Procedimentos estéticos vulvovaginais: «raramente existe justificação médica»

A maior parte dos médicos e futuros médicos reconhece que não há evidência científica para a realização de muitos dos procedimentos estéticos vulvovaginais. Essa é a conclusão de um inquérito levado a cabo por um grupo de especialistas ligados à Sociedade Portuguesa de Ginecologia (SPG), que foi apresentado no 21.º Congresso de Obstetrícia e Ginecologia por Pedro Vieira Baptista.



De acordo com o responsável pela Unidade de Patologia do Trato Genital Inferior do Centro Hospitalar de São João, no Porto, o questionário, que envolveu 664 médicos e futuros médicos, tinha como principal objetivo saber qual a opinião dos inquiridos sobre a existência de fundamentos científicos para a realização destes procedimentos.

"Quando questionámos se havia justificação médica para a realização, nomeadamente, de branqueamentos, lipoaspirações, intervenções sobre o ‘ponto G’, aumento dos pequenos lábios e uso do procedimento a laser para aperto da vagina, na maior parte dos casos, as pessoas responderam que nunca ou raramente existia justificação”, relata o ginecologista e obstetra. E acrescenta:

"Foram levantadas menos dúvidas relativamente ao ‘rejuvenescimento’ vaginal, ao ‘tratamento’ da atrofia com laser, nas ninfoplastias e na redução dos grandes lábios, bem como nas cirurgias sobre o clítoris."



Este estudo, que foi aceite para ser publicado na Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia, pretendia também saber o que estes profissionais de saúde pensam sobre o tema do ponto de vista da ética.

Segundo Pedro Vieira Baptista, “a grande surpresa” foi o facto de a maioria não ter levantado grandes objeções nessa matéria, sobretudo entre os alunos e internos, nos cirurgiões plásticos e naqueles que já fizeram ou consideram eles próprios vir a ser submetidos a uma cirurgia plástica.

"Tal explica-se, provavelmente, pela tentativa de respeitar o mais importante dos princípios da ética médica: o da autonomia. Contudo, o princípio da autonomia culmina no consentimento informado e, para tal, a doente tem de ter informação sobre questões como, por exemplo, se é seguro a longo prazo, quais as possíveis complicações, alternativas ou as consequências da não realização do procedimento”, considera.



Utilização do laser na atrofia vaginal e na dor

Outra das conclusões diz respeito ao tratamento da atrofia vaginal através da utilização de laser. Mais de 70% dos inquiridos consideraram existir evidência para o seu uso, o que, na opinião de Pedro Vieira Baptista, é “interessante”, numa altura em que se debate tanto o laser no tratamento deste problema.

“A verdade é que não existe evidência científica de qualidade. Apenas dispomos de um estudo com um grupo de controlo! Ou seja, a nossa visão nesta área está um pouco deturpada porque estamos a achar que há benefício e segurança sem aumento dos riscos. Contudo, as coisas não estão cabalmente provadas”, frisa.

Mas, para o nosso interlocutor, mais preocupante terá sido o facto de 60% dos inquiridos considerarem que este tipo de procedimentos pode tratar a dor sexual "e, na verdade, não existir qualquer evidência científica que o comprove".


Pedro Vieira Baptista com Peter Greenhouse (Reino Unido), um dos especialistas que interveio na sessão "Rejuvenescimento e cosmética genital feminina", durante o 21.º Congresso de Obstetrícia e Ginecologia.

Ponto G: aumentar "uma estrutura que não existe"

Um dos aspetos discutidos no 21.º Congresso de Obstetrícia e Ginecologia, aquando da apresentação do estudo, foi a questão do “ponto G”, cuja existência é questionável, "dada a falta de evidência científica".

Apesar disso, menos de 50% dos inquiridos levantaram objeções em termos éticos, relativamente à intervenção sobre o mesmo, nomeadamente aumentá-lo, o que, na opinião de Pedro Vieira Baptista, “dá que pensar”, uma vez que, “se é uma estrutura que não existe, eticamente tem de ser duvidoso aumentá-la ou amplificá-la!”.




A notícia completa pode ser lida na primeira edição de Hospital Público.



Hospital Público é uma publicação da Just News, de periodicidade mensal, particularmente dirigida aos profissionais de saúde das unidades hospitalares do SNS, incluindo as de gestão privada.

Imprimir


Médicos de família assinalam Dia Mundial da Asma 2019 na Sertã