Opinião

«A mudança no Hospital Público e a medicina de precisão»


Alexandre Lourenço

Presidente da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares.



O discurso comum fala da necessidade em transformar o paradigma de “tratamento da doença” para uma visão de “prevenção e promoção da saúde”. Qualquer pessoa de boa-fé concorda em melhorar os ganhos em saúde e reduzir o desperdício, seja pela redução de supérfluos custos administrativos, de diagnósticos inadequados, da sobreprestação de cuidados ou dos tratamentos subótimos. Sendo simples proclamar vontades, mais difíceis são as suas concretizações.

As mudanças num serviço, num departamento, num hospital ou num sistema de saúde implica que uns ganhem e outros percam, esperando-se destes últimos diferentes níveis de ferocidade, de acordo com o nível de perda ou… o requinte de malvadez. De quem proclama a necessidade de mudança espera-se liderança e a estratégia para a sua implementação. Infelizmente, apenas raramente assim sucede.

Será sempre mais simples proclamar do que fazer, criticar do que construir, ver os navios passar do que apontar caminhos, identificar inimigos do que construir pontes, ou declarar guerras sem promover a paz interna.


Alexandre Lourenço

A medicina de precisão consiste numa abordagem para tratamento e prevenção da doença, tendo em consideração a variabilidade genética, o ambiente e o estilo de vida de cada pessoa. Esta abordagem chapéu, que se estende da saúde pública aos tratamentos mais sofisticados, tem sido apontada inexoravelmente como uma das estratégias a seguir para a evolução do sistema de saúde. Nestas matérias existe sempre uma de duas hipóteses: atuamos ou ignoramos.

Temos ideia da percentagem da população de doentes para a qual, em média, o medicamento de uma dada classe é ineficaz? Fica uma ideia, de acordo com o “The Personalized Medicine Report” de 2017: Asma (40%), Diabetes (43%), Artrite (50%), Alzheimer (70%) e Oncologia (75%).

A Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares (APAH), com o apoio institucional da Ordem dos Médicos e o apoio técnico da EY, envolveu vários intervenientes e apresentou uma agenda estratégica para a medicina de precisão com o objetivo de termos um guia para os próximos anos.

Nesta agenda são apresentados 5 objetivos e várias orientações estratégicas:

1. Melhorar os resultados clínicos através do acesso equitativo a cuidados de saúde personalizados, através da promoção do acesso a diagnósticos e tratamentos inovadores e capacitar centros para darem resposta a tratamentos inovadores;

2. Guiar a prática clínica através de Real-World Data, através do estabelecimento de uma política nacional de dados em saúde, investimento numa plataforma integradora de dados e ferramentas de apoio à decisão clínica, e caracterização molecular focada em subgrupos da população;

3. Garantir a sustentabilidade financeira na implementação de medicina de precisão, através da criação de uma estratégia de atração de investimento em infraestruturas, e alargamento do pagamento de cuidados de saúde com base em resultados;

4. Aumentar a capacidade de Portugal para desenvolver inovação na área da medicina de precisão, através da promoção da inovação e do fomento da colaboração nacional e internacional nesta área;

5. Reforçar a participação do cidadão na sua saúde, através da promoção da literacia em saúde e da medicina de precisão, e desenvolvimento de estratégias para o empoderamento dos cidadãos como agentes da sua saúde.

Esta agenda estratégica pretende melhorar o serviço de saúde prestado ao cidadão, procurando fundamentalmente aplicar o tratamento certo, à pessoa certa, no momento certo (_Right treatment. Right patient. Right time_).

É nossa convicção que o Hospital Público ainda vai a tempo de desenvolver um modelo economicamente sustentável que permita garantir melhores resultados de saúde para os doentes e o crescimento económico, através da promoção de investigação e a inovação nesta área.

O Hospital Público deve acompanhar o progresso internacional, devendo ser promovido o investimento e o compromisso com este novo paradigma, através da definição de uma estratégia coordenada e integrada a nível nacional, que tenha em consideração o envolvimento de todos os interessados.

Melhor Gestão, Mais SNS.



Artigo publicado na edição de janeiro/fevereiro do Hospital Público, jornal distribuído em serviços e departamentos de todos os hospitais do SNS.

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