Psiquiatras do CHPL contam com assessoria dos farmacêuticos em necessidades não psiquiátricas

Composta por duas dezenas de profissionais, a equipa dos Serviços Farmacêuticos do Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa (CHPL), coordenada por Sara Silva Alexandre, colabora com os psiquiatras, no sentido de os assessorar quanto à medicação dirigida às várias patologias, além da psiquiátrica.



Apesar de, ao longo dos últimos 17 anos, ter vindo a acompanhar uma certa mudança de paradigma relativamente à forma como a Saúde Mental é encarada, Sara Silva Alexandre, coordenadora dos Serviços Farmacêuticos (SF) do Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa, adianta que ainda é confrontada com comentários que revelam “um grande desconhecimento e alguma desvalorização desta área de cuidados e, mais especificamente, do papel que o farmacêutico desempenha”.

Apesar de não desenvolverem certas atividades, como a Farmacotecnia, aquela responsável realça que “as necessidades dos utentes são atendidas”. Também o facto de existir um quadro de recursos humanos diminuto, composto por apenas 20 elementos, é visto pela farmacêutica como uma mais-valia para a união da equipa e para a valorização de cada um. “Aqui, sentimo-nos realmente úteis, enquanto noutros hospitais o nosso trabalho poderia ser menos reconhecido”, observa.


Sara Silva Alexandre

Uma das características basilares destes SF prende-se com o trabalho de assessoria realizado junto da equipa médica quanto à medicação relativa a áreas que não a psiquiátrica, principalmente no contexto de internamento.

“Normalmente, os doentes são internados porque agudizaram uma situação psiquiátrica crónica, mas trazem consigo todo um histórico clínico e uma série de patologias associadas, desde o glaucoma até ao VIH, ou mesmo uma situação tumoral”, explica a farmacêutica.

"Uma intervenção proativa"

Apesar de existirem alguns médicos de outras especialidades que prestam apoio nestes casos, Sara Silva Alexandre adianta que o número é muito parco, pelo que “é recorrente, do ponto de vista clínico, sermos solicitados, assim como sermos nós proativamente a identificar que a nossa intervenção é necessária”.



Com uma lotação de aproximadamente 400 camas, em que todos os doentes estão sujeitos a medicação, o internamento está dividido em quatro moldes distintos. Por um lado, existem seis clínicas de internamento agudo, ocupadas por doentes que advêm da Consulta Externa e, num maior número, do Serviço de Urgência Psiquiátrica no Hospital de São José, cujo funcionamento é garantido pelos profissionais do CHPL.

Por norma, estes “são doentes que têm já um diagnóstico estabelecido, mas sofreram uma recaída e necessitam de encontrar novamente o equilíbrio”, aponta a coordenadora dos SF. Nesse sentido, “exigem uma maior monitorização clínica e requerem ajustes de terapêutica, o que implica uma maior colaboração farmacêutica”.

Estas clínicas psiquiátricas, que estão distribuídas por vários pavilhões do Parque da Saúde de Lisboa, são organizadas maioritariamente por áreas geográficas de residência dos doentes, existindo ainda uma clínica dedicada a dependências. O grupo farmacoterapêutico mais requisitado é o dos antipsicóticos, que visam reduzir alguma sintomatologia, nomeadamente alucinações e delírios, associados a patologias como a esquizofrenia, a doença bipolar ou a demência.


Sara Silva Alexandre com alguns dos elementos da equipa

Reabilitação Psicossocial

A segunda grande vertente de internamento traduz-se no Serviço de Reabilitação Psicossocial, que integra doentes com um maior grau de autonomia, que não carecem de um forte suporte médico.

Com um apoio farmacológico distinto, Sara Silva Alexandre realça que “o objetivo junto destes doentes é dotá-los de algumas competências para a execução de tarefas, pelo que a medicação é-lhes fornecida de uma forma semanal, para que, tal como aprendem a cozinhar e a lavar a loiça, sejam capazes de, com a ajuda dos enfermeiros, organizar a sua terapêutica de uma forma diária".

Esta forma de distribuição da medicação estende-se aos doentes do Hospital de Dia, dado que um dos objetivos principais consiste na "promoção da literacia relativamente à medicação, tanto em termos de efeitos secundários como da própria gestão diária".



Desta forma, “asseguramos que os doentes transitam para o ambulatório perfeitamente aptos para gerir a sua terapêutica, com toda a segurança”, justifica. Nesse âmbito, esta capacitação contava, até ao período pré covid-19, com a participação de uma farmacêutica.

"Doentes de uma faixa etária mais avançada"

Por outro lado, o Serviço de Doentes de Evolução Prolongada reúne um conjunto de doentes que carecem de um apoio mais significativo por parte das equipas médicas e de enfermagem para responder às suas necessidades diárias.

Distribuídos por várias residências, "estes doentes têm, normalmente, múltiplas patologias e são de uma faixa etária mais avançada, o que lhes confere um maior grau de dependência face aos doentes da Reabilitação".

No entanto, “se durante meses ou anos os doentes destes dois serviços podem manter-se estáveis, pontualmente, podem desenvolver patologias que obriguem a um maior apoio, pelo que se, por um lado, esta necessidade é menos frequente, por outro, é mais diversa”, observa a farmacêutica.

Além destas estruturas, os SF desenvolvem uma atividade direcionada também ao Serviço Regional de Psiquiatria Forense, que abarca doentes inimputáveis por sentença judicial.


Outros elementos da equipa. Devido à pandemia por covid-19, os os Serviços Farmacêuticos do CHPL têm também desenvolvido o chamado trabalhado em espelho.

“Procuramos adaptar a distribuição conforme as solicitações dos diferentes serviços, de acordo com os objetivos que são definidos para cada grupo de doentes”, esclarece.

Este processo de entrega de medicação é realizado todos os dias úteis, através da colaboração de um motorista e de um assistente operacional. Utilizando uma carrinha, carregam, distribuem e recolhem os módulos de cassetes junto de 14 serviços, localizados em oito pavilhões do Parque da Saúde.



Apesar de os SF do CHPL não estarem em funcionamento aos fins de semana, nem preverem um horário de 24 horas, Sara Silva Alexandre sublinha que os cuidados farmacológicos estão sempre assegurados, através de um stock de medicamentos disponível nas várias enfermarias, além daquele que se encontra à disposição do médico de urgência, “que funciona como um complemento, dotado de uma maior quantidade e diversidade de medicamentos”.

Um protocolo de colaboração com o CHULC permite que qualquer medicamento em falta seja solicitado ao Hospital de São José.

Os SF estão ainda responsáveis por garantir a medicação destinada às intervenções domiciliárias e aos centros de Psiquiatria Comunitária, descentralizados nos concelhos de Sintra, Torres Vedras, Mafra e Odivelas. Neste âmbito, é realizada uma reposição de stock semanal, tendo em conta as características quantitativas e qualitativas dos doentes.

Apesar de as patologias do foro psiquiátrico não se enquadrarem na disponibilização de medicação através da Farmácia de Ambulatório, este serviço existe, a título excecional, para assegurar a entrega de um único medicamento que não está disponível nas farmácias comunitárias. De outra forma, esta situação obrigaria os cerca de 20 doentes que necessitam desta terapêutica a serem internados para conseguirem garantir o acesso ao mesmo.



A reportagem completa sobre os Serviços Farmacêuticos do CHPL, com entrevistas a uma dezena de profissionais, pode ser lida na edição de janeiro/fevereiro do Hospital Público.

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