Perturbações psiquiátricas interferem na adesão à terapêutica do VIH/SIDA

Uma atitude mais impulsiva, um espírito depressivo, uma situação de dependência ou um mero estado de desmoralização fazem subir o risco de adoção de comportamentos de menor segurança, potenciando a possibilidade de se contrair o VIH. Por outro lado, quando um ou alguns destes fatores estão associados à própria infeção aumenta, desde logo, a possibilidade de ocorrer doença mental.

No fundo, foi em torno desta lógica que se desenvolveu a intervenção de Sílvia Ouakinin, médica do Centro Hospitalar Universitário Lisboa Norte, que integrou o programa do encontro que o Núcleo de Estudos da Doença VIH (NEDVIH) da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna promoveu, num dos últimos fins de semana, em Lagos.



A sessão de abertura do evento contou, aliás, com a presença do presidente da Administração Regional de Saúde do Algarve, que não deixaria de lembrar que “o VIH continua a ser um problema muito importante para o país e também para o Algarve”.

Paulo Morgado, que é especialista de Medicina Geral e Familiar, referiu-se a “alguns dos desafios que esta doença coloca” a uma região que se destaca no panorama nacional por ser uma das que apresenta uma maior prevalência do vírus da imunodeficiência humana.


Sara Coelho, Domitília Faria, Paulo Morgado, Luísa Arez e José Vera

As características demográficas e económicas do Algarve, cuja principal atividade é o turismo e onde existe, por isso mesmo, uma grande circulação de pessoas, “constituem um fator que, só por si, torna difícil todo o trabalho de erradicação, ou mesmo de redução, do problema que constitui o VIH/SIDA”.

Apelando a “uma aposta decisiva na prevenção”, Paulo Morgado referiuas parcerias que a ARS Algarve estabeleceu com as organizações não governamentais da região, com o objetivo de “tentar chegar àqueles públicos onde sabemos que a circulação do vírus é mais frequente”.


Paulo Morgado

“O trabalho que estamos a fazer com as comunidades dos trabalhadores do sexo e nos locais onde sabemos que existem grandes concentrações de homens que fazem sexo com homens é da maior importância. Procuramos, através dos rastreios que fazemos e das ações de aconselhamento realizadas, tentar reduzir a transmissão do VIH e diagnosticar precocemente”, afirmou Paulo Morgado.



“A prevenção não é só feita por quem está no hospital"

José Vera, coordenador do NEDVIH- SPMI, considerou que “a situação tem melhorado, mas não está de maneira nenhuma controlada”. E justificou: “O número de novos casos de VIH tem reduzido, no entanto, é um facto que mais de metade das pessoas infetadas é diagnosticada tardiamente e isso é preocupante.”

Apesar, sublinhou, do “contributo da indústria farmacêutica e da ciência, que tem sido fundamental para o controlo da infeção pelo VIH”.

O que preocupa particularmente este especialista de Medicina Interna tem que ver com os cuidados de saúde de que as pessoas com VIH/SIDA vão necessitar no futuro, pois, “a grande sobrecarga desta infeção vaise refletir exatamente nas patologias que nós pretendemos cobrir com este ciclo de reuniões”.


José Vera

É simples de perceber o que está em causa: “A incidência de problemas cardiovasculares, de problemas neurocognitivos e de problemas renais, por exemplo, é francamente superior em relação à população não infetada.” José Vera chama-lhe “a nossa preocupação de futuro”.

“A prevenção não é só feita por quem está no hospital. É fundamental ter uma articulação entre a atividade hospitalar e a extra-hospitalar e sobretudo uma coordenação muito grande



A importância das perturbações psiquiátricas na adesão à terapêutica

Quando se fala de VIH/SIDA, o diagnóstico positivo é ainda suficientemente como nós estruturamos o nosso comportamento e a nossa maneira de reagir face a uma situação de ameaça, no sentido de ultrapassar essa mesma ameaça”.

“Há vários tipos de estratégias de coping, algumas mais ativas, outras mais passivas. Há as que estão focalizadas, por exemplo, na procura de informação e na resolução de problemas; outras têm o foco na regulação emocional. Aquilo que se sabe atualmente é que o coping ativo, dirigido para a procura de soluções, é realmente o mais protetor, face ao coping de evitamento ou de negação, ou ao coping passivo.

Sílvia Ouakinin haveria de chamar a atenção para a importância das perturbações psiquiátricas na adesão à terapêutica, algo que já é, por si só, “um fenómeno complexo,
que decorre de múltiplos fatores”.


Sílvia Ouakinin

“Traduz a capacidade de o doente aceitar, cumprir e envolver-se ativamente no seu próprio tratamento, sendo a mesma influenciada pela complexidade dos regimes
terapêuticos, o que foi, aliás, muito problemático na fase inicial da infeção. Naturalmente que uma pessoa que tenha alguma alteração cognitiva com défice de memória terá
muito mais dificuldade em aderir ao tratamento”, lembrou.

Concluindo a sua palestra, Sílvia Ouakinin insistiu na “importância destas perturbações na evolução da infeção, na qualidade de vida dos doentes e na adesão à terapêutica”. Recordou ser igualmente importante “o diagnóstico precoce e o tratamento adequado”, defendendo ser necessária uma integração multidisciplinar, “peça chave para o sucesso do tratamento”.

Domitília Faria: “um espírito de equipa de que nos orgulhamos muito”

Partilhando a mesa de abertura com a vereadora Sara Coelho, da Câmara Municipal de Lagos, e com Luísa Arez, diretora do Serviço de Medicina 3 do Centro Hospitalar Universitário do Algarve, coube a Domitília Faria, que integra aquele Serviço, na unidade de Portimão, representar na sessão a coordenadora regional do Programa Nacional para a Infeção VIH/SIDA, Helena Massena Ferreira.


Domitília Faria e José Vera

A internista acabou por relevar o que aquela médica de Saúde Pública da ARS Algarve tem feito no âmbito do cargo que ocupa, assegurando que “tem promovido as
pontes entre os diferentes níveis de cuidados”.

E mais: “Foi ela que implementou o rastreio do VIH no Algarve, é a responsável pelo Centro de Aconselhamento e Deteção Precoce da Infeção VIH/SIDA e tem
promovido a formação de dezenas de profissionais, a todos os níveis, das mais variadas áreas ligadas à saúde, ao longo de mais de 20 anos. É uma pessoa que está sempre presente.”

Domitília Faria, que coordena a área do VIH no CHUAlgarve, terminou manifestando o desejo de que se mantenha “o espírito de equipa nesta área do VIH, de que
nos orgulhamos muito de ter aqui no Algarve”.



A reportagem completa pode ser lida no Hospital Público de novembro/dezembro 2019.

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