa profissão é extremamente desgastante do ponto de vista físico, psíquico e moral e as novas gerações têm expectativas diferentes das anteriores face à vida pessoal e laboral."




A entrevista completa pode ser lida na LIVE Medicina Interna, revista dirigida e acessível a todos os médicos internos e especialistas de Medicina Interna.

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