Utentes sem médico de família têm Via Verde para cuidados médicos e de enfermagem

A Via Verde Saúde Laranjeiro (VVL) arrancou em fevereiro de 2020, na Unidade de Cuidados de Saúde Personalizados (UCSP) Santo António do Laranjeiro, que assiste cerca de 20 mil utentes, sendo que 7200 não têm médico de família e 2 mil são esporádicos. Acresce a esta realidade a circunstância de na zona haver muitas famílias desfavorecidas sob o ponto de vista socioeconómico e bastantes imigrantes, alguns deles em situação ilegal.



“Sempre me preocupou este problema a que assistimos nos cuidados de saúde primários, onde há muitas injustiças sociais, com impacto no acesso à saúde. Todos devem ter direito a dispor de uma uma equipa de família”, realça Alexandra Fernandes.

A médica de família da USF Fernão Ferro Mais, que integra o ACES Almada/Seixal, é “a mãe” da VVL. Sendo uma cara conhecida da reforma dos CSP, numa altura em que trabalha a tempo parcial na sua USF, ajuda o ACES a fazer algo de diferente. “Nesta fase da carreira, uma das minhas principais missões é facilitar o acesso a quem não tem equipa de família”, afirma.

Mesmo assim, faz questão de sublinhar que o trabalho desenvolvido pela VVL resulta do empenho de “uma equipa fantástica”, cabendo-lhe a si “apenas ajudar” com 12h semanais. “São profissionais jovens, motivados e esforçados, que estão a fazer a diferença na vida de muitas pessoas”, frisa Alexandra Fernandes.


Alexandra Fernandes e Mónica Martins, coordenadora da VVL

Projeto atrai jovens especialistas

A criação do projeto acabou também por ser, como reconhece, uma forma de “animar” quem integra a UCSP, o que se explica pelo facto de, com a VVL, as vagas para médicos recém-especialistas na UCSP terem sido todas preenchidas:

“Há muito tempo que ninguém se candidatava, mas este ano, em outubro, conseguiu-se que as três vagas fossem ocupadas por jovens recém-especialistas, todos muito bem classificados no exame da especialidade, tendo um deles ficado em primeiro lugar.”

Em tempo de pandemia, o projeto ainda sofreu alguma estagnação nos primeiros meses, já que, devido ao trabalho nas áreas dedicadas à covid - comunidade (ADC-C) – atualmente, áreas dedicadas à doença respiratória - comunidade (ADR-C) –, a equipa ficou reduzida a uma especialista e a uma interna.

“Tem sido uma aventura, por causa dos casos de covid-19 que se têm registado na região, para os quais tem contribuído o facto de a população viver em condições muito precárias, onde não é fácil, ou mesmo possível, cumprir o isolamento necessário”, indica a médica.

Acresce a pouca literacia em saúde, a baixa escolaridade e os imigrantes que não falam português, ou sequer inglês, sendo a maioria de países africanos, do Brasil, Nepal, Paquistão ou Bangladeche. “Há muita gente a viver em condições realmente difíceis!”, relata Alexandra Fernandes.



“Deparo-me com situações que jamais tinha visto na USF”


Um espírito de missão cumprida é o que sente toda a equipa, começando por Mónica Martins, a coordenadora da VVL.

Com 31 anos, recém-especialista em Medicina Geral e Familiar (MGF), deixou a USF Dafundo do ACES Lisboa Ocidental e Oeiras, onde fez o internato, para integrar esta UCSP. “O projeto da VVL é muito atrativo porque permite otimizar, de forma organizada, o acesso a cuidados de saúde por parte de uma população que é alvo de uma grande desigualdade social”, conta.

Habituada a uma realidade diferente no Dafundo, Mónica Martins diz que não estava à espera de ver patologias em estado tão avançado. E adianta: “O maior problema prende-se com as doenças não diagnosticadas, e não me refiro apenas a hipertensão ou à diabetes, mas também ao cancro.”



No caso da diabetes, também se tem deparado com uma realidade que dificilmente se esquece. “O diagnóstico surge quando já foi necessário optar por uma amputação minor...” Admite que tem aprendido muito, o que é uma mais-valia para o seu futuro profissional. “Deparo-me com situações que jamais tinha visto na USF, como casos de sífilis em estado muito avançado”, especifica.

O trabalho torna-se ainda mais exigente, mas também “mais motivante”, por ter de conhecer muitas culturas diferentes, com hábitos e crenças diversas. Como nem todos os utentes falam português ou inglês e nem sempre têm o apoio de um interlocutor, recorre-se, com frequência, a tradutores na internet. Mas o maior desafio, nos últimos tempos, tem mesmo sido o acompanhamento dos casos covid junto da população imigrante.

“Não podemos recorrer aos tradutores e, por isso, torna-se necessário telefonar mais do que uma vez para ver se a pessoa entendeu realmente o que dissemos e para despistar possíveis sintomas que não foram mencionados...”, revela.

“É um projeto muito louvável”


Quem está sempre atento à VVL é João Dias Ferreira, 34 anos, recém-especialista em MGF. Depois de ter concluído o internato na USF Cova da Piedade, integrou a equipa da UCSP por causa da VVL, mas acabou, entretanto, por assumir a sua coordenação desde 16 de outubro último.


João Dias Ferreira

Quanto à Via Verde Laranjeiro, não tem dúvidas: “É um projeto muito louvável, que foi idealizado pela Dr.ª Alexandra Fernandes, que é uma figura incontornável da MGF em Portugal e com quem já tinha colaborado na Consulta de Doentes Complexos para utentes sem médico de família, na UCSP Corroios.”

É com orgulho que vê o empenho de todos e o trabalho desenvolvido em equipa. Reconhece, contudo, que “o ideal seria atribuir uma equipa de família a cada um”. A organização da resposta dada na VVL é um dos aspetos que faz questão de salientar e que fez a diferença quando, em março, ao terminar o internato, optou pela UCSP e não por uma USF.

Podem ser consultadas mais fotos e declarações de profissionais envolvidos na VVL no facebook da Just News:



A reportagem completa pode ser lida na edição de janeiro do Jornal Médico dos cuidados de saúde primários, que inclui entrevistas a uma dezena de profissionais da equipa: de Medicina, Enfermagem e Secretariado Clínico.




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