CHUSJ com três novos centros de responsabilidade integrados «em fase de aprovação»

O médico e ex-secretário de Estado Fernando Araújo, 53 anos, é o atual presidente do Conselho de Administração do Centro Hospitalar e Universitário de São João e foi nessa qualidade que, nos primeiros dias de março, deu uma entrevista de fundo ao Hospital Público, onde sublinha os "resultados clínicos muito bons" dos hospitais públicos:

 "Apesar de tudo, mesmo com meios limitados, quando se olha para os indicadores e para os rankings europeus e mundiais, nós temos conseguido resultados clínicos excelentes. E com um nível de investimento muito reduzido face àquilo que se verifica noutros países."

Na sua opinião, o "grande problema" neste momento dos hospitais públicos "prende-se com a falta de autonomia ao nível da gestão, aliada à necessidade de investimento, quer em termos de despesa corrente, como em infraestruturas e equipamentos".

E acrescenta: "Eu diria que os hospitais portugueses têm tido resultados que nos podem deixar orgulhosos em termos de SNS, mas considero que há ainda um potencial de poderem evoluir, caso haja mais autonomia e outra capacidade económica."


Fernando Araújo: "Todos os profissionais do CHUSJ podem ser agentes importantes na revolução interna que está a ser feita”


"O ano em que mais se produziu, desde sempre"

No caso específico do CHUSJ, 2019 bem pode ser considerado um ano histórico "de combate às listas de espera e foi também aquele em que mais se produziu, desde sempre", conforme recorda Fernando Araújo:

"O ano passado aumentámos o número de primeiras consultas em 7-8% e o das cirurgias em 16%, apesar de termos tido mais de 1 mês de greves logo no início do ano. Deve ter sido dos hospitais que mais aumentou a produção e que mais reduziu as listas de espera."

Tendo bem presente que "a dimensão da espera é muito importante para os utentes", o médico e gestor faz questão de garantir: "Vamos continuar a trabalhar no sentido de a diminuir, para além da procura da sustentabilidade. Uma terceira grande área que temos dado uma particular atenção é a da requalificação das estruturas e dos equipamentos."



"Resultado do empenho dos vários grupos profissionais"

Relativamente ainda a 2019, o que aconteceu para que os tempos de espera tenham melhorado tanto? "Foi um ano impressionante", sublinha Fernando Araújo, adiantando mais alguns dados e esclarecendo alguns dos motivos deste sucesso:

"Em matéria de consultas externas, reduzimos em 35% os tempos de espera, passando de uma média de 140 para 91 dias. Houve uma aposta clara em termos de estratégia, mas, acima de tudo, foi o resultado do trabalho e do empenho dos vários grupos profissionais. Todos eles responderam a este apelo e conseguiu-se, em produção normal, aumentar a efetividade dos blocos e dos consultórios."

Dando o exemplo concreto da criação do Centro de Responsabilidade Integrado da Obesidade (CRI), indica que se "recorreu também a alguma produção adicional. O que sucedeu com o tratamento da obesidade é um bom exemplo: duplicaram as consultas e as cirurgias."

Centros de Responsabilidade Integrados: "Nós temos é que dar condições, remover obstáculos"

Ao longo da entrevista, Fernando Araújo repete várias vezes a mesma ideia: "Tem sempre a ver com as pessoas". Como aconteceu com o CRI da Obesidade, que "garantiu pagamentos adicionais com objetivos muito precisos em termos de atividade, de indicadores de qualidade, de eficiência. De alguma forma, estimula a definição de metas concretas e permite-nos poder pagar de forma diferenciada, de acordo com os resultados. Isso também ajudou."

Contudo, renova a importância dos recursos humanos: "Naturalmente que se os profissionais não estivessem vocacionados, motivados e interessados no projeto não ia resultar. A liderança também tem sido muito capaz."



Fernando Araújo indica que, neste momento, existe apenas o CRI da Obesidade, mas revela: "Estamos agora em fase de aprovação de mais três. Um tem a ver com a Consulta do Sono, na Pneumologia, outro com o Serviço de Urgência, e vamos também tentar fechar o CRI de Diálise, que vai utilizar a unidade em construção em Valongo."

E qual a maior dificuldade na criação de um CRI? "O ponto fundamental é a liderança. Como em tudo na vida, ela faz a diferença", responde de imediato.

Na sua opinião, "é preciso encontrar a pessoa certa para liderar o projeto e depois identificar um conjunto de profissionais motivados, porque nada acontece apenas por uma decisão do nosso lado", acrescentando: 

"Nós temos é que dar condições, remover obstáculos e deixá-los trabalhar. Começámos por áreas em que havia muita procura e pouca oferta, em que o CRI trouxesse a diferença. No caso da diálise vamos tentar, de alguma forma, concorrer com os privados diretamente, temos que ter um modelo de gestão diferente."



O utente 
no centro do sistema: "um desafio que temos que enfrentar diariamente"

"Há muitos anos que todos dizemos que o utente deve estar no centro do sistema e que isso é faz sentido, mas depois o problema é aplicar esse princípio na prática", afirma o médico e gestor, reconhecendo que "a verdade é que o sistema não é muito amigável para os utentes quando, de facto, devia estar adaptado a eles".

Salienta que "a ideia não é, por vezes, fácil de concretizar em hospitais grandes e complexos, mas é um desafio que temos que enfrentar diariamente".

Neste contexto, um dos projetos que se destaca no seio do CHUSJ é o Farma2Care, implementado com o propósito de facilitar a vida ao utente:

"Muitos doentes crónicos têm que vir ao hospital de forma periódica apenas para levantar medicamentos que não é possível serem adquiridos em farmácias da comunidade. Vêm de Vila Real, de Viana do Castelo, de Braga, de Bragança... Temos, hoje em dia, um excelente ambulatório, sem os tempos de espera extremamente elevados de outrora, principalmente devido à mudança de local da nossa farmácia e da própria filosofia de funcionamento, com marcações."

O administrador do CHUSJ recorda que o projeto "foi criado com esse objetivo de colocar os medicamentos próximo da casa de cada doente. Começámos, nesta primeira fase, com os anti-retrovíricos para doentes com VIH. Pretendemos agora alargar o projeto aos doentes com esclerose múltipla e aos doentes oncológicos que façam medicação oral".



O CHUSJ tem também um protocolo muito particular com a Faculdade de Motricidade Humana, que consiste em pôr doentes da área da Saúde Mental a fazer exercício físico. Questionado sobre as características desta iniciativa (ainda) muito pouco habitual em termos nacionais, Fernando Araújo destaca exatamente essa vertente arrojada dos profissionais:

"A Saúde Mental tem tido alguns projetos muito interessantes, um pouco ´fora da caixa`. É importante que se consiga inserir o doente na comunidade, retirar o estigma, reabilitar e reintegrar. Eles têm conseguido isso e esta questão da atividade física é apenas uma das vertentes."

Faz também alusão a um protocolo assinado recentemente com a Universidade do Porto "no sentido de apoiar os estudantes, muitos deles desinseridos da família".


Conselho de Administração: "Escolhi as pessoas com quem eu gostaria de trabalhar"


No decorrer da entrevista, a Just News convidou o presidente do Conselho de Administração do CHUSJ a descrever os elementos que integram a sua equipa. "Foi uma escolha pessoal", conforme recorda desde logo: "A senhora ministra fez o convite e deu-me liberdade total para formar o Conselho. Escolhi as pessoas com quem eu gostaria de trabalhar."

Esclarece igualmente, de forma prévia, que se "trata de uma equipa que, desde logo, conhece muito bem o hospital. São profissionais que se complementam, oriundos de áreas muito diferentes de atuação, com uma grande experiência e enorme dedicação a esta causa."

Maria João Batista 
A diretora clínica é desta casa. É a Prof.ª Maria João Batista, que continua a assegurar a Consulta de Cardiologia Pediátrica com os seus doentes, a fazer hemodinâmica. É uma pessoa muito dedicada, tanto aos profissionais como aos utentes, a quem é reconhecida uma enorme capacidade de diálogo, de abertura, com enorme bom senso e equilíbrio, muito ponderada, e que acaba sempre por encontrar soluções clínicas para os problemas – e são muitos – que vão surgindo. 


É a primeira vez que integra um CA, mas já tinha tido a experiência de gerir o Departamento da Saúde da Mulher e da Criança, que inclui a Ginecologia, a Obstetrícia e a Pediatria. Ela tinha demonstrado já uma capacidade e um saber nessa gestão que levou, naturalmente, a que fosse escolhida para este projeto.


O atual CA iniciou funções, oficialmente, a 5 de abril de 2019: Sofia Leal, Filomena Cardoso, Fernando Araújo, Maria João Baptista e Luís Porto Gomes

Filomena Cardoso
A Enf.ª Filomena Cardoso é a nossa enfermeira diretora e já o era no anterior CA. Temos mais de dois mil profissionais de enfermagem e ela conhece boa parte deles pelo nome... É uma coisa incrível! Consegue rentabilizar ao máximo o trabalho dos enfermeiros e motivá-los. Tem sido um elemento fundamental no Conselho. A enfermagem é um dos grupos profissionais mais relevantes e a forma como se faz a sua gestão é fundamental para os resultados que temos tido.

Luís Porto Gomes
Temos depois o Dr. Luís Porto Gomes, gestor da área económica, que também já pertencia ao anterior Conselho. Ele já foi do antigo IGIF, depois passou para a ACSS, já esteve na ARS, conhece os vários níveis da gestão, nacional, regional e local. É alguém muito robusto do ponto de vista financeiro, com muita facilidade nessa área e em quem nós confiamos totalmente para tomar conta das finanças desta casa.

Sofia Leal
Quanto à Dr.ª Sofia Leal, eu já a conhecia da UAG dos Meios Complementares de Diagnóstico e Terapêutica, onde fez um excelente trabalho. Depois teve uma experiência única a dirigir o ACES de Barcelos, que deve er dos mais exigentes aqui no norte, e fez um trabalho espetacular, com múltiplos projetos, vários prémios e conseguindo aproximar muito os cuidados primários dos cuidados hospitalares. É uma trabalhadora incansável, que nos ajuda realmente.

Este hospital é muito complexo, cada vez que se resolve um problema surgem logo mais dois ou três. É muito importante poder contar com o contributo de alguém que tem essa dedicação à causa e em cujo trabalho deposito enorme confiança. Tem tido um papel fundamental nesta coesão do próprio grupo.

A experiência de gerir instituições locais, regionais e nacionais


Licenciado e doutorado pela FMUP, tem uma pós-graduação em Gestão pela Universidade Católica Portuguesa. Especialista em Imuno-Hemoterapia, Fernando Araújo possui a Competência em Gestão de Serviços de Saúde pela OM. É professor auxiliar convidado da FMUP.


"Sou muito pragmático. Não vale a pena, por exemplo, termos apenas objetivos a 20 anos se depois não conseguimos resolver os problemas do dia-a-dia."

Já exerceu diversos cargos no CHUSJ: diretor do Serviço de Imuno-Hemoterapia, diretor do Centro de Medicina Laboratorial, coordenador do Centro de Biologia Molecular, adjunto da Direção Clínica, gestor dos Projetos Saúde XXI e presidente da Comissão de Avaliação Clínica dos Sistemas de Informação.

Foi sucessivamente vogal, vice-presidente e presidente da ARS Norte. Integrou o XXI Governo Constitucional como secretário de Estado adjunto e da Saúde. Entre outras múltiplas responsabilidades, presidiu ao Colégio da Especialidade de Imuno-Hemoterapia da Ordem dos Médicos.



A entrevista completa pode ser lida na edição de maio/junho 2020 do Hospital Público - jornal para profissionais de saúde, distribuído nos serviços e departamentos de todas as unidades hospitalares do SNS. 
Partilhar projetos e boas práticas, aproximar os profissionais, valorizar as equipas e o SNS.

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