Transplante de rim com dador de coração parado: projeto pioneiro com «excelentes resultados»

Com 58 anos de história, o Serviço de Urologia do Centro Hospitalar de São João (CHSJ), dirigido por Francisco Cruz, tem uma vasta experiência no tratamento de diversas patologias, distinguindo-se em várias áreas, como a da transplantação renal.

Foi a sua elevada diferenciação que levou a que fosse a primeira unidade hospitalar do país a avançar com o transplante renal com dador em paragem cardiocirculatória (coração parado) e o único hospital a integrar, em outubro de 2016, um projeto-piloto. O objetivo: "otimizar a doação de órgãos em dador falecido em paragem cardiocirculatória no Centro Hospitalar de São João". Para tal, foi criada uma área de integração da emergência pré-hospitalar com a emergência intra-hospitalar.


Francisco Cruz, diretor do Serviço de Urologia do Centro Hospitalar de São João


Resultados "superaram largamente as previsões"

Findo o projeto-piloto, um ano após a sua implementação, os resultados obtidos "superaram largamente as previsões iniciais" e "este tipo de colheita de órgãos no Centro Hospitalar de São João" passa agora a ser uma atividade rotineira do Serviço de Urologia, refere o Despacho publicado no Diário da República, pelo Gabinete do Secretário de Estado Adjunto e da Saúde. Dado o seu sucesso, foi ainda determinado o alargamento do projeto-piloto aos centros hospitalares de Lisboa Norte e de Lisboa Central.

"O SNS, quando quer, consegue fazer as coisas"

Em entrevista à Just News, publicada na última edição do Hospital Público, Francisco Cruz conta que, durante este tempo, foram realizados 24 transplantes renais em coração parado (mais 14 do que o número inicialmente estipulado) e com “excelentes resultados”. 


O urologista explica que este tipo de intervenção implica o recurso ao ECMO, uma máquina que garante a circulação sanguínea extracorporal, exigindo uma resposta mais rápida do que quando a colheita dos órgãos é feita em doentes em morte cerebral.


Alguns dos elementos do quadro médico: Gomes de Carvalho, Carlos Silva, Francisco Cruz, Afonso Morgado e Luís Figueiredo

“Este é um projeto que me deixa muito orgulhoso, juntamente com toda a equipa, que envolve não só o Serviço de Urologia, mas também outros profissionais de saúde, nomeadamente, os responsáveis pela ECMO e o Serviço de Nefrologia”, afirma, desenvolvendo que o processo foi montado com relativa facilidade. Na sua opinião, tal “demonstra que o Serviço Nacional de Saúde, quando quer, consegue fazer as coisas”.

"A exigência de uma resposta pronta"

O urologista Luís Figueiredo conta que todos os elementos do serviço fazem parte da equipa que faz a colheita dos rins. “Este processo obrigou a alguma curva de aprendizagem, mas não muita, dado que já tínhamos experiência com o outro tipo de colheitas, havendo algumas ‘nuances’ técnicas relacionadas, sobretudo, com o facto de os vasos não pulsarem”, relata o médico de 34 anos, que está no Serviço desde 2009, altura em que iniciou o seu Internato de Formação Específica em Urologia.

“O grande desafio no transplante em coração parado prende-se com a exigência de uma resposta pronta – cerca de uma a duas horas depois da paragem cardiocirculatória –, o que obriga a uma logística especial por parte do Serviço. Tem de estar mobilizado para que, ao ser feito o contacto, a equipa que está de prevenção esteja no hospital com a maior brevidade”, acrescenta o médico, que é doutorado pela Faculdade de Medicina da Universidade do Porto.

Para Francisco Cruz não há dúvida de que "o futuro passa pela transplantação em coração parado" e indica que em Espanha, por exemplo, há muitos centros a colher mais rins em coração parado do que em morte cerebral.


Gomes de Carvalho e Luís Figueiredo

Agendamento de doentes cirúrgicos: um desafio constante

Gomes de Carvalho, 63 anos, dá apoio ao diretor do Serviço no agendamento dos doentes cirúrgicos, uma tarefa que diz ser “muito complicada“. “Temos mais doentes que precisam de ser operados do que a capacidade instalada de que dispomos”, diz, adiantando que, por semana, na designada “cirurgia de rotina”, são operados 30 doentes e na produção adicional (sexta-feira à tarde e sábado) outros 15.

Para Francisco Cruz, as salas operatórias são de tal forma uma estrutura especializada que têm de ser rentabilizadas 24 horas por dia. No entanto, para que isso aconteça, é preciso alterar as regras da Administração Pública que limitam a atividade dentro do SNS.



“A forma de pagamento do SNS aos hospitais públicos é a primeira coisa que tem de ser alterada. Ou é feito em função da produção, ou estamos a trabalhar mal e porque não estamos a competir com as estruturas privadas onde o pagamento é feito de uma forma muito clara”, aponta.

Carcinoma do testículo: centrar o problema no doente 

Desde a inauguração do Hospital de São João que é o Serviço de Urologia que assegura o tratamento dos casos de cancro do testículo. A sua vasta experiência na abordagem destes doentes possibilitou que, há cerca de dois anos, o CHSJ se tornasse centro de referência para o tratamento desta patologia. 

Embora seja um problema relativamente raro, conforme refere o diretor do Serviço de Urologia do CHSJ, “o tratamento é complexo, implicando a coordenação com múltiplas especialidades”.

Nesse sentido, um dos projetos do Serviço é criar uma estrutura que reúna várias valências e funcione como “central de consultas”. De acordo com o médico, o objetivo é "centrar o problema no doente e não na especialidade, evitando que aquele tenha de se deslocar várias vezes ao hospital para ir a consultas de Urologia, de Oncologia, de Radioterapia, ou para fazer análises, entre outras situações”.



Cancro da próstata: “Urologia tem de estar na parte central da orientação de todos os tratamentos”

O cancro da próstata é o mais frequente no homem com mais de 50 anos. De acordo com Carlos Silva, que está ligado ao Serviço desde o seu internato de formação específica em Urologia, este tipo de tumor tem “várias faces” e o seu tratamento não se resume à cirurgia, havendo cada vez mais outras alternativas. No seu entender, “a Urologia tem de estar na parte central da orientação de todos os tratamentos destes doentes”.


Carlos Silva

“Além de sermos cirurgiões, temos de saber que os doentes têm outras opções, como a radioterapia ou as terapêuticas minimamente invasivas”, diz o urologista, de 52 anos, frisando que, quando existem vários caminhos, como é o caso do cancro da próstata, é preciso estar preparado.

Tendo noção da importância de uma resposta centrada no doente, o Serviço ambiciona, à semelhança do que sucede no carcinoma do testículo, conseguir criar uma estrutura dedicada ao cancro da próstata, onde o doente possa encontrar todas as respostas e seja acompanhado desde o princípio até ao final. 

“Uma oportunidade única de aprendizagem”

Afonso Morgado, natural da Maia, é interno no Serviço de Urologia do CHSJ. Ao ser questionado sobre a experiência que tem sido desenvolver ali o seu internato, destaca o facto de o mesmo possuir algumas valências, como a transplantação, que proporcionam “uma oportunidade única de aprendizagem” para os internos, em termos cirúrgicos e de anatomia.



O elevado volume cirúrgico do Serviço também contribui, segundo Afonso Morgado, para uma boa preparação dos internos. “Posso dizer, com certeza, que quando um dia sair daqui, seja para que hospital for, estou completamente preparado para o que vier”, indica.

Também é uma mais-valia o Serviço estar ligado a uma faculdade, que “aumenta a qualidade do conhecimento. Todos nós aqui somos docentes e damos aulas, e ao darmos aulas na pré-graduação obriga-nos a estudar permanentemente”, destaca Francisco Cruz.

Transferência de conhecimento entre gerações "é absolutamente fundamental”

Esta partilha de experiência e conhecimento não surge por acaso no Serviço de Urologia, sendo antes algo estimulado pelo seu diretor, que sublinha: “Nós não somos donos do conhecimento. Ao estarmos em conjunto, criamos conhecimento novo, mas temos que o transferir para as gerações que vêm a seguir. Essa transferência é absolutamente fundamental."



Aos 61 anos, Francisco Cruz espera ter saúde para se jubilar enquanto professor, aos 70 anos, e para poder continuar a exercer, “com prazer”, a sua atividade no Serviço. O médico ambiciona, nos próximos nove anos, poder continuar a transferir para os mais novos tudo aquilo que os mais velhos apreenderam. “A troca de conhecimento entre as gerações é muito importante”, afirma.

Atualmente, além de dirigir o Serviço de Urologia do CHSJ, desde 2004, Francisco Cruz é professor na FMUP e coordena um grupo de investigação da Faculdade que está ligado ao Instituto de Investigação e Inovação em Saúde (i3S). Além disso, é responsável por uma das secções da Sociedade Europeia de Urologia, onde mantém uma atividade “repetida e sustentada” desde 2003.





A reportagem completa sobre o Serviço de Urologia do CHSJ pode ser lida na edição de novembro do Hospital Público.

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