USF em Alcabideche investe na formação dos profissionais: «Ajuda bastante na prática clínica diária»

A atualização de conhecimentos nem sempre é tarefa fácil quando há uma lista de utentes com 1900 nomes. Na USF São Martinho de Alcabideche, situada no concelho de Cascais, desde 2015 que os profissionais organizam formações com especialistas de diferentes áreas, que se deslocam à Unidade para abordar determinados temas precisamente na altura da reunião de equipa.

“É uma forma de ter acesso, num curto espaço de tempo, a um resumo das principais novidades em dada área, o que nos ajuda bastante na nossa prática clínica diária como médicos e enfermeiros. Alguns temas também se destinam aos secretários clínicos”, diz Ana Paes de Vasconcellos, coordenadora da USF São Martinho de Alcabideche.


Ana Paes de Vasconcellos: "Acreditamos que profissionais de saúde atualizados são fulcrais para prestarem melhores serviços possíveis"

Em entrevista à Just News, a médica esclarece que esta ideia começou a ser colocada em prática há uns cinco anos:

“Anteriormente, estivemos mais focados na consolidação do trabalho da Unidade. Em 2015 candidatámo-nos a modelo B e começámos a apostar mais na formação interna, porque os profissionais de saúde têm essa necessidade.” Apesar do trabalho extra a que obriga, o projeto mantém-se:

“Exige mais de cada elemento da equipa, mas vale a pena. No final, olhamos para trás e pensamos que este esforço tem os seus frutos e que deve continuar.”

Ana Paes de Vasconcellos faz questão de realçar: “A USF tem no seu ADN a aposta na formação e na educação para a saúde, que constituem o caminho para a excelência. São atividades essenciais nos cuidados de saúde primários que, acreditamos, são o pilar do SNS.”

A experiência tem corrido tão bem que já há quem, embora não integrando a equipa da USF, venha assistir a alguns encontros, de tal forma que “chegamos a ter que realizar certas sessões em espaços concedidos, gratuitamente, pela Junta de Freguesia do Estoril, porque vêm colegas de norte a sul do país”.



"Continuar a lutar pelos valores do SNS"

A mesma convicção tem Ana Amorim, médica de família e membro da comissão organizadora das ações formativas: “Através da internet, é fácil aceder a informação com evidência científica, mas o reboliço do dia-a-dia nem sempre nos permite parar para podermos assimilá-la. Nestas ações consegue-se fazer uma compilação das principais ideias, além de partilharmos experiências e esclarecermos dúvidas.”

As mais-valias não se ficam por aqui, pois, “acaba por se criar uma rede de contactos que nos vai ajudar mais tarde, sempre que seja necessário, e é uma forma de sair da rotina diária”.


Ana Amorim

Ana Amorim vê neste projeto também uma forma de reforçar o papel do SNS. E garante: “Fazemos tudo para que não se desinvista no SNS. Quem está no SNS é porque acredita num serviço público e social e quer continuar a lutar por esses valores. Nos CSP, somos a base dos cuidados de saúde e esforçamo-nos todos os dias, mesmo com dificuldades, para proporcionar o melhor acesso e os cuidados adequados à população...”

"A literacia em saúde é sempre um enorme desafio"

As iniciativas promovida pela USF São Martinho de Alcabideche não se cingem aos profissionais, sendo dada igual relevância à comunicação e reforço da proximidade com os utentes, conforme salienta Ana Paes de Vasconcellos: 

“Quisemos também organizar ações de educação para a saúde dirigidas à população porque é fundamental ter cidadãos mais capacitados, com mais conhecimentos em saúde.” A adesão a estas sessões começou de forma tímida, com apenas meia dúzia de utentes, mas já se atingiu as três dezenas de participantes.


Na sequência do 7.º aniversário da USF, foram realizadas em outubro do ano passado as 3.as Jornadas para Utentes

“Vamos aos poucos. A literacia em saúde é sempre um enorme desafio para todos os que trabalham em saúde, mas, como se vê, as pessoas passam a palavra e vamos tendo cada vez mais presenças”, observa Ana Paes de Vasconcellos, acrescentando: “É preciso não desistir!".

Na sua opinião, seria muito importante que mais USF conseguissem promover "mais ações de empoderamento da população". 


Três anos para modelo B: “É frustrante...”


Ana Paes de Vasconcellos é coordenadora da USF São Martinho de Alcabideche desde o primeiro dia, já lá vão quase oito anos. Após terminar o Internato da Especialidade na UCSP Colares, no ACES Sintra, integrou a equipa da UCSP Alcabideche, tendo sido também convidada para iniciar o projeto de criação da USF.

“A ideia partiu de uma colega que era interna na altura, a Dr.ª Ana Dantas, e que convidou algumas pessoas, não só do ACES Cascais como também do ACES Sintra, e em outubro de 2012 abrimos portas para servir 13 mil utentes sem médico de família”, recorda.


Elementos da USF São Martinho de Alcabideche (NOTA: foto tirada no início de março, previamente à declaração do estado de emergência em Portugal)

A equipa de 8 médicos, 7 enfermeiros e 4 secretários clínicos partilha assim, desde então, o edifício onde funciona a USF São Martinho de Alcabideche com a UCSP Alcabideche, a USF Alcais, a Unidade de Cuidados na Comunidade de Cascais e a Unidade de Cuidados Paliativos do ACES Cascais. Atualmente, são 4 os internos de formação específica em MGF.

A coabitação não podia ser melhor, apesar de, como em tudo, haver prós e contras nesta proximidade entre as várias unidades. “A principal vantagem é a facilidade com que comunicamos uns com os outros, além de que estamos a par de todos os projetos que vão surgindo e que podem beneficiar os nossos utentes. É claro que a falta de espaço é uma realidade, pois, precisávamos de mais dois gabinetes, para consulta, porque temos atualmente 4 internos...”



Ao longo destes quase 8 anos, Ana Paes de Vasconcellos garante que o momento mais difícil da USF foi o da passagem a modelo B: “A candidatura foi apresentada em 2015, mas apenas tivemos aprovação em agosto de 2017. E ainda tivemos que esperar até dezembro de 2019 para vermos este sonho tornar-se realidade.”

Reconhece que foram anos difíceis: “Exigiu bastante de nós, com muito trabalho extra, sendo frustrante constatar que, apesar de já se ter todas as condições para se ser modelo B, ainda foi preciso esperar 3 anos...”



Novo desafio: “Queremos ser acreditados"

Nunca “baixando os braços”, a coordenadora fez tudo para que a equipa se mantivesse motivada e uma das soluções passou pela prática de exercício físico.

“Começámos por caminhadas à hora de almoço e agora até já praticamos alguns exercícios mais complexos. É muito importante ter este momento para descontrair, porque o burnout é uma realidade. A sobrecarga de trabalho é muito grande, tendo sido ainda maior quando nos candidatámos a modelo B”, reconhece. Entretanto, alguns membros da equipa também já participam em corridas, “não propriamente maratonas, mas naquelas de distâncias mais curtas...”



Olhando para o futuro, Ana Paes de Vasconcellos espera manter “um trabalho de qualidade” e, dentro de algum tempo, colocar outro desafio: “Queremos ser acreditados. Para isso, vamos utilizar os incentivos que estão acumulados desde 2014...”

"Inevitavelmente", a unidade vai manter as ações de formação e de educação para profissionais e população. “É o nosso ADN”, justifica a coordenadora: "Acreditamos na promoção da saúde e na prevenção da doença através dos Cuidados de Saúde Primários como pilar do Sistema Nacional de Saúde, e, por isso, a USF São Martinho de Alcabideche irá continuar a apostar na formação como um caminho para a excelência."



A reportagem completa à USF São Martinho de Alcabideche (realizada em momento anterior à declaração do estado de emergência em Portugal), pode ser lida na edição de junho do Jornal Médico dos cuidados de saúde primários

Publicação distribuída todos os meses a profissionais de todas as unidades de cuidados de saúde primários do SNS.

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