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Tratamento com estatinas nos idosos: «Da mesma forma que para pacientes mais jovens»

"A prevenção de doenças cardiovasculares continua a ser importante nas idades mais avançadas", afirma Manuel Teixeira Veríssimo, especialista de Medicina Interna. E tal explica-se porque, desde logo, estas doenças constituem "a primeira causa de morte dos idosos".

O médico salienta que, à semelhança do que ocorre com as "idades mais jovens", a prevenção das doenças cardiovasculares "assenta no controlo dos fatores de risco clássicos, como o excesso de gordura corporal, o sedentarismo, o tabagismo, a diabetes, a hipertensão arterial e a dislipidemia". De entre estes, "a dislipidemia, em particular a hipercolesterolemia, assume um papel fulcral, pois, sem colesterol não há processo aterosclerótico".

Hipercolesterolemia nos indivíduos muito idosos "justifica intervenção terapêutica"

Para Manuel Teixeira Veríssimo, que assume o cargo de presidente da Competência de Geriatria da Ordem dos Médicos, não há dúvida de que "a hipercolesterolomia continua a ser um importante fator de risco nos idosos", fazendo referência ao Honolulu Heart Study e a outro estudo mais recente:

“Elevated LDL cholesterol and increased risk of myocardial infarction and atherosclerotic cardiovascular disease in individuals aged 70-100 years: a contemporary primary prevention cohort”.

Esta investigação diz respeito a "uma coorte de prevenção primária realizada em idosos de 70 a 100 anos com colesterol LDL elevado, no qual se mostrou maior risco absoluto de enfarte do miocárdio e doença cardiovascular aterosclerótica, quando comparados os idosos com a população mais jovem".

E acrescenta: "De acordo com este estudo, em que o colesterol LDL aumentado tem mais peso como fator de risco nos idosos do que nos não idosos, torna-se claro que a hipercolesterolemia continua a ser um importante fator de risco cardiovascular, mesmo nos indivíduos muito idosos, justificando intervenção terapêutica."


Manuel Teixeira Veríssimo

"Redução dos principais eventos cardiovasculares"

De acordo com Manuel Teixeira Veríssimo, a opção terapêutica da hipercolesterolemia no idoso "tem muito a ver com o estado fisiológico, físico, mental, funcional e comorbilidades presentes, bem como com a expectativa de vida, assentando essencialmente nas medidas associadas ao estilo de vida e no uso de fármacos, principalmente estatinas".

No que diz respeito à alimentação e a atividade física, não restam dúvidas de que "continuam a ser a base da terapêutica da dislipidemia, não esquecendo a cessação tabágica, que, de um modo geral, nos idosos, já não é um problema". 

Relativamente ao tratamento com estatinas, o especialista indica que ficou demonstrado que "reduz os principais eventos cardiovasculares e a mortalidade cardiovascular nos idosos", acrescentando:

"Uma meta-análise recente feita com dados de todos os grandes estudos com estatinas, quer de prevenção primária, quer secundária, com o objetivo de comparar os efeitos do tratamento com estatinas em diferentes idades, concluiu que o tratamento com estatinas produz reduções significativas nos eventos vasculares major, independentemente da idade, embora haja menos evidência direta de benefício nos indivíduos com mais de 75 anos sem doença aterosclerótica conhecida."

E o que dizem as recomendações das sociedades científicas internacionais para os valores de colesterol LDL e outras frações lipídicas a atingir nesta população? "Não diferem do que se preconiza para o adulto não idoso, quer em prevenção primária, quer secundária", afirma o médico. Adverte, contudo, que "deverá ter-se em consideração que o tratamento da dislipidemia no idoso requer uma abordagem abrangente e individualizada, devendo, integradamente, atender-se às particularidades clínicas e fisiológicas, bem como à expectativa de vida de cada idoso". 


Mais estudos, mais evidência


Assim, e segundo Manuel Teixeira Veríssimo, à luz das recomendações conjuntas da Sociedade Europeia de Cardiologia e Sociedade Europeia de Aterosclerose, pode dizer-se, em relação ao tratamento com estatinas nos idosos:

- o tratamento com estatinas é recomendado para pessoas idosas com doença cardiovascular aterosclerótica da mesma forma que para pacientes mais jovens;
- o tratamento com estatinas é recomendado para prevenção primária, de acordo com o nível de risco, em idosos com 75 anos ou menos;
- o início do tratamento com estatinas para prevenção primária em idosos com idade superior a 75 anos pode ser considerado, se se tratar de indivíduo de alto ou muito alto risco;
- recomenda-se que a estatina seja iniciada com uma dose baixa se houver insuficiência renal significativa e/ou potencial para interações medicamentosas, sendo então titulada para cima para atingir os objetivos de colesterol LDL-C.

Que conclusão tirar? "A heterogeneidade nos idosos é grande e, como tal, o uso de estatinas deverá ser ponderado caso a caso em função do risco cardiovascular, das comorbilidades, da fragilidade fisiológica, física e mental, bem como da expectativa de vida". E não só. O internista salienta a necessidade de "mais estudos, em prevenção primária e secundária, em idosos e particularmente em muito idosos, que possam trazer mais evidência nesta área".



O artigo pode ser lido na edição de março do Jornal Médico dos Cuidados de Saúde Primários, no âmbito do Especial Aterosclerose, que conta com o contributo de uma dezena de especialistas, referências na área.

Dirigido a profissionais de saúde e entregue nas unidades de saúde familiar (USF) de Portugal, esta publicação da Just News promove a ampla partilha de boas práticas e de projetos de excelência desenvolvidos no âmbito do SNS.

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