«Os internistas são um autêntico alicerce das unidades de internamento»

Para João Araújo Correia, presidente da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna, “a plasticidade é a característica principal do internista e aquilo que lhe dá mais capacidade para se poder adaptar e responder às necessidades da sua instituição”. E acaba por “fazê-lo com competência porque tem uma formação básica muito sólida”.

“Com o surgir desta pandemia, os hospitais tiveram de se reorganizar completamente, protagonizando uma revolução absoluta no seu modo de funcionamento. Foi fundamental esta capacidade que realmente nós temos de ver o doente complexo e idoso, que apresenta múltiplas comorbilidades e que, no fundo, tem representado a grande maioria dos casos graves de covid”, refere o médico, em entrevista à Just News.

Sublinhando que “todas as unidades de internamento de covid foram enquadradas por internistas, independentemente de termos a colaboração de muita gente -- e sabemos bem até que ponto todos não são demais --, João Araújo Correia afirma que os internistas são um “autêntico alicerce das unidades de internamento”.


João Araújo Correia

Diretor do Serviço de Medicina do Hospital de Santo António, que integra o Centro Hospitalar Universitário do Porto, João Araújo Correia recorda que na altura mais crítica, em abril, a instituição teve 150 camas dedicadas aos doentes covid em termos de internamento de enfermaria, para além de outras 50 em cuidados intensivos.

A primeira unidade a ser ativada pertencia ao Serviço de Doenças Infeciosas, mas nela participaram também internistas. Seguiram-se duas unidades do próprio Serviço de Medicina (B e D), que ficaram exclusivamente dedicadas à covid – os doentes que lá estavam foram transferidos para unidades cirúrgicas, que entretanto suspenderam a sua atividade.

Também a Neurocirurgia disponibilizou espaço para a criação de mais uma unidade mista, enquadrada por internistas, mas com a participação de pneumologistas, infeciologistas e especialistas de outras áreas.

“Foi assim em todo o país!”, frisa João Araújo Correia, que cita um inquérito promovido pela SPMI para informar: “65% das unidades covid eram mistas, com internistas e a colaboração de colegas de outras especialidades, e as restantes 35% eram unicamente formadas por internistas, porque tiveram origem diretamente nos serviços de Medicina.”

Um aspeto que faz questão em realçar é a circunstância de o mesmo inquérito – a que responderam 74% dos diretores dos serviços de Medicina de todo o país -- ter permitido concluir que a Medicina Interna acabou por atender 90% dos doentes que já via antes da covid.

“Enquanto as cirurgias suspenderam a atividade, e puderam fazê-lo, nós não podemos suspender os nossos idosos, com todas as suas patologias. Tivemos que os internar na mesma”, sublinha.



“Fomos buscar internistas onde os havia”

Se dúvidas tivesse, João Araújo Correia pôde confirmar que, “numa situação de crise, as pessoas superam-se”, tendo sido precisamente isso que testemunharia no seu Serviço. Nele e fora dele. Note-se que o Hospital de Santo António tem cerca de 65 internistas, mas apenas 30 integram o Serviço de Medicina e pelo menos 4 destes desenvolvem atividade, em exclusividade ou em tempo parcial, em várias comissões do hospital.

“Foi proposto ao Conselho de Administração recrutar internistas que estavam noutras áreas e essa medida foi bem aceite, inclusive, pelos próprios. Todos os elementos da Unidade de Imunologia Clínica vieram e também se juntaram a nós colegas da Unidade de Transplante Hepático. Nós fomos buscar internistas onde os havia”, esclarece o diretor do Serviço de Medicina Interna do CHUP.


A 29 de abril estavam em dedicação exclusiva à covid-19,
em todo o país, 570 especialistas e internos de MI,
“um número avassalador, da enfermaria aos cuidados intensivos”,
diz o presidente da SPMI.

"o sítio mais perigoso de todos”

A estratégia seguida no Santo António foi dividir estes profissionais em três grupos completamente diferenciados, um dos quais era constituído pelos recém-especialistas e pelos internos de especialidade mais velhos, que ficaram dedicados apenas ao Serviço de Urgência, “o sítio mais perigoso de todos”.

Faziam 60 horas numa semana e na seguinte apenas 20 horas de consulta telefónica. Uma dúzia de especialistas e dezena e meia de internos asseguravam, assim, a assistência médica mais arriscada.



Um segundo grupo, com pouco mais de duas dezenas de profissionais, entre especialistas e internos, ficou com a tarefa de prestar assistência aos doentes internados nas unidades covid.

“Não faziam mais nada, pois, não podiam misturar-se com os do terceiro grupo, formado pelos colegas mais velhos e os internos mais novos, os do 1.º ano. E até internos de outras especialidades que vieram ajudar, como a Cirurgia Vascular ou a Pedopsiquiatria”, reporta João Araújo Correia, sublinhando a lotação de 140 camas do Serviço de Medicina Interna e o facto de nunca ter havido menos de 100 camas de doentes não covid.

“Eu fiquei absolutamente atónito e surpreendido com a atitude dos colegas da Pedopsiquiatria, que se vieram oferecer. Desenvolveram um trabalho de uma utilidade extrema, desde logo porque, de repente, tivemos que tratar o dobro dos doentes, os 100 não covid mais os covid. Durante cerca de dois meses e meio, entre meados de março e final de maio, toda a gente trabalhou de uma maneira fantástica”, regista o médico.

João Araújo Correia esclarece que foram os enfermeiros da Medicina que asseguraram os serviços que receberam os doentes covid, enquanto os enfermeiros das áreas cirúrgicas garantiram a assistência aos não covid, que, aliás, para ali foram transferidos. E garante que as coisas funcionaram muito bem:

“Nós temos uma excelente enfermagem. Se a formação dos nossos enfermeiros não fosse tão sólida como é, as coisas não teriam sido assim fáceis.”


Segundo João Araújo Correia, 14% dos especialistas dos hospitais do SNS
são internistas e estes são a maioria nos quadros permanentes das unidades privadas.

 

Três constatações - É o presidente da SPMI quem as enumera:

“As camas hospitalares são um bem precioso: não podemos ter 25% das 5000 de que a MI dispõe no país ocupadas em permanência por doentes com alta clínica, a aguardarem colocação na RNCC ou em lar da Segurança Social.”

“Não é defensável e é altamente disruptivo continuar a ter 90% dos doentes que se dirigem ao Serviço de Urgência a fazerem-no espontaneamente, sem qualquer observação médica prévia.”

“Testemunhámos uma Saúde Pública a funcionar e uma MGF ativa, tendo ficado claramente definido que a doença ligeira de covid é para tratar fora do hospital. Espero que esta prática se mantenh no futuro, também com os doentes não covid.



CNMI 2020: um congresso presencial (em Braga) e online

O mandato de João Araújo Correia como presidente da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna é o primeiro com a duração de 3 anos, terminando em maio de 2021. Ficará indiscutivelmente marcado pela pandemia de covid-19. Resultou comprometido o ambicioso programa de formação desenhado para este ano de 2020, que incluía meia centena de ações, uma parte delas presenciais, e o maior evento anual passou de maio para o final de agosto.


O 26.º Congresso Nacional de Medicina Interna, que decorrerá entre os dias 27 e 30 de agosto, terá um formato inovador e realizar-se-á num espaço particularmente amplo, o Altice Fórum Braga.

“A segurança está garantida. Entretanto, decidimos colocar todas as sessões online, tendo acesso às mesmas, por essa via, todos os participantes que fizerem a sua inscrição presencial. Também é possível fazer apenas a inscrição online. Teremos assim, pela primeira vez, aquilo que podemos designar de congresso híbrido”, afirma João Araújo Correia, que sublinha a mais-valia de um evento com estas características.

O CNMI 2020, organizado pelo Serviço de Medicina Interna do Hospital de Braga, será presidido pelo internista Narciso Oliveira. “O programa é muito desafiante e interessante. Vamos, inclusive, ter duas sessões dedicadas especificamente à covid-19”, refere o presidente da SPMI.

Como é habitual nos congressos anuais de Medicina Interna, a Just News irá acompanhar diariamente este evento, partilhando as principais novidades, quer junto dos internistas que vão marcar presença em Braga como junto dos outros internos e especialistas que seguirão o congresso online.



A entrevista pode ser lida na edição de julho/agosto do Hospital Público - jornal para profissionais de saúde, distribuído nos serviços e departamentos de todas as unidades hospitalares do SNS. Porque as boas práticas merecem uma ampla partillha!

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