Saúde mental das crianças: «É fundamental que os alunos de Medicina tenham aulas nesta área»

Quando se entra no gabinete de Georgina Maia, diretora do Serviço de Psiquiatria da Infância e Adolescência do Hospital de São Francisco Xavier (CHLO), é impossível não se reparar na luz natural que vem da janela, através da qual é possível ver o rio Tejo. A este ambiente juntam-se brinquedos e jogos que agradam aos mais novos. É aqui que recebe crianças e adolescentes, assim como as suas famílias, para ajudar quem precisa de cuidados de saúde mental e tenha até 17 anos de idade, inclusive.

O Serviço, cujos 20 anos de existência foram assinalados no final de 2019, não dispôs logo do espaço físico que tem hoje em dia. Inicialmente, a equipa prestava cuidados noutro edifício, juntamente com o Serviço de Psiquiatria de Adultos, graças “à boa vontade dos colegas”.

Mas, como a situação não era a ideal, em 2006, após a realização de obras, migraram para outra área do hospital, onde as condições são melhores. “Ficámos então neste espaço, onde as crianças entram pela mesma porta das que se dirigem à Pediatria, o que é essencial para diminuir o estigma associado a estas patologias”, diz Georgina Maia.


Georgina Maia

A diretora está satisfeita com estas duas décadas em que esteve sempre à frente do Serviço, após deixar o Hospital de Dona Estefânia para criar este novo projeto. “Recebi um convite do Prof. Caldas de Almeida, diretor do Serviço de Psiquiatria, e, juntamente com outra colega, formei a equipa”, explica.

Na época, as crianças e os jovens não tinham grande acessibilidade a este tipo de cuidados: “Em Lisboa, apenas existia o Centro de Saúde Mental Infantil e Juvenil, que havia sido integrado no HDE, daí que se sentisse alguma necessidade em se diversificar os pontos de atendimento. Mesmo nesta região, o apoio cingia-se a uma consulta em Cascais, que ainda existe.”

O facto de ser independente do Serviço de Psiquiatria de Adultos também tem sido uma vantagem ao longo destas duas décadas: “Apesar da boa relação entre ambos os serviços, a verdade é que mais facilmente se consegue falar com o Conselho de Administração e expor as nossas necessidades. Aliás, temos sido muito apoiados, sobretudo no que diz respeito aos tempos de consulta, que são diferentes dos de outras áreas.”

Além disso, refere, “o nosso Serviço localiza-se no mesmo edifício que os de Pediatria e de Ginecologia/Obstetrícia, o que nos permite uma maior interligação e proximidade com estas duas especialidades, fundamentais no que diz respeito à saúde mental dos mais novos”.



"Os modelos parentais tendem a reproduzir-se"

Ao longo destes anos, há um lema que nunca deixou de ser seguido pela equipa. “Somos médicos, enfermeiros e técnicos da criança, do adolescente e da família”, afirma Georgina Maia. Sem esta ligação não é possível ter sucesso nas intervenções.

“Fazemos sempre uma história clínica familiar, porque os modelos parentais tendem a reproduzir-se e é importante perceber se aquele pai ou aquela mãe se sentiram amados na
infância, por exemplo. Desta forma, consegue-se ter uma noção mais exata de determinadas práticas e comportamentos que podem perpetuar o problema de saúde da criança, ou até contribuir para a sua recuperação”, diz.



Como nem sempre são os pais que acompanham a criança ou o jovem, a nossa interlocutora também gosta de falar de cuidadores. “A este nível, temos de trabalhar com a ama, com a professora, com a educadora...”, refere. Daí que, desde o início, a equipa procure estreitar relações com a comunidade.

“A ligação a outras instituições tem crescido e, nos últimos tempos, tivemos a sorte de poder contar com uma equipa móvel que trabalha na comunidade, juntamente com as famílias, e que também nos ajuda a perceber determinados problemas”, conclui Georgina Maia.



“Há cada vez mais casos de solidão, mesmo quando se está acompanhado"

Com uma experiência de 34 anos, Georgina Maia faz um balanço da saúde mental na infância e na adolescência. “Não se pode dizer que há obviamente um aumento da doença mental nesta faixa etária porque, nos últimos anos, a população está muito mais alerta para determinados sinais e sintomas, acabando por pedir ajuda”, considera.

Continuando: “Hoje em dia, sabe-se que a depressão no bebé é uma realidade que, regra geral, está associada a causas exógenas. Mas, quer nas crianças mais velhas como nos adolescentes, nem sempre se está perante casos de psicopatologia, ou seja, pode haver sintomatologia somática sem uma etiologia orgânica.”



A pedopsiquiatra afirma, contudo, que “todos nós devemos estar preocupados com a saúde mental dos mais novos”. E explica porquê: “Há cada vez mais casos de solidão, mesmo quando se está acompanhado. Além dos pais que não brincam com os filhos, temos o problema de que as crianças são entregues aos ecrãs, tornando-se normal ver, numa família, cada um agarrado a um telemóvel ou a um tablet, sem que se estabeleça uma conversa.”

Para a especialista, esta realidade pode ser a ponta do icebergue para, nos próximos anos, se desenvolverem quadros depressivos e ansiosos, que têm repercussões a vários níveis, inclusive, em termos de absentismo laboral e escolar.


Elementos da equipa (nota: foto tirada em período pré-covid)

"Digo muitas vezes aos pais que têm de brincar com os filhos"

Georgina Maia alerta mesmo para algo que é fundamental: “Não estamos a dar tempo uns aos outros, predominando o individualismo. Digo muitas vezes aos pais que têm de brincar com os filhos, conversar, contar uma história sem um ecrã à frente, para que se crie uma relação de confiança e segurança desde cedo.”

Quanto aos pais que dizem não ter tempo, deixa um aviso: “Uma criança, mais tarde, compreende que os pais tenham de trabalhar muitas  horas para terem as coisas básicas para viver, mas não vai ter o mesmo entendimento quando perceber que a sua ausência era para terem mais comodidades na vida...”



Outro entrave comum é a hiperproteção: “O principal problema é o estabelecimento de regras. As crianças são cada vez mais pequenos reis, sem estarem habituadas a ouvir um não... A frustração é essencial, desde que adequada a cada fase da vida, para se evitarem problemas mentais."

Mas o que dizer da polémica em torno da medicação? “É uma questão de bom senso. Caso seja necessário, nunca se deve descurar o acompanhamento psicológico – que envolve também a família –, para que a criança ou o adolescente possa verbalizar os sentimentos.”

“É fundamental que os alunos de Medicina tenham aulas nesta área”

Perante as muitas necessidades que surgem na consulta, e que também envolvem casos graves de crianças de risco ou em risco, Georgina Maia defende a criação de mais serviços de Psiquiatria da Infância e Adolescência a nível nacional. E afirma: “Felizmente, temos assistido a alguma evolução, mas ainda há um longo caminho para percorrer.”

Uma das possíveis soluções para mudar esta realidade pode ser, na sua opinião, a formação pré-graduada: “É fundamental que os alunos de Medicina tenham aulas nesta área. Mesmo que depois não venham a exercer nesta especialidade, podem mais facilmente diagnosticar e referenciar ainda numa fase precoce.”

Para colmatar de alguma forma esta falha curricular, a diretora recebe no Hospital de São Francisco Xavier alunos da Nova Medical School, instituição onde também leciona. Voltando ao Serviço, espera que não pare de crescer: “Vamos continuar a apostar na relação com a comunidade e a consolidar o atual projeto de transição dos jovens para a Psiquiatria de Adultos. Temos uma equipa a trabalhar para isso. Vamos ainda investir em grupos terapêuticos e em mais programas de promoção da saúde mental.”

Projetos que contam sempre, como faz questão de sublinhar, com todos os elementos do Serviço. “Nunca se fala dos administrativos, mas são essenciais, por serem a primeira cara. Temos duas profissionais que fazem um trabalho muito bom, sabendo escutar os doentes e a família, não entrando em choque em determinadas conversas...”, afirma Georgina Maia.



A reportagem completa pode ser lida na edição de julho/agosto do jornal Hospital Público.

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