A doença alérgica na Urgência
Libério Ribeiro
Pediatra e Imunoalergologista. Presidente da Sociedade Portuguesa de Alergologia Pediátrica
Nas últimas décadas, assistimos ao aumento das doenças alérgicas em geral e também ao aumento da sua severidade, particularmente na alergia alimentar, o que implica uma maior afluência aos serviços de Urgência.
A procura dos serviços de Urgência é feita por expressões alérgicas sem grande importância até às verdadeiramente urgentes, que podem colocar a vida em risco e que necessitam de uma avaliação rápida da sua gravidade, procurando sinais de alarme e o estabelecimento de tratamento adequado.
Pais angustiados consideram como urgências muitas situações benignas, cabendo ao pediatra, e aproveitando essa oportunidade, o esclarecimento e a educação para sinais ou sintomas de alarme em cada patologia.
As patologias alérgicas observadas por ordem de frequência no Serviço de Urgência são a asma, a urticária e a anafilaxia, pela sua expressão clínica mais ou menos alarmante ou incomodativa para a criança e seus familiares. Analisaremos sumariamente cada uma delas, pela ordem potencial de gravidade e necessidade de rápida intervenção.
A anafilaxia é a verdadeira causa de emergência médica. É uma reação de hipersensibilidade sistémica generalizada, geralmente de início súbito, grave e potencialmente fatal, com manifestações multissistémicas, que requer uma intervenção rápida, sendo a adrenalina o medicamento de primeira linha, o que, infelizmente, nem sempre acontece, mesmo nos serviços de Urgência.
A anafilaxia apresenta geralmente afetação da pele e/ou mucosas, como urticária e/ou angioedema, compromisso respiratório, diminuição da pressão arterial sistólica e sintomas associados de hipoperfusão. Pode acompanhar-se de sintomas gastrointestinais como dor abdominal e vómitos.
Na anafilaxia, além das manifestações clínicas, importa saber a sua cronologia e identificar o contexto em que surgiram os sintomas, não esquecendo os possíveis cofatores, como o exercício físico, a toma de anti-inflamatórios não esteroides, a febre, o álcool e outros.
Saber o alérgeno responsável pela anafilaxia, identificar e confirmar através de provas cutâneas e laboratoriais é mandatório, procurando evitar ou diminuir o risco de futuras anafilaxias.
Um plano de ação e de autotratamento deve ser indicado e feita a prescrição de autoinjetores de adrenalina, ensinando e demonstrando a sua forma de utilização.
A asma é a doença alérgica mais prevalente em idade pediátrica e pode manifestar-se com diferentes graus de gravidade, o que implica um diagnóstico correto e terapêutica adequada. Quando diagnosticada e bem controlada com medicação preventiva, de manutenção, raramente existem agudizações que impliquem idas ao Serviço de Urgência.
Do número total de idas ao Serviço de Urgência por agudização de asma, só 1/4 dos doentes estavam a ser seguidos em Consulta de Alergologia e alguns destes não tinham plano escrito da sua terapêutica e indicação dos sintomas perante os quais deveriam procurar o Serviço de Urgência.
A asma severa, que poderá, mesmo com a medicação de manutenção adequada, ter exacerbações que necessitem de cuidados especiais, é pouco frequente em idade pediátrica, não ultrapassando os 3 a 5%.
A urticária, que, por vezes, se acompanha de angioedema, é relativamente frequente na criança, cerca de 7%, e a sua etiologia é muito variada, sendo as causas físicas, como o dermografismo, o frio, a pressão, o contato com a água e as infeções, os principais fatores desencadeantes.
As urticárias alérgicas, mediadas por IgE, são habitualmente originadas por alimentos e mais raramente por medicamentos e picadas de insetos. A urticária é a manifestação mais constante na anafilaxia. Na criança, 85% das urticárias são agudas e a maioria sofre um único episódio, que não se repete.
A urticária crónica, rara na criança, implica o seguimento numa Consulta de Alergologia Pediátrica para esclarecimento da causa, que pode ser múltipla, desde fatores físicos a hormonais e parasitários.
É urgente separar a urgência da pseudo-urgência, permitindo aos médicos maior disponibilidade física e psicológica para o atendimento das reais urgências, com múltiplos e, por vezes, complexos problemas de diagnóstico e tratamento e que requerem intervenção rápida e eficaz.
Nota: Este artigo de opinião foi escrito para a edição Especial 25.º Congresso Nacional de Pediatria do Jornal Médico.


