Opinião

«A depressão nos idosos nunca deverá ser encarada como consequência do envelhecimento»


Sofia Duque

Internista, Coordenadora da Unidade de Ortogeriatria do CHLO - Hospital São Francisco Xavier. Coordenadora-adjunta do NEGERMI - Núcleo de Estudos de Geriatria de Medicina Interna.



A depressão é a condição psicopatológica mais frequente nos idosos e, devido à elevada prevalência e impacto negativo na qualidade de vida, é considerada uma das principais síndromes geriátricas.

A depressão nos idosos é potencialmente mais grave do que nos indivíduos não idosos, estando associada a risco de suicídio superior comparativamente às pessoas mais jovens.

A dimensão do problema acentua-se pelo facto da depressão ser subestimada, pelos próprios idosos, familiares e/ou cuidadores, já que é comum ser considerada uma consequência inevitável e natural do envelhecimento, relacionada com a diminuição da atividade social, a perda de familiares e amigos, a presença de doenças orgânicas, o compromisso sensorial (po défice auditivo e de visão), a incapacidade e os problemas socioeconómicos.

Todos estes são fatores que podem contribuir para a depressão, mas esta nunca deverá ser encarada como uma alteração fisiológica do envelhecimento, irreversível e intratável.

O contexto atual da pandemia covid-19 tem contribuído para a acentuação de muitos destes fatores, aumentando o risco e a prevalência da depressão ou agravando a depressão pré-existente. 


O reconhecimento da maior vulnerabilidade das pessoas idosas para a infeção SARS-Cov2 e com formas mais graves e potencialmente fatais tem desencadeado mecanismos de proteção dos idosos para promover o distanciamento físico, que malogradamente aumentam o isolamento social e a solidão, diminuem a atividade social e física, restringem o acesso a cuidados de saúde, comprometem o controlo das doenças crónicas.


São exemplos dessas medidas:

– O confinamento ao domicílio, com consequente diminuição dos contactos sociais, nível de atividade física, participação nas atividades do dia-a-dia e menor acessibilidade a bens de consumo, não só os essenciais (p.ex. alimentos e medicação), mas outros que se revelam relevantes para o bem-estar da pessoa idosa (p.ex. jornais e livros);

– O encerramento de centros de dia; a suspensão de atividades lúdicas e de atividade física programadas, na comunidade ou no domicílio;

– A suspensão de atividades de estimulação cognitiva e de fisioterapia; a limitação das visitas nos lares ou mesmo no domicílio;

– O adiamento das consultas médicas presenciais e exames complementares de diagnóstico;

– A limitação dos serviços de apoio domiciliário e de voluntariado, p.ex., com impacto na qualidade da alimentação e dos cuidados básicos e de saúde.


Sofia Duque

Enquanto profissionais de saúde, é plausível questionarmo-nos se estas medidas não serão mais prejudiciais do que benéficas, se considerarmos a pessoa idosa no seu todo. Afinal, a saúde não é só a ausência de doença (neste caso, a covid-19!).

Nos tempos atuais, outros fatores podem contribuir para a depressão como: sentimentos de inutilidade face à crise gerada pela covid-19; medo de contrair a doença, potenciado pela avalancha de notícias negativas, transmitidas repetitivamente na televisão e rádio; medo de não ter acesso a cuidados de saúde e ver as suas doenças crónicas descompensadas; angústia pela sensação de tempo perdido e de perda de vivências, devido ao isolamento social e potenciada pela sua esperança de vida já reduzida; sentimentos de insegurança quando há exposição a situações de risco incontornáveis.

Por estes motivos, nesta era da covid-19, é expectável o aumento da prevalência da depressão, tornando-se premente contrariar o mito enraizado na sociedade e na comunidade médica de que a depressão é algo banal e diagnosticar precocemente.


No idoso a depressão pode-se apresentar de forma atípica

Face ao comum subdiagnóstico da depressão nas pessoas idosas, o seu rastreio é incluído na Avaliação Geriátrica Global, através da aplicação de escalas; contudo, a avaliação clínica deve prevalecer sobre as escalas e é fundamental compreender que no idoso a depressão se pode apresentar de forma atípica, não sobressaindo a tristeza, o humor depressivo ou a anedonia, mas antes sintomas somáticos, como as alterações do sono e do apetite, a fadiga, a obstipação, a dor (abdominal, torácica, musculoesquelética e cefaleias), ou mesmo a deterioração funcional e cognitiva e o abuso de substânciascomo o álcool.

A irritabilidade e os sintomas psicóticos são também mais comuns no idoso. Reconhecer que determinadas doenças crónicas e fármacos (Tabela 1) aumentam o risco de depressão permite aumentar o grau de suspeição do diagnóstico de depressão e minimizar o subdiagnóstico.

Uma vez diagnosticada a depressão, é fundamental tratar, recorrendo a estratégias farmacológicas, sem hesitação, mas sem menosprezar estratégias comportamentais e ambientais, adaptadas ao contexto atual da pandemia. Várias medidas podem minimizar o isolamento social, preservando o distanciamento social necessário ao controlo da transmissão da doença. Estas várias medidas (Tabela 2) podem ser postas em prática pelos profissionais de saúde mas também pelos familiares, amigos e cuidadores do idoso, e mesmo pelas instituições.

Doenças crónicas, síndromes geriátricas e fármacos associados à depressão no idoso (Tabela 1):

• Hipotiroidismo e hipertiroidismo

• Défices vitamínicos (ácido fólico, vitamina B12, vitamina D)
• Diabetes mellitus (descompensada)
• Desequilíbrios iónicos (hiponatremia, hipo- e hipercalcemia)
• Demências
• Doença cerebrovascular
• Doenças oncológicas
• Infeções
• Insuficiência cardíaca
• Doença pulmonar obstrutiva crónica
• Desnutrição
• Cólon irritável
• Doença osteoarticular degenerativa
• Doença de Parkinson
• Incontinência urinária
• Hipoglicemia
• Desidratação
• Doença de Addison
• Quedas e síndrome de imobilidade
• Polimedicação
• Fármacos
   - Benzodiazepinas
   - Tiazidas
   - Betabloqueantes (p.ex. propanolol)
   - Digoxina
   - Metoclopramida
   ~ Antipsicóticos (p.ex. haloperidol)
   - Levodopa
   - Bromocriptina
   - Ranitidina
   - Antiepiléticos (p.ex. barbitúricos, carbamazepina, fenitoína)
   - Antituberculostáticos

Intervenções ambientais e comportamentais na abordagem da depressão no idoso na era da covid-19 (Tabela 2):

• Questionar o idoso sobre alterações do sono, apetite e humor
• Promover a possibilidade da pessoa idosa verbalizar os seus sentimentos, pensamentos e receios
• Incentivar e motivar o idoso a manter as suas atividades habituais de forma adaptada
• Manter rotinas diárias, como se saísse à rua (tomar banho, vestir, “café virtual”, reuniões virtuais com os amigos, ler o jornal, etc.)
• Aprendizagem e uso de novas tecnologias e uso das redes sociais
• Aprendizagem de uma atividade nova
• Estabelecer formas de comunicação à distância (reuniões à janela, chamadas telefónicas, videochamadas, visitas ou convívios por Zoom ou Skype)
• Realizar consultas médicas e de enfermagem, sessões de fisioterapia ou estimulação cognitiva à distância (privilegiar modalidades com vídeo e em tempo real)
• Praticar hobbies e atividades lúdicas com monitorização, de preferência em tempo real
• Praticar atividade física em casa, segundo orientação de profissional e com supervisão
• Preparar surpresas ao idoso
• Avaliar o habitat do idoso através de videochamadas
• Assegurar serviços de entrega de bens essenciais, respeitando as preferências do idoso
• Cuidar de animal de estimação que não necessite de sair à rua (p.ex. gato, hamster, pássaro...)
• Promover sessões informativas e de esclarecimento de dúvidas sobre a covid-19 online, dedicadas especificamente aos idosos e focadas na informação relevante; idealmente, com possibilidade de interação;
• Participar em eventos de lazer, cultura e religiosos online, com possibilidade de interação
• Adotar o lema “Distanciamento social não é solidão”, a nível individual e institucional



Artigo publicado na edição de outubro do Jornal Médico dos cuidados de saúde primários, no âmbito de um Especial dedicado à 4.ª Reunião do Grupo de Estudos de Geriatria.
Jornal distribuído em todas as unidades de cuidados primários do SNS. 
Porque as boas práticas merecem uma ampla partilha entre profissionais!

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